sexta-feira, 8 de março de 2013

Na fila do abate.

Me sinto o último dos bois na fila da degola; sinto o cheiro de meu próprio sangue, o gosto amargo da minha própria morte. Minha mente diz para que eu me vire e corra; meu instinto diz para me debater nas paredes, me mexer para destruir essas barreiras que me cercam e fugir daqui. Sair correndo desse corredor, de onde consigo ver, lá na frente, meu carrasco sanguinário que acabará comigo. Eu vejo um martelo e uma faca nas mãos dele. O cheiro de morte me tortura, a minha morte.
Tento me convencer de que a vida moderna é assim mesmo,  e que não há como escapar desses caminhos sangrentos, predeterminados e impostos para as vidas deste mundo. Eu forço minha cabeça e meu corpo a acreditarem que esse é o caminho, não o totalmente certo, mas o necessário, nesta altura da vida.
Como um boi que sou, eu penso que tive uma boa vida já, que aproveitei momentos e conceitos, mas os momentos passaram e os conceitos tem de mudar. Eu sei que esse é o caminho da vida, me alimentei por anos de uma mão que se supria de um braço, e agora chegou a minha hora de ser a mão e oferecer o meu pescoço ao braço. Fazer o que?
Eu sou um boi na fila da degola, e tento me fazer acreditar que este é o caminho certo, que todos os caminhos distintos desses impostos pela lei global é que estão errados. Eu tento me fazer acreditar que minha vida em um pasto tranquilo, somente com minhas obrigações de boi e sem um chefe era errada, e este é o caminho: o abate.

***

Texto escrito na quinta feira 11 de Janeiro de 2007. Há menos de um mês eu havia voltado a comer carne (após dois anos sem) e, no momento de escrita do texto (transcrito aqui da forma que o encontrei em um caderninho antigo), participava da última etapa do processo seletivo para trabalhar em uma empresa nacional de crescimento notável no universo empresarial brasileiro.
A saber, consegui o emprego; a saber, não fiquei com ele (ou não deixei que ele ficasse comigo); e nunca mais parei de comer carne.




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