sábado, 2 de março de 2013

Uma Pena.

Breve relato de José Gomes Neto - VI.

"Sempre morei em capital de Estado. Por conta disso, quando criança, ave para mim era sinônimo de pomba; mamífero não humano era sinônimo de gato e cachorro; árvore para mim era sinônimo do parque que vez ou outra meus familiares me levavam para andar de bicicleta. Quando tinha sete anos entendi o que era a carne que eu comia todos os dias, e quando tinha doze entendi como funcionavam as granjas. Não me agradou muito, mas tudo bem; eu ignorei. Cresci, e aos dezenove viajei para um sítio, passaria o final de semana lá, com a família de uma namorada desta época. A família dela, percebendo que eu era um típico rapaz de metrópole, sugeriu à garota que fosse me mostrar a "vida rural" dos entornos do sítio. Recordo-me que próximo à uma cerca havia uma casinha, e eu perguntei o que havia lá: "um galinheiro", ela disse. Me animei em conhecê-lo, e fomos até lá. Foi a primeira vez que eu vi galinhas, galos e pintos. Quando abrimos a porta do galinheiro os bichos se movimentaram de forma não muito organizada lá dentro, e muitas penas voaram. A garota se abaixou e pegou a pena que voara de um galo, de um tom preto avermelhado muito bonito, e me deu. Semanas depois brigamos - algum motivo bobo, tanto que não me lembro - e terminamos. Alguns dias depois fui até sua casa e deixei na caixa do correio a pena dentro de um envelope, apenas com o escrito "uma pena" e minhas iniciais. 
De fato, mesmo não entendendo porque falamos isso, às vezes a única coisa que se tem a dizer sobre as coisas da vida é que é "uma pena" o rumo que elas tomam".

José Gomes Neto,
15 de Novembro de 2007,
Recordando.



Demais relatos de José Gomes Neto:
I - Tic-Tac;
II - Pé-De-Moça





Um comentário:

Alex Arbarotti disse...

José Gomes Neto sempre genial! Uma pena que aparece raramente!