segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Iogurte.

Era linda, e nos veríamos por diversas vezes naquela tarde. No primeiro momento em que meus olhos foram refrescados por a ver, eu ia para um lado e ela para o oposto.
Na verdade, não tinha nada de mais, além dos dreads pretos, do sorriso encantador, da pele lisa levemente acompanhada por saliências, da calça jeans escura combinando com um tênis cotidiano já esfolado e do violão que carregava nas costas. 
Não tinha nada de mais, além disso tudo.
Na segunda vez em que a vi (e desta forma, "eu a vi", pois tenho certeza de que ela nem me notou), estávamos ambos indo para a mesma direção na cidade. Passei por ela, que, concentrada, apenas observava seus próprios passos macios sobre a calçada lisa e cinza.
Adiante eu parei e me sentei em um banco, fiquei por ali um tempo, e ela passou, desta vez encarando com seriedade uma placa publicitária pendurada do outro lado da rua. Ficou praticamente de costas para mim, demonstrando que realmente, era eu quem a via, e não o oposto, e muito menos o composto: nós nos vermos.
Passou.
Mais um tempo e me levantei, tinha todo um caminho por seguir ainda, talvez a encontrasse, talvez não. Aliás, tentei me convencer de que não faria a menor diferença vê-la por mais uma vez, mas a verdade é que sai à rua atento e sedento por encontrá-la pela quarta vez, e quem sabe abordá-la, e quem sabe apresentar-me, e quem sabe...
De repente uma pá de cal na cristalização de uma paixão espontânea em final de tarde úmida.
Sentada no gramado de uma praça qualquer (com nome de militar cansado), seu violão repousava ao chão, usava os dentes que outrora formavam um belo riso para morder e romper uma das quatro pontas de uma embalagem de plástico mole repleta de iogurte.
Diminui a velocidade dos passos para contemplar este momento com toda a minha atenção.
Mordia, com a força necessária para rasgar o fecho plástico, e, ao mesmo tempo, com a delicadeza de evitar que a força empregada fosse tanta a ponto de rasgar toda a embalagem e mandar todo aquele líquido rosa pelos ares e gramados da praça.
Me parecia quase uma deusa do equilíbrio.
Ao conseguir finalizar a abertura de um pequeno buraco na ponta da embalagem, tombou a cabeça para trás e, com a boca cravada no canto aberto daquela, foi, gole a gole, tomando todo aquele litro de iogurte.
Eu, que sempre fui adorador de lactoses e laticínios diversos, me encantei neste preciso instante.




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