segunda-feira, 1 de abril de 2013

Um Morcego.


Ele estava falando comigo. Após tanto tempo, ele estava falando comigo. Já vinha falando há algum tempo, já era algo. Mas, naquele instante em si, ele falava comigo. E, naquela situação, eu era o único que lhe dava ouvidos.

me distraio com facilidade. desde quando? desde sempre, por favor, não me perguntem sobre isso. não lembro quando começou, acho que eu estava distraído demais para perceber que estava distraído.

Não queria que nada me distraísse. Na verdade, sabia que não podia me distrair. Pois havia passado tanto tempo sem falar comigo. Pois eu era o único por ali a lhe dar ouvidos. Pois ele falava, e era co-mi-go; não queria desperdiçar o momento.

às vezes, nem percebo, e já estou fazendo besteira; nem percebo, e já estou distraído (talvez por não perceber seja distração). muitas vezes, quando dou por mim, tenho as mãos fazendo algo, a cabeça pensando noutro algo, os olhos focados num terceiro algo e os pés ritmando uma música que escuto  apenas mentalmente.

De repente (como sempre, já me acostumei, tento me desvencilhar mas não vai embora): "ouviu o que eu disse?". "Oi? Foi mau, não ouvi". Repetiu, desta vez eu ouvi. Acontece que o morcego que havia passado voando sobre nós (e se tornado foco de minha atenção) já havia ido embora.

na verdade, tal qual em desenhos animados que víamos juntos quando eu era criança, acho que há uma nuvem foscamente preta, composta unicamente por centenas de morcegos, sobrevoando os nossos castelos. não são castelos, tão bem sabemos, mas estão erguidos, ou foram erguidos, ou estão ai. e há morcegos em cima - talvez três centenas. e talvez por isso eu esteja há tanto tempo, distraído, sem previsão de retorno.

Ps: à parte o último parágrafo em letras  diminutas, isto não é uma metáfora. 

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