terça-feira, 19 de março de 2013

Com um pouco de alteridade.


No primeiro ano do curso de Ciências Sociais tive aula com um dos seres humanos mais fantásticos que se pode conhecer em vida e com o qual se pode dialogar, aprender. Uma mulher forte, conhecedora, grandiosa (nas primeiras aulas sua voz estremecia minhas bases físicas). 
Esta mulher nos apresentou, logo no início das aulas, o texto "noções de técnicas corporais", de Marcel Mauss. Texto que, naquele princípio de Faculdade, fez com que muitas ideias (muitas bases), minhas e de meus colegas, se rompessem, e começássemos a pensar a vida e o ser humano a partir de outras perspectivas. Uma verdadeira "reconstrução do olhar" (para citar outra grande professora deste início de curso: "os óculos das Ciências Sociais).
Neste texto e nestas aulas, respectivamente, Mauss (e a  primeira professora citada) nos fizeram entender que a relação que temos com nosso corpo não é nata, não é natural, como normalmente aprendemos por ai - em casa, na escola, nos espaços religiosos, nos programas de TV etc. Mas sim são processos sociais e culturais  em que somos educados desde o nascimento.
Aprendemos a lidar com nossos corpos a partir de relações, ações e educações corporais culturais. E esse aprendizado se dá, ainda segundo Marcel Mauss, a partir de questões sociológicas/culturais, fisiológicas e psicológicas.
No campo das educações corporais Mauss cita algumas, como a "educação para o correr", a "educação para o sangue frio" [esta última, para mim, tem um quê de espetacular], em que vamos, ao longo da vida, sendo ensinados e aprendendo a como agir com nossos corpos em determinadas situações.
O nosso corpo é um objeto, um instrumento técnico, no qual aprendemos qual a forma culturalmente correta de manusear.

Por que estou dizendo isso tudo? É para que este blogue ganhe, após mais de quatro anos, algo de Ciências Sociais em si, e pareça que quem escreve aqui é um semi-formado na área? Não.

Ao longo da vida passei e não passei por uma série de 'educações corporais'. Tenho em meu corpo e em meu psicológico repertórios de ação bem demarcados e apreendidos: com exceção de alguns momentos específicos, sei o que pode e o que não pode ser feito, dito, expresso, gesticulado a partir deste corpo.
Sei como posicionar o pensamento e o corpo, e vice versa, e ambos juntos.
Minha "educação corporal", entretanto, falha em um aspecto primordial para o nosso cotidiano: eu não fui educado (e tampouco quis me educar) para usar este corpo como um objeto técnico para qualquer tipo de agressividade.
Eu não gosto de UFC, MMA, Boxe.
Eu não sei discutir com aspereza.
Eu não sei brigar, não sei bater e não sei apanhar.
Eu não sei me portar em ambientes hostis.
Sei, no máximo, xingar com convicção.


Eu evito situações em que podem eclodir pegas-pra-capar, pois não sei (re)agir quando o chicote estrala. 












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