segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Sobre quando interagi com uma Socialista.

[Ou: "às vezes penso que amadurecer é entender que ideias específicas se tornaram utopias"].

Eu já não era mais tão jovem assim, talvez respirasse consciente de que se tratava do início do fim do meu "ser jovem". Era um início de manhã fria, e o odor de álcool que saía de minha boca enquanto eu falava revelava a noite de bebedeira que me mantinha de pé até aquele momento; aliás, as coisas que eu falava também demonstravam amplamente a presença de bebida em meu corpo.
Enquanto observava a fumaça branca, que vinha do escapamento de um carro que fora, aparentemente, deixado ligado por alguns minutos para combater a frieza daquela madrugada sobre o motor do mesmo, notei que uma moça parou ao meu lado.
Pensei: "eu a conheço".
Reconheci os traços, as vestes e tudo o mais; recordei-me de momentos em que a vi falar e de momentos em que me ofendera; recordei-me de toda a imagem e tudo o mais que eu já havia captado dela durante alguns meses. Recordei-me de que ela nunca tivera problemas em se autointitular "socialista".

Em sua mão direita, brilhava reluzente uma aliança prateada, pensei: "símbolo burguês ocidental da propriedade privada humana em relacionamentos tradicionais".
Me aproximei dela e, certamente zonzo, disse:
-E essa aliança ai?
-Você sabe que eu namoro.
-Mas rola um socialismo?
-Quê?
-É, tipo, tô ligado que você é socialista, nesse seu namoro ai, rola um socialismo?
-Claro que não, o socialismo não chega ao meu namoro: eu sou só dele, e ele é só meu.

Nunca me intitulei socialista, nem comunista, nem nada; nunca me senti identificado, ou integrado, ou articulado/articulista de nenhuma destas "coisas" que vem prontas em uma pastinha vermelha (por vezes, um vermelho desbotado). Mas assumo que, lá com meus botões, debochei da socialista, quando, reconheço hoje, que o utópico sempre fui eu.





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