domingo, 23 de junho de 2013

Relato de uma senhora de 72 anos.


"Olha, vocês são jovens e estão indo para a manifestação, que bom! Eu tenho 72 anos e também vou. Tenho cabelos brancos mas ainda tenho disposição pra querer um Brasil melhor! E não precisa de bandeira nem de rosto pintado, é só gritar "Brasil", bem alto. E também não pode ter nada de partido, é só o país que tem de ser exaltado. E o que você sabe da Dilma? Assumiu que roubou bancos! Não importa se era ditadura, a moral da sociedade ainda era a mesma, e roubar ainda era roubar, ela deveria estar presa até hoje! Mas por que temer ditadura? Vou falar para vocês, eu tenho 72 anos, e a época da minha vida em que eu ganhei mais dinheiro foi na época da ditadura militar, era só ficar quietinho e tocar a sua vida que você recebia em dia, e recebia bem! Pois nós sabíamos que ia acabar, por que nessa vida é assim: tudo tem começo, meio e fim".

Vinte e Um de Junho de Dois Mil e Treze, agência bancária em Marília/SP, momentos antes de se iniciar um "ato pacífico por um brasil melhor".



sábado, 22 de junho de 2013

Parada/Desculpas Sinceras.


Quando viajo,
(Isto é,
Quando repito este trajeto,
Que já foi cheio de ares,
De repletas novidades,
Mas já se tornou,
"O de sempre"),
Nunca fujo,
De descer nesta parada.


O faço pelo prazer,
Da dor de lembrar,
Que fui feliz,
Quarteirões,
Quarte
irões,
Qua
rteir
ões,
Daqui.


Observo a estrada,
Carros, ônibus, caminhões,
(Obviedades quando,
Falamos de estradas),
Meus próprios pés,
Me lembram que na,
"Estrada da Vida",
Estou em idiotias,
O que me lembra,
Do idiota,
Este que sou,
(Algo como,
"O que você se tornou?").




Desço aqui por um prazer,
Sádico e típico,
Destes tempos que já são,
"Os de sempre",
De olhar em voltar,
E me dizer:
"Quanta coisa,
Já destruí?".



domingo, 16 de junho de 2013

Relato de Camila.


"Antes até parecia que era coisa boa, que valia a pena. Ai chegou no meio da festa e tinha aquela cara de cangambá bêbado. Ficava caindo em cima de mim, que nojo. Veio falando que eu tava linda ainda, que ele achou que eu só ia ficar bonita no começo. Uai amiga, no começo da festa. Pior, sentei no final pra descansar, tirar o sapato e colocar uma sandália, tomar uma fanta, ai de repente aquele trem caiu do meu lado, na cadeira do lado. Ai veio com o mesmo papo de que eu tava linda ainda no fim da festa, que achou que não ia durar minha beleza. Sério. Falou isso achando que tava sendo super legal. Claro que não fiquei! Cê acha, pegar cangambá caindo de bêbado? Para de rir. Que foi? Nunca ouviu "cangambá bêbado"? É bebum, daqueles chatos, pé-no-saco. Vi ele entrando numa van e por isso te falei pra gente ficar aqui esperando a próxima ou pegar um táxi".

Nove de Junho de Dois Mil e Treze, 6h45min, Fim de Festa, Lavras/MG.



sábado, 8 de junho de 2013

Aqui habita um professor? - III.


Não acho que "existem assuntos que não devem ser tratados na escola", como já ouvi, de professores e alunos em diferentes momentos da vida. Porém, confesso, que me embaraço para tratar de alguns temas - seja na escola, com crianças e adolescentes, seja na mesa de casa, quando eu era uma criança ou adolescente ou adulto.

Na escola era um dia atípico: aulas suspensas para disputa das finais dos Jogos Interclasses. A grande maioria dos alunos não estava lá muito preocupada com o que ocorria dentro da quadra, e aproveitava o tempo livre para a sociabilidade que realmente lhes fazia sentido.
Cansado, o relógio já batia as cinco horas da tarde (e eu estava na escola desde as seis da manhã) me sentei em um dos bancos próximo à quadra. Quando estava quase cochilando, um grupo de três alunas (da sexta série) se aproximou e sentou no banco.
Conversavam sobre o dia dos namorados, e discutiam sobre qual o melhor presente pra se dar a um namorado. 
Subitamente (e sem muita escolha), fui incluído na conversa por uma das garotas:

-Professor, o que um homem gosta de ganhar no dia dos namorados?
-Bom - saia justa, pensei, saia dela - depende do homem.
-Não professor! Tem relógio, tem blusa, tem tênis, tem um monte de presente legal. O que homem gosta de ganhar?
-Não sei, realmente, depende do homem.
-Olha fessor, você, o que você quer ganhar no dia dos namorados? - sempre dá pra saia ficar mais justa.
-Sossego - foi a primeira e unica coisa que consegui lhes responder.

Aparentemente, estraguei a conversa. As meninas pararam o assunto, começaram a falar sobre outra coisa até que saíram do banco, e eu tornei a estar sozinho assistindo os meninos batendo canela dentro da quadra.

Tenho certeza de que dei a resposta errada. Deveria ter dito: "um relógio".


domingo, 2 de junho de 2013

Aqui habita um professor? - II.


Desengonçado, entrei. Não sabia direito o que fazer. A simpática moça (uma das responsáveis por manter a ordem no corredor) fechou lentamente a porta e sumiu de minha visão.
Agora era eu, de um lado, eles e elas, de outro.
Qual o meio de campo limitador e afastador desta equação social esquisita? A mesa que eu deveria chamar de minha. Na qual, aliás, me sentei - causando certo espanto nos que estavam do outro lado.
"Vocês não me conhecem, e eu não conheço vocês, certo?". Silêncio. "Certo?".
As perguntas e afirmações que foram feitas, por elas e por eles, após dizerem um tímido "sim" para a minha pergunta, indicaram fraquezas e precariedades da escola pública neste estado de são paulo (assim, com letras minúsculas).

-"Você vai dar aula pra gente só hoje ou até o fim do ano?".
-"Creio que até o fim do ano, por quê?".
-"A gente já teve uns três professores de Geografia esse ano, mas era tudo substituto".

Julgando 'começar com o pé direito', fui prudente, e perguntei o que se lembravam de terem tido em Geografia este ano. 
E eles não se lembravam de nada, até por que, era algo próximo disso que haviam realmente tido até ali.




sábado, 1 de junho de 2013

Aqui habita um professor? - I.


Quando me conduziram até aquela sala - indicando que era a última porta do corredor, e para que eu ficasse à vontade - a espiei com os olhos detalhistas de um curioso, que sempre tenho quando vou olhar e entrar em um lugar pela primeira vez.
Me sentei em uma cadeira, e lá permaneci, tranquilo, na minha, sozinho nesta sala que me era um 'ambiente novo' - em breve se tornaria/tornará 'ambiente cotidiano'. Haviam dito também que eu poderia tomar café ou chá.
Optei por um café e encarava com seriedade os papéis fixados na parede: todos eles me traziam informações sobre um ambiente que, confesso, tentei fugir, mas no qual, enfim, lá estava eu.
Abri o caderninho-companheiro e comecei a rabiscar algumas palavras de breve desespero ("tirem-me daqui e levem-me de volta para algum lugar conhecido e seguro" caberiam bem naquele instante).
Com a cabeça abaixada, fixada nos meus garranchos em azul sobre a folha branca, ouvi uma voz feminina (que eu ainda não associava a um rosto ou pessoa) dizendo: "está aqui, professor".
Continuei escrevendo, e ela repetiu: "está aqui, professor".
Demorei para perceber que a voz era da secretária da escola, que o "está aqui" se referia aos documentos que eu assinaria em seguida e que me colocariam, oficial e burocraticamente, como passível de ser chamado pela nomenclatura de "professor", com a qual eu acabara de ser chamado.
Minha caneta saiu da superfície de meu caderninho, rabiscou em seis folhas distintas (duas vias de cada documento) minha assinatura feia. 

"Professor?"
"Eu sou professor?"
"Está aqui, professor"
"Aqui habita um professor?".


Escolhi esta imagem, para ilustrar este primeiro texto sobre minha nova "atividade", por duas razões: a cara de espanto do Girafales se assemelha aos espantos que este novato professor vem tendo nas últimas semanas, e pela piada, realizada com bons amigos alguns anos atrás.