domingo, 25 de agosto de 2013

Aqui habita um professor? - V.


As aulas mais irritantemente infernais que dou são em uma turma de 7ª série. São também as duas últimas aulas desta turma às segundas e quartas feiras - as paciências deles já estão bem esgotadas, após três horas e quarenta minutos socados dentro da escola, e ainda tendo de aturar mais uma hora e quarenta de Geografia na cabeça.
Entendo, plenamente, a falta de vontade deles em fazerem silêncio, se sentarem, ouvirem o que digo, responderem o que pergunto, não conversarem etc. 
Entendo, que é mais interessante papear com os colegas, mexer no celular, buscar uma realidade mais saborosa na profundeza de sonhos sonhados com a cabeça repousada na mochila sobre a mesa, do que ouvir falar, ler, escrever e pensar sobre a Fotossíntese, a Biomassa, o Ciclo do Carbono.
Entendo, que a zoeira atraí mais do que a "ordem" - no sentido mais positivista que seja possível - pois eu mesmo sou assim.

Porém, quando estou à frente da sala com o giz na mão, estou ali desempenhando um papel, fazendo parte de uma estrutura na qual "entender a zoeira" é até bem vindo, mas não é fim: tenho que construir naquele ambiente um mínimo de organização, entendida como um pacote composto por "bunda na cadeira/boca fechada/caderno e apostila abertos/atenção redobrada".
Na maioria das vezes eu fracasso neste intuito (talvez por não crer tão bem nele assim). Fracasso e tenho que correr atrás deste não deixar a zoeira dominar o espaço, e lutar contra os badernistas (lutar contra mim mesmo!).
Às vezes, como disse no início deste texto, isto é "irritantemente infernal", desgastante.

Não raro, acabo estas duas últimas aulas das segundas e quartas e me concentro em apagar a lousa, no que sou repreendido pelas moças responsáveis pela limpeza da escola: "ai professor, que é isso, não precisa apagar a lousa, isso é serviço nosso". Normalmente lhes digo que pra mim não tem problema algum, e o faço papeando com elas sobre merenda, sobre como os alunos deixam lixo na sala, sobre "me perdoe, não me lembro seu nome"...

Faço este ato de apagar a lousa, primeiro, como uma forma de demonstrar o respeito que tenho pelo trabalho que estas moças e jovens senhoras desempenham, nunca reconhecido à altura, tanto na escola, quanto na sociedade - note, quando alguém quer traçar uma escala de "A a Z" em termos de sucesso em qualquer estrutura hierárquica/profissional, não é incomum ouvirmos frases como: "da faxineira ao diretor", "do gari ao presidente": quem limpa é sempre "o mais baixo".
Em segundo lugar (como foi o caso específico naquela quarta feira), passo alguns minutos raspando o apagador na lousa dura, raspando o feltro do apagador no gesso dos traços de giz com ódio, como uma forma de descarregar as pulsões raivosas que me fazem ferver o sangue durante estas aulas. 
É algo como realizar um exercício de breve esforço físico para deixar na sala de aula, a raiva que apenas nela se criou.


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