terça-feira, 30 de julho de 2013

Notas cotidianas de um cara que tá se sentindo bem - Três.


Isto é um diálogo:

-Ai eu tava pensando, que depois que passa tudo, as brigas, os empurrões, as ameaças e tudo, e a gente começa a se sentir meio bem, mais, meio racional, ficam só umas perguntas simplíssimas, até meio cretinas, do tipo: "como posso ter perdido tanto tempo com uma pessoa tão ruim, uma pessoa tacanha?". Sabe, cê fica nessa, e ai vai superando e indo, e caindo um pouco, é verdade. Mas vai. Vê, percebe, entende que perdeu tempo, que perdeu vida. E que não quer mais perder. E ai, segue a vida.
-Tacanha?
-Ahn?
-Tacanha. Que que é uma pessoa tacanha?

Aí o diálogo se rompe, é substituído pelo silêncio. Aliás, aquele silêncio constrangedor em que se percebe que a pessoa disse algo que não sabe ao certo explicar o que é. O famoso "falou besteira". O protagonista da fala se esquiva:
-Bom, tacanha sabe? Uma pessoa tacanha, como se diz...
-Sério cara. Não sei. Que que é isso?
-Cara, de verdade, não sei não. Falei bosta. Foi mau.
-Vou ver aqui na internet do celular.
-Pode ver ai no google. Digita "pessoa tacanha", e aposto que vai aparecer uma foto dela sorrindo fingindo tá feliz com a família vestida de Tropa de Choque.

Começam a rir, o celular volta pro bolso, sem se realizar nenhuma pesquisa: a definição do termo/pessoa, na situação, deu-se da melhor forma forma possível.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Notas cotidianas de um cara que tá se sentindo bem - Dois.


Nesta profissão/ocupação que eu escolhi seguir, que consiste em/envolve ler/pensar/ler/olhar/ler/escrever/ler/olhar, os livros ocupam um lugar central no dia a dia. De modo que, baixá-los (já que estamos no século 21), comprá-los e frequentar bibliotecas, são atos comuns e quase cotidianos.
Às vésperas de uma prova importante (daqui a menos de um mês) sai à busca de comprar os livros que não encontrei, nem para downloads, nem nas bibliotecas próximas. 
Entrei em uma livraria no centro de São Paulo, e meus olhos se chocaram com os de uma moça - sem pesar nos termos, estonteantemente linda - não possuía crachá ou uniforme ou qualquer símbolo que a identificasse como "trabalhadora da livraria", mas me sorriu um sorriso fenomenal, do qual não consegui tirar os olhos.
Me disse oi, lhe disse oi, perguntou se podia me ajudar com algo, perguntei se trabalhava lá, disse que sim, falei que precisava de uns livros, disse que poderia ver para mim se os tinha na loja - esbarrou no mouse do terminal de buscas, e sorriu um sorriso envergonhado.
"Me fala os sobrenomes dos autores; pode ser o título também; ah, esse eu já li, e sei que está esgotado".
Não tinha. Nenhum livro. Mas eu não queria ir embora dali, não queria sair do raio de visão dela. E ela começou a me fazer perguntas, e a me dar sugestões, e me indicar bibliotecas, sites, livrarias, e a querer saber para que precisava daqueles livros, qual era minha profissão/ocupação, como quem diz: "não saia do meu raio de visão".

Mas eu sai.
Mas amanhã, com certeza, precisarei buscar outros livros, minha profissão/ocupação tem disso.




sábado, 27 de julho de 2013

Notas cotidianas de um cara que tá se sentindo bem - Um.


Ainda não sabia ao certo em que ponto eu desceria. Confuso e semi-perdido, não sabia se era melhor descer no início de uma Avenida, ou se no topo de outra - baldear entre ônibus, quando faz tempo que não se perambula por algum lado de São Paulo, tem dessas coisas.
Quando cheguei ao fundo do ônibus, pensando "Avenida Pacaembu ou Doutor Arnaldo?", fui surpreendido por uma moça de rosto lindo e seriedade encantadora sentada no último banco. Apressada, se maquiava.
Era uma face belíssima, se recontornando, realçando as próprias belezas.
Perdi o primeiro ponto em que poderia descer. 
Fingi olhar pelo vidro que havia atrás dela, apenas para acompanhar o abre-e-fecha do estojo com os utensílios de maquiagem, o deslizar do rímel em seus cílios, o movimentar da cabeça com os olhos encarando fixamente o pequeno espelho.

"A gente percebe que a pessoa tem algum vínculo com a arte quando ela pinta um belo retrato mesmo com o ônibus balançando".
Dizia o bilhete que escrevi (em pé, em frente à porta do ônibus) e que lhe entreguei segundos antes de descer do mesmo.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Fim de Romance - XI.


Com uns parafusos a menos, uns chutes e alguns ditos, dentre eles que "é nosso, é nosso, não precisa espalhar", o purê de batatas que habita meu crânio desandou. O silêncio me engoliu. Na verdade o silêncio me mordia. Dormia, e acordava, e trabalhava, e vivia os dias sendo mordido. Carcomido pelo silêncio. Na verdade, quem me mordia, não era o silêncio, mas era o monte de coisas ditas. O monte de coisas feitas. O monte de absurdos vividos - desandadores de purês de batatas mentais! O silêncio entre os outros, se manteve, o silêncio entre nós, se criou. O silêncio entre outros, foi quebrado, misteriosamente: sem remetente, sem assinatura, sem referência. Os absurdos vividos morderam com mais força, com mais dentes, com mais ódio. Desperta criatividade, desperta purê de batatas, desperta cabeça: faça algo útil com essa raiva, com todos esses despropósitos, se livra dessas mordidas, desses empurrões no corpo e na alma. Tudo ia bem, então, outra mordida: um pedido externo de censura, pois "as pessoas leem e falam por aqui, e isso faz mal". A culpa é de quem escreve ou de quem lê e corre a falar? Um sentimento de superioridade soprou, a certeza da mediocridade alheia ecoou. Três dias de silêncio (por mera chacota, assume-se). 
O Fim de Romance já acabou, faz tempo. 
Aqui, enfim, o Fim do Fim de Romance.
O retorno do purê de batatas mental em seu devido lugar.

Abaixo, os links para todos os dez números da série "Fim de Romance" e um par de fotos feitas em 2009:

Fim de Romance - X.


Sobre o que foi dito:

"Aquele meu amigo veio me dizer que uma pessoa contou pra ele umas coisas sobre você. Ele me disse que todo mundo sabe, e que parece que eu sou o único que finge não saber dessas coisas. Disse também que é ridícula a forma como meu olhar está apaixonado. Sabe, não falarei mais com ele, pois acredito que essas coisas que ele disse são mentiras. Não entendo o por que dele ter esse tipo de atitude".

Sobre o que foi feito:

Levou-se à sério o que o suposto amigo dissera, por ter (talvez inconscientemente) acreditado nas coisas que este amigo lhe falou. Embora tenha sido dito o oposto.

Sobre a realidade concreta:

Não houve amigo algum que disse nada. Foi tudo inventado. Tudo fruto do recheio nebuloso de um cucuruco com certeza de perseguição. Legitimou-se o discurso do amigo, e, com ele, cavou-se a cova do próprio Romance.


"Atenção, fabrica-se loucos aqui!".

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Fim de Romance - IX.


Naquela terça feira fria um amigo me ligou, perguntou se eu poderia ajudar com sua mudança. Não sou do tipo que nega ajuda aos amigos, sobretudo a este. Quando estava chegando lá, um questionamento surgiu em meu aparelho de telefonia e mensagismo móvel: "onde você está?", "indo ajudar meu amigo com a mudança", "não acredito que você vai ajudá-lo!", "e por que não crê?", "não tem problema nenhum", "ok", "mas também não precisa vir aqui depois", "ai ai, qual o problema?", "você tá testando minha paciência", "não, não tô, vou ajudar o cara e depois passo ai", "não precisa passar, aliás, morra!", "beleza".
O corpo ficou cansado, arrasta móvel, coloca geladeira e freezer na caçamba do carreto, ajuda a descer do carreto, arrasta pra dentro da casa nova, posiciona na casa nova. Encosta, toma um ar e vai encontrá-la em sua casa.
Aparelho de telefonia e mensagismo móvel em mãos: "tô descendo", "morra, não venha", "para vai, tô chegando", "volta, morre", "abre o portão aqui pra mim", "não abro, vai embora", "bom, vou ficar aqui", "foda-se, vai embora".
Resolve abrir a porta, na verdade o portão estava aberto, abriu mesmo foi a porta, e abriu só pra xingar, só pra agredir, sem querer justificar em qual artigo da sessão "infidelidade e traição" estava o ato de ajudar um amigo com uma mudança. 
Grita, xinga, manda embora, bate, dá porrada (com toda a força), joga no chão, deixa o corpo ali caído, fecha a porta, entra, não se arrepende, não reaparece.
Levanta o próprio corpo, apanhado, humilhado. Junta os cacos da auto estima. Ainda chama mais uma vez. Cospe no chão, mancando - com uma perna torta, e o corpo dolorido - caminha pra casa.
Fim de Romance. Pois ajudei o amigo com a mudança (?)


terça-feira, 23 de julho de 2013

Fim de Romance - VIII.


-Oi amiga, tudo bem?
-Tudo bem, e você amiga?
-Não, eu não.
-Ai, que aconteceu?
-Aquele desgraçado.
-Que que tem? Que ele fez?
-Esqueceu o ICQ dele aberto no meu computador, ai eu li umas conversas dele e descobri umas coisas.
-Putz, que merda! Leu muita coisa ruim?
-Li coisas horríveis.
-Ai, não fica mau menina, homem é tudo assim mesmo.
-Tô até meio chocada!
-Quer me falar das coisas que você viu?
-Quero, quero sim.
-Então fala.
-Olha, tem uma conversa dele aqui com uma menina, ele tá fazendo gracinha com ela.
-Que tipo de gracinha?
-Gracinha. Falou que ela tava muito bonita numa festa.
-E o que mais?
-Isso.
-Tá. Quando foi isso?
-Uns dez meses atrás.
-Ué, mas vocês já tavam juntos nessa época?
-Não oficialmente, mas... ah...
-Ué, se vocês não tavam "oficialmente juntos" você não pode ficar brava.
-Mas tem mais coisa aqui também.
-Fala pra mim.
-Ele conversa com umas pessoas que eu não gosto.
-Como assim?
-Ah, ele conversa com umas pessoas que eu acho que não gostam de mim, e não gosto delas por isso.
-E o que ele fala com essas pessoas?
-Conversa sobre gastronomia, sobre histórias em quadrinhos, sobre filmes, sobre bandas.
-Só?
-Mas são pessoas que eu não gosto, ele não devia conversar com elas!
-Ele sabe que você não gosta delas?
-Nunca falei nada.
-Bom, até agora você não achou nada demais.
-Tem uma coisa que me preocupa aqui.
-Fala.
-Tem uma menina que eu obriguei ele a bloquear e excluir do ICQ ante ontem, por que eu detesto ela.
-E ele excluiu e bloqueou?
-Sim.
-("que cara idiota", pensou a amiga, mas falou): E qual o problema?
-É que não tem as conversas com ela aqui. Tô desconfiada.
-Se ele excluiu e apagou o contato, as mensagens vão embora junto. Eu acho.
-Não sei. Tô achando estranho.
-Amiga, você não achou nada de errado. Para de exagerar vai.
-Não dá, tem coisa errada. Ele conversa com gente que eu não gosto!!!!
-Amiga, fica calma vai. Você já falou com ele?
-Já. 
-Que que vocês conversaram?
-Falei pra ele que conversei com o pessoal que me banca e que já disse pra eles que a gente não tem mais nada.
-Você fez isso?
-Não. Só falei que fiz.
-Ai amiga!
-E disse também pra ele não me procurar nunca mais, que ele me desrespeitou muito e que se tava comigo devia ter decidido estar só comigo.
-Olha, das coisas que você me leu, não acho que ele deixou de estar só com você nesse período.
-Mas ele fez gracinha com a menina!
-Ai amiga! Para de ser tonta e vai atrás dele vai.

Dois dias depois o telefone da amiga tocou de novo, dessa vez era uma mensagem de texto:
-Amiga, ele disse que já era, que é Fim de Romance.



Frente Fria.


Breve relato de José Gomes Neto - IX:

"No dia 6 de Maio daquele ano, ainda nem tão longínquo assim, fui empurrado em uma escada. Estava com os pés mau apoiados no degrau mais alto desta, e as mãos que aplicaram uma força motriz em meus ombros o fizeram com força. Força suficiente para que eu me desequilibrasse, caísse para trás, e apenas não rolasse todos os degraus pois meu corpo se chocou com uma pilastra ali presente. Especificamente, meu joelho direito se chocou diretamente com a pilastra. Doeu. Bastante. Não sei como cheguei em casa andando. Não sei o que o pai da pessoa acharia disso. Passei a noite entre pomada/gelo/pomada para aliviar a dor e endireitá-lo. Fato é que, desde então, sempre que bate uma dessas frente frias, bem frias (de fazer bater os queixos dos bem agasalhados) meu joelho dói, uma dor circular, ao redor de toda a rótula. É um inferno, a cada inverno, me recordar desta agressão".

José Gomes Neto, 
28 de Julho de 2007,
Violentado.




domingo, 21 de julho de 2013

Pai de Santa.


Em nome do Pai, 
Jogue álcool nestas páginas.

Em nome da Mãe,
Risque um fósforo nestas páginas.

Em nome do Espírito da Santa,
Deixe de viver [e de escrever].

(Mas por favor,
Devolva intactas,
As minhas coisas).

[Um diálogo com "Labirinto de Dédalo"].


sábado, 20 de julho de 2013

Fim de Romance - VII A.


A série Fim de Romance, que, a bem da verdade, deveria se chamar Fins de Romances, uma vez que concatena um grupo de escritos ficcionais e imaginativos a cerca de romances diversos e distintos (e não apenas sobre um romance) que, por uma razão ou outra chegam ao fim,  [e, aqui nesta série, me interessa a razão ou outra], terá aqui uma breve pausa. Um breve silêncio - um tempo, como muitas vezes ocorre nos Romances, não raro, como um prelúdio aos Fins, que aqui tenho descrito.
Tenho já prontos para publicações os números seguintes, e até o que encerra essa brincadeira textual toda que, como um exercício pessoal, tem me ajudado a encarar com um pouco de leveza um momento peculiar nesta vida. 
Um curto espaço de tempo será dado para que eu os retome à publicação - o que é uma pena, pois a média de leitores estava bacana (39,8 por texto) e a escrita estava me fazendo um bem danado.
Porém, ocorre que às vezes pausas são necessárias. 
Às vezes elas vem de dentro, e às vezes recaem como imposições, por parte daqueles que não entendem o que significam os termos que, neste texto, estão sublinhados ou em itálico.

Até por que, não existe piedade quando o discurso (ou a porrada) do choque chegam.




Fim de Romance - VII.


-Olha, acabou tudo entre a gente.
-Como assim?
-Acabou ué, não tem mais volta.
-Mas assim, de repente?
-Não, já faz um tempo que as coisas tão esquisitinhas né?
-Faz, mas, mesmo assim...
-Não dá mais.
-Você fez alguma coisa?
-Que tipo de coisa?
-Você me traiu?
-Porra.
-Fala: você me traiu?
-Traí sim.
-Ai filho da puta! Sabia!
-É.
-Sabia que esse negócio de eu entrar em férias e ir viajar não ia dar certo.
-É.
-Porra! E eu ainda te levei comigo, você foi pra praia com a minha família, passou o ano novo com a gente e tudo. Como você pode ser tão cuzão? Como você pôde fazer isso comigo?
-Olha...
-Olha nada, não vem querer justificar nada...
-Não quero justificar, só sair fora.
-SAIR FORA? Seu desgraçado - tenta socar, tenta estapear, consegue só xingar.
-Calma.
-Quem foi? Me fala. Vai. Com quem foi? Ou foi mais de uma? Quem foi a vaca?
-Não adianta falar.
-Adianta sim!
-Não. Não vai mudar nada. Já fiz e vou sair fora.
-Ah mas não vai. Me fala! Quem foi? Foi mais de uma?
-É. Foi mais de uma sim.
-FILHO DA PUTA!!!
-Calma, calma. Para - segura os braços dela pra parar de apanhar - calma caralho!
-Então me fala. Foi aqui ou foi lá na tua cidade? Com aquelas putinhas que tem lá?
-Foi lá e aqui.
-Cara, que nojo. Credo. Que que eu fiz? - engasga nas próprias lágrimas - Eu te levei pra passar o ano novo com a minha família! Na nossa casa na praia! Na casa que meu pai construiu!!! Por que você fez isso comigo?!
-Olha, vamos acabar logo com isso. 
-Não, você ainda não me falou com quem, onde, como. E eu quero saber. Quero saber o que você fez com elas. De que jeito. EU TENHO QUE SABER!
-Foi na minha cidade e foi aqui.
-Não bastava ser só com uma não? Que nojo! Que nojo eu tô  de você, caralho!
-Você deixou a chave do seu apartamento pra eu cuidar dele...
-Ah não...
-Daí eu vim com uma menina aqui...
-Ah não...
-E a gente transou na sua cama.
-PORCO NOJENTO FILHO DA PUTA DESGRAÇADO CREDO VAI EMBORA SOME DAQUI MORRE!!!


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Fim de Romance - VI.















Já faz um tempo que ele não é mais o mesmo.
Um bom tempo, aliás.
Quer dizer, é o mesmo. 
Só acho que cansei.
Vou chegar nele e falar...
Vou ligar e falar...
Vou mandar uma mensagem...
Ah não, muito trabalho falar. 
Deixa quieto.
Só vou sumir mesmo.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Fim de Romance - V.


Ato 1:

-Você acha essa atriz bonita?
-Hm, nunca parei pra pensar ou reparar nela.
-Mesmo?
-É. Ué.
-Hm.
-Por que? Você a acha bonita?
-Não.
-Hm.
-Tem certeza que nunca reparou nessa atriz?
-Tenho, ué.
-Tá bom.
-[prestando atenção na atriz que fala na TV]: se bem que ela parece bonita mesmo, e tem um corpo bonito.
-Vai ficar reparando nela?
-Ué, só tô olhando pra TV.
-Então muda de canal ou eu vou embora.


Interlúdio:

-Sabe, eu acho que tem um acordo entre o pessoal da revista e o pessoal desse programa.
-Acordo pra quê?
-Tipo assim, todo mundo tá esperando ver umas mina pelada sabe?
-Ahn. Sei.
-Dai já rola um acordo, tipo, o pessoal da revista diz: "queremos uma moça assim, uma moça assada e uma moça de outro jeito pra sair pelada na nossa revista". E ai o pessoal do programa já procura entre as minas que querem participar do programa umas três nesses estilos.
-Não sei. Não acho isso não.
-Ah, eu acho, é sempre assim, muito previsível.
-Não sei.
-Por exemplo, dessa edição de agora, aposto que teve alguma que já saiu e já posou pelada e tudo.
-Não sei.
-Aposto que já. A gente pode procurar?
-Por que você tá tão interessado nisso? Eu não te basto?
-Basta, claro. Mas tô falando dessas besteiras.
-Vai lá comprar as revistas então. Compra todas. E me deixa.

Ato 2:

-Amor, sabe, hoje eu tava afim de ver um filminho com você.
-Hm, que gostoso! E qual filme vamos ver?
-Não sei, algum.
-Baixei uns esses dias. Tem aquele do namorado zumbi que você queria ver.
-Ah, não tô falando desse tipo de filme. Tô falando de filminho.
-Filminho é? Filme de gente fazendo coisa boa?
-Desses mesmos.
-Hhhhhhmmmmm. E qual quer ver?
-Não sei. A gente pode ir escolhendo?
-Claro!
[entra num site, entra noutro, deixa um vídeo carregando, coloca outro pra baixar, mão boba daqui, de lá].
-Tá gostando desse?
-Tô. Interessante isso que o cara tá fazendo.
-Você gosta?
-Gosto, e a moça...
-Que que tem a moça?
-Parece que ela tá gostando.
-Só isso?
-Bom, ela tem belas curvas.
-Ai, sabia que tinha mais coisa, você se animou demais! Então fica vendo o filme sozinho. Idiota.





terça-feira, 16 de julho de 2013

Fim de Romance - IV.


Telefone toca. E é bem comum que um telefone toque.

-Alô?
-Oi?
-Oi! Tudo bem?
-Sim. Tudo bem. E você?
-Tudo também.
-Hm.
-Fala.
-Fala? Isso é jeito de conversar com as pessoas? Fala? Isso é jeito de iniciar uma conversa? "Fala"? Como assim: "fala"? É você quem tem que falar direito comigo. Não é assim que se conversa com alguém. Não se inicia uma conversa decente desse jeito. Dizendo fala. Que nervoso, eu não preciso disso. Não sei nem porque ainda insisto em te ligar se é pra aguentar esse tipo de grosseria. Que ódio eu tenho de você!!!

O telefone é desligado. O que, também, é comum.

Mas a imagem que ficou, dos absurdos ouvidos e do barulhinho que indica o fim da ligação, e que é prenúncio daquele silêncio em que se questiona "será que desligaram na minha cara?", foi essa:


E essa também:


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Fim de Romance - III.


Era um rapaz que gostava muito de me fazer surpresas, adorava me ver toda envergonhada com as sutilezas que me fazia. Como no dia em que cantou para mim, me matando de vergonha, em plena calçada. Num outro dia me mandou uma mensagem no celular, perguntando se eu topava ir comer um lanche com ele à noite, em um destes trailers que fazem lanches grandes e gostosos. Disse que topava, claro, eu gostava dele. Aliás, eu gostava muito dele. Estávamos juntos havia algum tempo já, nada sério, não falávamos sobre isso (eu nunca falo sobre nada, e às vezes culpo o outro pelo silêncio que eu mesma imponho). O sexo não era tão bom assim, na verdade, ele era bem ruim - eu costumava levá-lo ao auge antes de que fizesse qualquer coisa muito errada comigo - por que eu gostava dele, e queria estar com ele, mesmo que o sexo fosse horrível. Nesta noite em que fomos comer lanche, quando cheguei fui surpreendida por ele com muitos de seus amigos e amigas numa longa mesa. Quando me viu chegando, se levantou e me deu um beijo entre a boca e o rosto (veio beijar minha boca, mas eu virei o rosto, não gosto de muitas demonstrações públicas de carinho, eu sempre enfatizo isso; mas se quero e não tenho, culpo o outro por não realizá-las). Eu estava entre surpresa e assustada, achei que seríamos apenas nós dois. Pedi meu lanche, bebíamos refrigerante e havia muitas conversas entre todas as pessoas na mesa. Pouco depois que nossos lanches chegaram, o menininho olhou para os amigos e pediu que fizessem silêncio, então, pegou em minha mão e disse que gostava muito de mim, que adorava estar comigo e que queria muito namorar comigo. Eu não sabia onde enfiar a minha cabeça, e fiquei olhando para o meu lanche. Pão, hambúrguer, milho, alface, tomate, queijo, ali tinha tudo do jeito que eu gostava. Delicadamente soltei minha mão da dele, disse que precisava ir pra casa. Pedi pra moça do trailer colocar o meu lanche numa embalagem para viagem, paguei, me despedi do menino fazendo cara de "não posso fazer nada", e fui embora. Ele estava com uma expressão triste, mas a culpa pelo fim do romance, foi toda dele: onde já se viu, pedir uma mulher fria, decidida e trêmula como eu em namoro?



domingo, 14 de julho de 2013

Fim de Romance - II.


-Sabe, quando a gente tiver grana não vai ser num pico desses que vamos vir não.
-Ah não?
-Não! Cê acha que quero passar a vida vindo em lugar assim? Tipo, não tem nem um espaço considerável aqui entre a cama e a porta, não tem nem um box ou uma porta pro chuveiro.
-É...
-E, pô, a gente usou esses chinelos aqui pra tomar banho, mas tô com medo que, sei lá, cobrem da gente por termos os usado sabe?
-[Ri, desconfiada].
-Ou então, sei lá, que esse chinelo fique ai sempre, e uns trinta e cinco casais diferentes já tenham usado eles. 
-Credo. Devem trocar de vez em quando. Eu acho. Jogar fora sempre.
-Não, mas sério. Quando a gente tiver dinheiro vamos nuns lugares mais bacanas. Com suítes temáticas.
-Tem disso?
-Tem. Nunca fui, é caro, mas sei que tem.
-Nossa, que legal!
-E vamos naqueles que tem frigobar também.
-[faz ar de surpresa e sorri um lindo sorriso de moça com sorriso bonito] E vamos beber champanhe?
-Claro! Como a gente vai ter dinheiro, vamos ter um carro, e ai vamos entrar com umas três ou quatro garrafas de champanhe no carro.
-Como assim?
-Vamos comprar umas champanhes antes no mercado, trazer no carro e colocar no frigobar da suíte.
-É sério?
-Claro. E ai vamos ser tipo patrão tomando champanhe na suíte firmeza.
-Quê? - incrédula.
-Ué. Tô falando algo errado?
-Claro que tá! Você acha que eu sou o quê?
-Ah?
-É! Acha que eu sou o quê? Eu quero beber a champanhe da suíte!
-Bom, na suíte vão cobrar umas quatro vezes o preço do mercado.
-Não importa! Eu quero beber a da suíte! Você tá achando que eu sou o quê?
-O quê?
-É! O quê? Tá pensando o quê de mim?
-Sei lá, tô aqui fazendo plano de passar um tempo na vida, trabalhar, ter dinheiro, ter uma vida menos contada em moedinhas pra tomar uma cerveja no boteco, ir numa suíte bacana com você. Com você. Penso nisso. Em futuro. Com você.
-Mas eu não acredito que tá falando sério com isso da champanhe.
-Tô ué.
-Tá vendo como você não me valoriza? Eu quero ir embora. E não quero mais nada com você.






segunda-feira, 8 de julho de 2013

Repetência.

Breve relato de José Gomes Neto - IX.


"Entre meus catorze e dezesseis anos, naquela época em que tudo era descoberta, vivi um drama com as meninas com quem tive namoros infanto-adolescente-juvenis. Aliás, vivi muitos dramas, mas hoje me recordei de um deles em especial. Aos catorze anos, namorava uma menina simpática e engraçada, no final do ano, ela "perdeu o ano letivo". Aos quinze, namorei uma menina simpática e dramática, que, bem antes de dezembro, já sabia que "perderia o ano letivo". Aos dezesseis me envolvi com uma jovem mais velha, já maior de idade, já em "outra realidade": no final de junho ela "perdeu o semestre letivo" do curso que fazia. As pessoas ao redor realmente me fizeram crer que as repetências destas moças eram culpa minha. Malditas recorrências da vida".

José Gomes Neto,
20 de Junho de 2009,
Repetente em Recorrência.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Tarefas Ingratas de quem está entre as duas Alemanhas - IV.


Ouve nóis, não paga de encosto na mão de pastor: ouve nóis.


"A depressão cobre os olhos,
Loucura sem direção".

Não ouço, não ouço; não faço, não vou!

"Conseguiram te deixar fraco,
E agora estão rindo de você".

Calma.

"Eles o tem em suas mãos,
E agora vão pisar na sua cabeça".









quinta-feira, 4 de julho de 2013

Tarefas Ingratas de quem está entre as duas Alemanhas - III.


"Nessa vida a gente acerta e a gente erra.
Nessa vida a gente vê copos meio cheios e meio vazios.
O importante é não passar em branco por essa vida".

Dramas à parte, já deitado se disse:
"Nessa vida ninguém é feliz sozinho,
Só personagem egoísta de seriado".





Coma.


Deste             [Passei          Eclodirá

Período        Os                    Um

De                  Últimos          Humano

Gestação      Nove               Em

       .                Meses             Plena

       .                Em                  Ebulição

       .                Coma]                 .

       .                     .                        .

       .                     .                        .

       .                     .                        .

       .                     .                        .

       .                     .                        ?




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Até que o Morrissey dá uma força na ideia, falando sobre coma.