sábado, 1 de junho de 2013

Aqui habita um professor? - I.


Quando me conduziram até aquela sala - indicando que era a última porta do corredor, e para que eu ficasse à vontade - a espiei com os olhos detalhistas de um curioso, que sempre tenho quando vou olhar e entrar em um lugar pela primeira vez.
Me sentei em uma cadeira, e lá permaneci, tranquilo, na minha, sozinho nesta sala que me era um 'ambiente novo' - em breve se tornaria/tornará 'ambiente cotidiano'. Haviam dito também que eu poderia tomar café ou chá.
Optei por um café e encarava com seriedade os papéis fixados na parede: todos eles me traziam informações sobre um ambiente que, confesso, tentei fugir, mas no qual, enfim, lá estava eu.
Abri o caderninho-companheiro e comecei a rabiscar algumas palavras de breve desespero ("tirem-me daqui e levem-me de volta para algum lugar conhecido e seguro" caberiam bem naquele instante).
Com a cabeça abaixada, fixada nos meus garranchos em azul sobre a folha branca, ouvi uma voz feminina (que eu ainda não associava a um rosto ou pessoa) dizendo: "está aqui, professor".
Continuei escrevendo, e ela repetiu: "está aqui, professor".
Demorei para perceber que a voz era da secretária da escola, que o "está aqui" se referia aos documentos que eu assinaria em seguida e que me colocariam, oficial e burocraticamente, como passível de ser chamado pela nomenclatura de "professor", com a qual eu acabara de ser chamado.
Minha caneta saiu da superfície de meu caderninho, rabiscou em seis folhas distintas (duas vias de cada documento) minha assinatura feia. 

"Professor?"
"Eu sou professor?"
"Está aqui, professor"
"Aqui habita um professor?".


Escolhi esta imagem, para ilustrar este primeiro texto sobre minha nova "atividade", por duas razões: a cara de espanto do Girafales se assemelha aos espantos que este novato professor vem tendo nas últimas semanas, e pela piada, realizada com bons amigos alguns anos atrás.

Um comentário:

Alex Arbarotti disse...

é sempre difícil ser algo novo.