sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Aqui habita um professor? - VI.


Durante uma aula de artes em um 6º Ano (vulgo: 5ª série) os alunos me pediram autorização para se sentarem em duplas para a realização dos desenhos. Como não vejo problemas nisto, pelo contrário, acho até que pode ser uma forma menos dolorosa de viver a aula, autorizei.
Já tendo algum conhecimento sobre duas categorias de alunos desta sala - os "zueiros que afrontam as pseudo ordens que surgem na sala" e os "obedientes que fazem tudo que lhe pedem sem questionar" - achei estranho um aluno "tipo ideal" da primeira categoria ter se sentado com um da segunda. Nunca os observei juntos em aulas ou mesmo pela escola. Estranhei, mas não desautorizei nada.
Notei que uma mescla de comportamentos começou a ocorrer entre ambos: o zueiro se dispunha ao desenho (algo raro) e o obediente se dispunha à algumas zoeiras (como desenhar um pênis numa das folhas do caderno, rindo euforicamente).
Após algum tempo sentados juntos, o garoto "menos zueiro" se levantou e veio até onde eu estava, com um lápis e um caderno na mão perguntou-me em voz alta se seu desenho estava correto, enquanto eu dizia que estava e tecia breve comentário sobre, ele praticamente sussurrou em meu ouvido: 

"professor, me manda de volta pro meu lugar por quê o Fulaninho tá me enchendo e não me deixa voltar pro meu lugar?". 

Ao que respondi, com plena estranheza (na verdade, sem saber como agir), que sim, mas pedi pra ele me dar algum motivo para tal. "Beleza". 
Voltou para o lugar junto do colega baderneiro, sentou-se na carteira, arrancou uma folha do caderno, fez uma bolinha de papel, atirou num colega e olhou para mim com olhos de boa expectativa. 
Ainda desconcertado com este papel de Policial Militar que me fora outorgado, sugeri que voltasse ao seu lugar de origem na sala - identificado em um "mapa" colado acima da lousa. Sem questionamentos do colega, ele juntou seu material e se dirigiu à sua mesa, passando próximo de onde eu estava e dizendo baixinho: "valeu sôr".

Penso nos "poderes simbólicos", nas "lideranças negativas", no "papel do professor", nos "modelos teóricos de auto gestão", na "escola que parece um presídio" (palavras de uma aluna de 7ª série) e não sei o que, de fato, pensar sobre este episódio.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Notas cotidianas de um cara que tá se sentindo bem - Sete.


Os passos se desembaraçam pela rua, ainda quase nada tortos, são retilíneos e ainda perigosos - se trata de "cedo", quando há expectativa de ver o sol nascer.
Mas, por outro lado, aquele velho demônio (e seu garfo com extremidades pontiagudas) fica a cutucar o ombro, as orelhas, as nádegas, como quem diz: 

"otário, não vai güentar, não vai ficar pra ver o sol raiar, vai dar meia volta, vai voltar, de repente, do nada; otário".

O que responder ao tridente do velho demônio? 
As palavras rabiscadas no caderninho de bolso - já é tarde, o caderninho é iluminado pelos primeiros raios do sol - com as mãos trêmulas do frio e cambaleantes como as ideias firmes:

"Ufa, ainda sei ser simpático, ainda sei falar, ainda sei ouvir, ainda sei sorrir; ufa, ainda sou gente, assim, humana".

Pro inferno com os tridentes que fizeram, durante um curto, mas doloroso tempo, os passos se desviarem por medo da própria inumanidade: eu sou gente, eu sou humano e quero gente - humana.




domingo, 25 de agosto de 2013

Aqui habita um professor? - V.


As aulas mais irritantemente infernais que dou são em uma turma de 7ª série. São também as duas últimas aulas desta turma às segundas e quartas feiras - as paciências deles já estão bem esgotadas, após três horas e quarenta minutos socados dentro da escola, e ainda tendo de aturar mais uma hora e quarenta de Geografia na cabeça.
Entendo, plenamente, a falta de vontade deles em fazerem silêncio, se sentarem, ouvirem o que digo, responderem o que pergunto, não conversarem etc. 
Entendo, que é mais interessante papear com os colegas, mexer no celular, buscar uma realidade mais saborosa na profundeza de sonhos sonhados com a cabeça repousada na mochila sobre a mesa, do que ouvir falar, ler, escrever e pensar sobre a Fotossíntese, a Biomassa, o Ciclo do Carbono.
Entendo, que a zoeira atraí mais do que a "ordem" - no sentido mais positivista que seja possível - pois eu mesmo sou assim.

Porém, quando estou à frente da sala com o giz na mão, estou ali desempenhando um papel, fazendo parte de uma estrutura na qual "entender a zoeira" é até bem vindo, mas não é fim: tenho que construir naquele ambiente um mínimo de organização, entendida como um pacote composto por "bunda na cadeira/boca fechada/caderno e apostila abertos/atenção redobrada".
Na maioria das vezes eu fracasso neste intuito (talvez por não crer tão bem nele assim). Fracasso e tenho que correr atrás deste não deixar a zoeira dominar o espaço, e lutar contra os badernistas (lutar contra mim mesmo!).
Às vezes, como disse no início deste texto, isto é "irritantemente infernal", desgastante.

Não raro, acabo estas duas últimas aulas das segundas e quartas e me concentro em apagar a lousa, no que sou repreendido pelas moças responsáveis pela limpeza da escola: "ai professor, que é isso, não precisa apagar a lousa, isso é serviço nosso". Normalmente lhes digo que pra mim não tem problema algum, e o faço papeando com elas sobre merenda, sobre como os alunos deixam lixo na sala, sobre "me perdoe, não me lembro seu nome"...

Faço este ato de apagar a lousa, primeiro, como uma forma de demonstrar o respeito que tenho pelo trabalho que estas moças e jovens senhoras desempenham, nunca reconhecido à altura, tanto na escola, quanto na sociedade - note, quando alguém quer traçar uma escala de "A a Z" em termos de sucesso em qualquer estrutura hierárquica/profissional, não é incomum ouvirmos frases como: "da faxineira ao diretor", "do gari ao presidente": quem limpa é sempre "o mais baixo".
Em segundo lugar (como foi o caso específico naquela quarta feira), passo alguns minutos raspando o apagador na lousa dura, raspando o feltro do apagador no gesso dos traços de giz com ódio, como uma forma de descarregar as pulsões raivosas que me fazem ferver o sangue durante estas aulas. 
É algo como realizar um exercício de breve esforço físico para deixar na sala de aula, a raiva que apenas nela se criou.


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Agressão & Ameaça.


Breve relato de José Gomes Neto - X:


"Ontem à noite meu corpo travou, e me impediu de entrar no bar onde estava a "mulher" que me agrediu fisicamente (e que é filha do "homem" que me ameaçou verbalmente).
Serão tempos difíceis estes próximos, e, ao que tudo indica, meus únicos excessos serão a reclusão e o sumiço - e às pessoas que me disseram sorrindo frases como: "nossa, quanto tempo, você sumiu, que bom te ver", digo que também é bom lhes ver, mas peço que guardem estes sorrisos e esta frase, novamente, por mais algum tempinho, vou ter que 'sumir' mais uma vez: agressão física e ameaças verbais deixam marcas nada serenas em nós, e o medo (de ser agredido, mediante concretização da ameaça) impede o corpo de ir adiante".

José Gomes Neto,
08 de Agosto de 2008,
Agredido & Ameaçado.


sábado, 10 de agosto de 2013

Aqui habita um professor? - IV.


[Na verdade, quando você é um cara que tá se sentindo bem, consegue encontrar poesia nas coisas que faz, muito mais do que quando tava se sentindo mau, as encontras [ou elas surgem] até mesmo no próprio trabalho. De modo que este texto se articula com outra série ainda corrente neste blogue: "Notas cotidianas de um cara que tá se sentindo bem"].

Deveria estar dedicando todos os dias destas duas primeiras semanas de Ao-gosto para os estudos à prova do dia 19. Mas não estou o fazendo. 
Deveria estar passando dia e noite com a cara atolada nos livros, mas apenas o faço nos intervalos das aulas que 'peguei' para dar nesses dias.
Não queria ter 'pego' estas aulas, em Julho havia me feito jurar que não 'pegaria' mais aulas, para poder estudar. Mas, veja só, eram 24 aulas semanais, e de Artes. 
Como já disse alguns anos atrás, Deus Debocha de mim, de você e de nós. E ele tirou um grande sarro de mim, me colocou em xeque ao fazer caírem em meu colo estas 24 aulas de Artes. E eu, pipoquei à promessa feita a mim mesmo.
Pipoquei aos planos traçados longinquamente lá pros idos de Abril deste 2013?
Se fossem 24 aulas de Geografia (em tese, a disciplina de que sou professor na Escola) ou de História, eu nem teria pensado para dizer à secretária do colégio: "olha, não posso não".
Mas eram de Artes.
E ai, o cara que não sabe ao certo se é professor, que não sabe qual prática docente operacionaliza; o cara que se sente mais um PM dentro de sala de aula que um educador; percebe que, na verdade, ruim não é dar aula, ruim é ensinar o que tem que ensinar - geografia física, fotossíntese, biomassa, lençóis freáticos, credo.
Mas vieram as aulas com perfume de giz-de-cera, com som do ruído dos apontadores; vem alunos - reconhecidos universalmente dentro da escola como 'baderneiros sem limites' - demonstrar criatividades, ideias, disposições também sem limites.
Aliás, com limite: 50 minutos por aula.


"Eu deveria estar apenas estudando para a prova do mestrado de Antropologia Social, mas estou me encantando e deliciando lecionando teorias, histórias e técnicas sobre grafite: aqui habita um professor?".


Foto de quando ministrei, junto à querida Professora Rita, uma oficina de Estêncil e Sticker em 2005, no colégio em que eu cursava, neste ano, o segundo colegial.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Notas cotidianas de um cara que tá se sentindo bem - Seis.


Segunda Feira, 5 de Agosto de 2013, 9 horas e 6 minutos da manhã, Rua Carlos Gomes - Centro da Cidade.

Entrei no segundo ônibus do dia, talvez por milagre, antes da hora necessária (para a qual, normalmente, estou sempre quase-atrasado).
Observava as calçadas ainda não tão cheias de pessoas, notei uma ou outra loja com as portas semi abertas, e um outro tanto de lojas ainda fechadas.
Ainda dentro do primeiro ônibus desta manhã, e já observando esse 'não movimento' pela cidade, me coloquei a pensar: "engraçado, como quando estamos dentro do ônibus e vemos pessoas na rua: nós as vemos, mas elas não nos vêem, apenas vêem um ônibus passando; não sabem que dentro dele pode ter alguém dizendo: 'ei, estou aqui dentro, olha!'".
Ironicamente, às nove hora e seis minutos desta manhã, quando meu segundo ônibus do dia passava pela Rua Carlos Gomes, acompanhei - de dentro do ônibus, sem ser notado - alguns passos de uma pessoa específica.

Passos estes que não devem ultrapassar a numeração 37 da escala numérica demarcada pelos fabricantes de calçados.
Calçados estes que pisam a calçada, servindo de base cotidiana para o caminhar da vida daqueles cabelos cor-de-sol.
Cabelos estes que servem de moldura radiante para um rosto que expõem, no seu um terço inferior, um sorriso tão superiormente belo que faz com que qualquer Rua (Carlos Gomes ou não), a qualquer hora (09 horas e 06 minutos ou não), se transforme numa passarela - uma passagem urbana - por onde desfila tão belo esplendor humano.

Mas, estando eu dentro do ônibus, ela nem me viu.


domingo, 4 de agosto de 2013

Notas cotidianas de um cara que tá se sentindo bem - Cinco.


Pensamento curto e rápido, sem voz, apenas na cabeça, dentro do ônibus chacoalhando na região da Casa Verde: 

"Caramba, será que constrangi a moça que estava em pé e que se sentou de modo apressado tão logo se liberou um lugar? Realmente acho que a constrangi. Puxa. Devia pedir desculpas. Pior que eu só tava olhando por que ela é muito parecida com aquela moça bonita cheia de encantos por quem fiquei encantado uns dias atrás. Desculpa moça. Vou pedir desculpas pra ela. Aliás, um saco isso: você se encanta por um sorriso colossalmente arrebatador e depois o vê em dezenas de bocas por ai".

Ps: no caso, pros termos de escrita e publicação do trecho deste momento, suprimi o nome da moça em questão com o período "aquela moça bonita cheia de encantos por quem fiquei encantado uns dias atrás". 
Porém, ela é realmente encantadora.


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Notas cotidianas de um cara que tá se sentindo bem - Quatro.


Precisei voltar às pressas para a cidade onde moro, trabalho e tento tocar a minha vida sem grandes percalços. Vi os horários do ônibus e organizei-me para pegar o último horário que chegaria lá dando-me tempo de utilizar o transporte público municipal, da rodoviária até a minha casa.
Joguei algumas coisas na velha mochila (cansada de guerra) e corri para o raio da Barra Funda. Ainda havia passagens para o ônibus que partiria às sete horas e que chegaria na rodoviária de minha Cidade-Destino às onze e meia da noite. 
Comprei um bilhete e embarquei, torcendo para conseguir cochilar ao menos durante metade do trajeto.
Estava tudo certo e tranquilo, até que na lanchonete em que o ônibus realiza uma parada (que deveria ser breve), um senhor passou mau após engasgar com um pastel, o que atrasou o andamento da viagem em quarenta minutos.
Desembarquei em meu destino meia noite e dez, e me lamentei: "é, terei que ir de táxi".
Próximo ao canteiro em que ficam estacionados os táxis (com taxistas ávidos por arrancar dinheiro de viajantes atrasados, com taxímetros em bandeira dois), vi uma moça com um casaco que levava o nome da mesma faculdade que eu frequentei (ou frequento, não sei) durante mais de meia década: "bom, talvez ela more em algum dos bairros universitários, como eu ainda moro nessa região, vou puxar assunto com ela e talvez propor de dividirmos um táxi, vai que somos vizinhos e não sabemos?".
Disse-me que morava em um bairro ao lado do meu, e que estava esperando um taxista que sempre a busca na rodoviária, que ele lhe cobrava menos do que os outros, que já havia combinado o horário com ele e que, sim, claro poderíamos dividir o gasto com este transporte. 
O taxista começou a demorar.
Nós começamos a conversar.
Continuamos conversando.
Conversamos até quase uma hora da manhã, quando demos conta de que o táxi estava demorando a chegar. Continuamos conversando. Tinha simpatia e ternura no olhar (embora quando levantasse a sobrancelha direita se tornasse extremamente provocante)
O celular dela tocou, era o taxista avisando que levaria ainda dez minutos para lá chegar, um pneu havia furado e precisou parar em uma borracharia 24 horas para trocá-lo - senhor se engasgando com pastel, pneu de táxi furando...
Continuamos conversando.
Quando ela reconheceu o carro do taxista, no horizonte distante e escuro da avenida, me pediu desculpas por interromper-me no que eu dizia, realizou uma breve pausa em sua fala (mordendo o canto do lábio direito) e perguntou se eu queria mesmo dividir o táxi com ela.

-Como assim?
-Ah, em vez de dividir o táxi comigo, você não quer tomar um café em casa?
-Bom - deslizei as pontas dos dedos indicador e polegar do centro do bigode (embaixo do nariz) até as pontas do queixo - eu não sou de negar café.
-Hm - era realmente provocante quando levantava a sobrancelha - um café da manhã?

Eu realmente não sou de negar café. Sobretudo, da manhã.