terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Maná Humano.


Às vezes (e já deixei isso claro em diversas situações aqui neste blogue) gosto de escrever de maneira imprecisa sobre assuntos específicos. Gosto de abordar alguns assuntos sem estar comprometido com "a verdade deles" ou coisa do gênero; gosto de escrever sobre determinados temas, coisas e lugares comprometido apenas com as minhas memórias no que diz respeito a este tipo de coisa.
Repito este breve exercício agora, para falar sobre o que me lembro como chamando-se "Maná".

Antes do "maná", um breve preâmbulo que nos leva a ele:
Quando estava para completar dez anos, em razão da frágil situação financeira dos meus pais, eu e minha irmã fomos deslocados do simpático, inofensivo e apedagógico colégio em que estudávamos perto de casa para um mais distante desta. Aliás, recordo-me bem, a distância era o que menos nos assustava: se tratava do colégio judaico em que minha mãe lecionava - e lecionaria por longos 17 anos.
No começo isso assustou um pouco a mim e à minha irmã - recordo-me que a tarde em que meus pais nos deram a notícia da mudança de escola se tornou uma tarde de choradeira para nós dois  - pois não queríamos sair do conforto do colégio em que estudávamos e, tampouco, ingressar em um novo universo escolar e, ao que entendíamos brevemente, religioso. Diga-se de passagem, era uma religião que não a nossa (aliás, em casa nunca teve religião), e misteriosa, visto que não conhecíamos ninguém que a frequentava ou que a era.
Demorei alguns anos para entender as importâncias e privilégios de ser aluno daquele colégio, tanto uma importância financeira (eramos bolsistas), quanto pedagógica (a escola, os professores, eram realmente bons).
Demorei mais ainda para perceber que aquelas aulas de religião, que durante anos ignorei por "não me dizerem nada", eram, na verdade, a oportunidade para conhecer uma religião, em sentido amplo (e talvez incorreto, considerando minha formação profissional, mas vale o primeiro parágrafo) uma cultura religiosa não tão presente em nosso cotidiano brasileiro.
Após ter percebido isso tudo, comecei a dar ouvidos aos professores e professoras de religião, e recordo-me de uma aula sobre o maná (cuja pronúncia não me recordo se é "maná", tal qual escrito, ou "mán", de forma que o segundo a soe mais mudo, quase inexistente).
O maná, conforme me recorda a memória, era uma massa de brancura quase transparente, que, diariamente, deus alocava na soleira da porta dos hebreus - não me lembro se antes ou depois de fugirem do Egito e vagarem por 40 anos no deserto, acho que foi antes. Era uma massa que não tinha gosto algum, e recordo-me de ter sido desenhada na lousa com um formato de nuvem, sabe deus, digo, o professor porque.
Esta massa, incolor, inodora e insípida (praticamente uma água sólida) servia como alimento de todo dia para os hebreus, e possuía como característica ter qualquer gosto: o hebreu a pegava em mãos, fechava os olhos e imaginava algo que gostasse de comer, colocava o maná na boca e sentia o sabor que havia imaginado.
Recordo-me até hoje do professor (com quem eu nunca fui muito com a cara) fazendo uma encenação estapafúrdia de como se dava esse processo.

Confesso que tenho tido alguns dias não muito amistosos por aqui, sinto saudades de algumas pessoas (acho que vocês se tornaram amigos das antigas rápido demais) e agora estamos cada um em um canto, e eu mal-e-mal tenho falado com vocês, e vocês comigo.
E já tenho tantas saudades de alguns de vocês que chego a desejar que deus (essa massa amorfa, incolor e inexistente) deposite uma espécie de maná humano todas as manhãs em frente à minha porta, para que eu acorde e possa abraçar, de olhos fechados, uma pessoa, um amigo, uma amiga, um parente, todos os dias.
Pessoas que me transpassam segurança, amor, conforto e carinho, apenas com um abraço. E tudo bem se tiver que ser em uma massa, mas que ela me direcione unica e diretamente para todo o sabor dos amores que tenho por vocês.

Ps: que me perdoem os hebreus se errei em algo muito crucial na história, mas saibam que neste desejo habitam também as saudades por hebreias especificas.




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Sobre quando interagi com uma Socialista.

[Ou: "às vezes penso que amadurecer é entender que ideias específicas se tornaram utopias"].

Eu já não era mais tão jovem assim, talvez respirasse consciente de que se tratava do início do fim do meu "ser jovem". Era um início de manhã fria, e o odor de álcool que saía de minha boca enquanto eu falava revelava a noite de bebedeira que me mantinha de pé até aquele momento; aliás, as coisas que eu falava também demonstravam amplamente a presença de bebida em meu corpo.
Enquanto observava a fumaça branca, que vinha do escapamento de um carro que fora, aparentemente, deixado ligado por alguns minutos para combater a frieza daquela madrugada sobre o motor do mesmo, notei que uma moça parou ao meu lado.
Pensei: "eu a conheço".
Reconheci os traços, as vestes e tudo o mais; recordei-me de momentos em que a vi falar e de momentos em que me ofendera; recordei-me de toda a imagem e tudo o mais que eu já havia captado dela durante alguns meses. Recordei-me de que ela nunca tivera problemas em se autointitular "socialista".

Em sua mão direita, brilhava reluzente uma aliança prateada, pensei: "símbolo burguês ocidental da propriedade privada humana em relacionamentos tradicionais".
Me aproximei dela e, certamente zonzo, disse:
-E essa aliança ai?
-Você sabe que eu namoro.
-Mas rola um socialismo?
-Quê?
-É, tipo, tô ligado que você é socialista, nesse seu namoro ai, rola um socialismo?
-Claro que não, o socialismo não chega ao meu namoro: eu sou só dele, e ele é só meu.

Nunca me intitulei socialista, nem comunista, nem nada; nunca me senti identificado, ou integrado, ou articulado/articulista de nenhuma destas "coisas" que vem prontas em uma pastinha vermelha (por vezes, um vermelho desbotado). Mas assumo que, lá com meus botões, debochei da socialista, quando, reconheço hoje, que o utópico sempre fui eu.





domingo, 3 de fevereiro de 2013

Parabéns, Formado.


Fui o tipo de criança que teve o prazer de crescer sob o amparo da família: mãe, pai, irmã, vô, vó, tios, tias, primas. Por conta disso mesmo, cresci e hoje sou um adulto orgulhoso, grato e feliz por esse infância. 
Tendo sido um garoto sempre cercado por parentes amáveis, estar com eles era igualmente amável, um prazer que saboreei sem titubear ao longo daqueles (e destes) anos. Estar na casa dos avós então, nem se fale: como digo nos agradecimentos de minha monografia, aquela morada sempre me foi "um polo de amor e carinho".

Tive a sorte, ainda, de ter sido o tipo de criança que cresceu brincando na rua em uma São Paulo já totalmente desenfreada e agigantada. Tive a sorte de ter sido uma criança que jogou bola com os pés descalços direto no asfalto, e que media o tamanho dos gols com passos e os demarcava com pedras ou tijolos. Andei de bicicleta, brinquei de esconde-esconde, estourei bombinha, toquei campainha e sai correndo, andei de patins, de skate - e  houve até um projeto de carrinho de rolimã que não vingou - tudo na rua. Tudo na rua dos meus avós ou na rua da minha avó, como costumávamos dizer.
Obviamente, não fiz nada disso sozinho. 
Nenhum desses momentos vividos - na época em que o horário de verão significava horas a mais de correria e diversão - teria sentido sem os amigos, os vizinhos, os companheiros (as cajazeiras, para lembrar da metáfora novelística/irônica do meu avô).

***

Pois, e me lembro tão bem, de quando apareceu um menino novo nesse contexto - na rua dos meus avós, durante as férias  escolares de 1999 - andando pra lá e pra cá em uma bicicleta amarela. A princípio olhávamos com desconfiança: "quem é esse novo sujeito aqui na Augusto Rolim?". Depois, alguém o convidou para integrar um jogo de linha (dois na linha, um no gol) ou ele mesmo se convidou, ou nem era linha que jogávamos, ou estávamos andando de bicicleta...
Havia se mudado há pouco tempo. Morava na parte de cima da rua. Vinha de Interlagos. Tinha um irmão mais velho. Torcia pro Corinthians. Estudava numa escola meio longe. E todas essas coisas que vamos perguntando quando somos crianças e encontramos uma outra criança que parece que pode ser uma boa companhia para brincar.
Ele se aprochegou, juntos começamos a pedalar, jogar bola, jogar vídeo game, atazanar os vizinhos com os estampidos de nossos traques.
Não demorou e aprendemos onde era a campainha da casa dele, ele aprendeu onde era a campainha da casa dos meus avós, da casa do nosso amigo. Aprendemos uns os nomes dos familiares dos outros, fomos bem vindos uns na casa dos outros.

Nossos pais já têm tantos cabelos brancos. Já temos bem mais idade do que achávamos legais terem os nossos irmãos mais velhos. 
E você, meu amigo, agora é um cara formado. Que apareceu do nada na rua em que eu saboreava as minhas férias e de repente estava junto de mim na porta do Pacaembu, brindando uma cerveja e comentando planos de futuro.
Parabéns, formado, não sabes como me alegra poder escrever pra ti estas palavras e ter estado contigo todos estes anos.




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

16h17min.


Na verdade eu não ligo muito pro espaço pro lugar pra todas essas coisas não humanas que constroem e permitem as situações e os momentos entre alguns humanos. Na verdade eu não ligo muito pra quando tem muitos humanos construindo um momento e uma situação em um mesmo lugar isso às vezes até me chateia um pouco. Na verdade eu parei o que estava fazendo pois está insuportável permanecer calado assim com a boca toda fechada e sentindo nela centenas de sabores que faz tempo que por ela não passeiam. Na verdade eu estou com pressa de não ter pressa para te beijar e te abraçar e te tocar sem precisar usar vírgulas sem precisar de pausas. Na verdade eu quero os sabores. Na verdade eu  não ligo nem pro espaço nem pro lugar e só quero acabar com essa vírgula com essa pausa que separa o verbo e toda ação de nós dois sujeitos humanos construintes de situações e momentos saborosos.