segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Joelho, Bacia e Peito.

Quinta feira à tarde, ao telefone:

-Clínica médica, boa tarde.
-Oi, boa tarde, tudo bem?
-Sim senhor, em que posso ajudar?
-Gostaria de marcar uma consulta com um ortopedista.
-Algum profissional de preferência?
-Me indicaram o Clóvis.
-Um instante; o Clóvis tem horário na sexta feira da semana que vem, pode ser?
-Hm, não. Tem que ser antes.
-A consulta será sobre qual parte do corpo?
-Joelho, Bacia e Peito.
-Nossa.
-É...
-Bom, tem o Doutor Rui, que é especializado em joelho. Ele tem horário na segunda feira pela manhã, pode ser?
-Hm, pode. 
-Então fica marcada a consulta com o Doutor Rui, na segunda feira de manhã, tudo bem senhor?
-Sim, tudo bem, foi pra isso que eu liguei. Obrigado e bom trabalho moça.
-Por nada senhor. Boa tarde.
-Igualmente.


Segunda feira de manhã, já na clínica:
-Bom dia, tudo bem?
-Bom dia. Hm, se estivesse tudo bem não precisaria de um médico.
-Certo. Onde você tem dor?
-Joelho, Bacia e Peito.
-Nossa. 
-É.
-Conte-me sobre as dores.
-Esses locais que eu te disse, eles doem.
-Certo. Abaixe a calça e deite-se na maca.
-Tá.
(...)
-Aqui dói?
-Sim.
-Assim dói?
-Sim.
-Assim...
-Ai!
-E assim?
-Também.
-Para cá?
-Dói.
-E para cá?
-Também.
-Dói quanto?
-Quanto?
-É. Quanto.
-Bom, o suficiente pra me incomodar.
-E pra cá?
-Também.
-Certo. Você vai tirar radiografias.
-Tá bem.
-Joelho, Bacia e Peito?
-Sim.

Na sala de raio-x da clínica:
-Tire tudo que tem de ferro.
-Sim.
-Abaixe a calça.
-Sim.
-Agora deite; não, mais pra trás; agora de lado; vire a perna, não, pro outro lado, não, mais pra baixo, não, vira mais o quadril,não, junte as pernas, agora os pés, não, mas fica de lado, isso, de lado.
-Hm.
-Agora você vai subir de novo, isso; pode arrumar a calça, e espere um pouco.
-Posso colocar de volta tudo que tenho de ferro?
-Sim.
-Devo ficar deitado?
-Pode sentar se quiser.
-Tá.
(...)
-Pronto. Aqui estão as radiografias, pode ir para a sala do Rui novamente.
-Certo, obrigado.
-(nada respondeu).

Doutor Rui recebe as radiografias e as prende em uma caixa branca fixada na parede com uma luz forte, as encara de pé:
-Uhum. Uhum.
-É grave?
-Na verdade não existe nada de errado.
-E porque meu joelho, minha bacia e meu peito doem?
-Não sei. Acho que você poderia procurar outro médico.
-Mas nem do joelho você pode falar algo? Me disseram que é especialista em joelho.
-Seu joelho está com os ossos no lugar. Assim como sua bacia e seu peito. Deve ser algo nas articulações, procure outro médico.
-Outro ortopedista?
-Não, algum que lide com articulações.
-Tipo um articulacionista?
-Na verdade eu indicaria um reumatologista.
-Hm. Tá.
-Bom dia.
-Obrigado. Igualmente.

Moral da história: hoje eu aprendi que não é porque o cara é especialista em joelho que ele vai ser um bom médico, vai te tratar direito ou mesmo vai te olhar na cara. Ele é só um profissional do corpo humano que entende de joelhos.


sábado, 26 de janeiro de 2013

Indo pra Guerra.

Certo sábado me recordo que fui a um Shopping paulistano junto de um amigo. Eramos jovens (até demais), e quando não tínhamos o que fazer durante as "férias escolares" (ou finais de semanas ou feriados), íamos até este shopping - sim, sempre o mesmo. 
Sabíamos que encontraríamos por lá algum filme idiota para vermos, algumas pessoas idiotas para conversarmos e/ou algum fast food idiota para comermos enquanto papeávamos sobre qualquer coisa (não necessariamente idiota).
Se minha memória calendarística romana não estiver equivocada, o narrado adiante deu-se no segundo semestre de 2004, quando tínhamos, eu, 15 anos, e esse amigo [para facilitar a fruição do texto, o chamarei de Cleiton], 17.
Neste sábado específico, perambulávamos pelo shopping quando o dia já virava noite, e um colega de sala de aula ligou para o Cleiton para falar sobre uma prova que teriam na segunda. Meu amigo recordou-se de que não possuía nenhum material em casa para estudar no domingo, de modo que seu colega disse que se quisesse passar na casa dele para pegar apostilas, livros ou cadernos (não me lembro) que o fizesse ainda naquela noite.
Cleiton ligou para o seu pai, pedindo que fosse nos buscar de carro no shopping, para que o levasse até a casa deste colega de sala de aula. Quando entramos no carro, o pai dele quis saber porque teria que ir na casa do colega em um sábado a noite, o que fora explicado por Cleiton.
Recordo-me que no trajeto entre o shopping e a casa deste colega, Cleiton ouviu uma bela bronca do pai, que, entre outras coisas, disse de forma emblemática: "uma guerra está vindo na sua direção, você está indo na direção da guerra, mas você não se preparou, não se armou".

Nestes dias de Janeiro de 2013, tenho me sentido mais ou menos dentro dessa descrição do pai do Cleiton.

Ps: o pai deste meu amigo sempre pensou (não sei porque) que eu era um ótimo aluno. Acho que eu nunca disse a verdade pra ele. Nem o Cleiton.


***






terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Intrusa no Panetone.

Certa vez, já faz muitos anos (mas acho que ainda não completou uma década), em uma roda de conversa sem assunto, começamos a falar sobre panetones. Creio, por lógica, que se tratava de algum Dezembro. A lógica se faz mais lógica quando considero o local e os sujeitos envolvidos na conversa - uma rua do Planalto Paulista, com um vendedor de churros e meus amigos deste bairro - eu estava em férias escolares, o que ocorria, sobretudo, entre Dezembro e Janeiro, período de "boas festas" e de Panetones.
Talvez o assunto tenha se iniciado pois alguém havia dito que tinha acesso a deliciosos panetones caseiros; talvez tenha se iniciado em decorrência de algum outro assunto. Na verdade não consigo imaginar que tipo de conversa desembocaria na temática "panetones".
Enfim.

Recordo-me que um dos sujeitos da conversa tomou a palavra para relatar um caso que passeava entre o nojento/crocante e o curioso/repugnante. Ele havia comprado um panetone de determinada marca, e notou, ao cortar aquele pão arredondado, que no meio daquela massa assada havia algo além das frutas cristalizadas: havia uma barata morta.
Imediatamente tirou fotos do inseto intruso, entrou em contato com a empresa e ameaçou expor o caso à imprensa e entrar na justiça para abertura de processo, uma vez que - em nossa cultura ocidental - a barata é um dos animais que, talvez ao lado do rato, seja o mais relacionado à sujeira, à lixo, à esgoto, à falta de higiene - vide este grande filme.
No fechamento da história, disse que um dos advogados da empresa entrou em contato com ele para que realizassem um acordo, evitando processos e exposições públicas da imagem desta. Não me recordo precisamente qual acordo fora selado, se a memória não me engana, foi algo como receber  grandes cestas de alimentos da empresa mensalmente durante anos.

E tenho cá meus motivos pra ter me lembrado disso justamente hoje.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Iogurte.

Era linda, e nos veríamos por diversas vezes naquela tarde. No primeiro momento em que meus olhos foram refrescados por a ver, eu ia para um lado e ela para o oposto.
Na verdade, não tinha nada de mais, além dos dreads pretos, do sorriso encantador, da pele lisa levemente acompanhada por saliências, da calça jeans escura combinando com um tênis cotidiano já esfolado e do violão que carregava nas costas. 
Não tinha nada de mais, além disso tudo.
Na segunda vez em que a vi (e desta forma, "eu a vi", pois tenho certeza de que ela nem me notou), estávamos ambos indo para a mesma direção na cidade. Passei por ela, que, concentrada, apenas observava seus próprios passos macios sobre a calçada lisa e cinza.
Adiante eu parei e me sentei em um banco, fiquei por ali um tempo, e ela passou, desta vez encarando com seriedade uma placa publicitária pendurada do outro lado da rua. Ficou praticamente de costas para mim, demonstrando que realmente, era eu quem a via, e não o oposto, e muito menos o composto: nós nos vermos.
Passou.
Mais um tempo e me levantei, tinha todo um caminho por seguir ainda, talvez a encontrasse, talvez não. Aliás, tentei me convencer de que não faria a menor diferença vê-la por mais uma vez, mas a verdade é que sai à rua atento e sedento por encontrá-la pela quarta vez, e quem sabe abordá-la, e quem sabe apresentar-me, e quem sabe...
De repente uma pá de cal na cristalização de uma paixão espontânea em final de tarde úmida.
Sentada no gramado de uma praça qualquer (com nome de militar cansado), seu violão repousava ao chão, usava os dentes que outrora formavam um belo riso para morder e romper uma das quatro pontas de uma embalagem de plástico mole repleta de iogurte.
Diminui a velocidade dos passos para contemplar este momento com toda a minha atenção.
Mordia, com a força necessária para rasgar o fecho plástico, e, ao mesmo tempo, com a delicadeza de evitar que a força empregada fosse tanta a ponto de rasgar toda a embalagem e mandar todo aquele líquido rosa pelos ares e gramados da praça.
Me parecia quase uma deusa do equilíbrio.
Ao conseguir finalizar a abertura de um pequeno buraco na ponta da embalagem, tombou a cabeça para trás e, com a boca cravada no canto aberto daquela, foi, gole a gole, tomando todo aquele litro de iogurte.
Eu, que sempre fui adorador de lactoses e laticínios diversos, me encantei neste preciso instante.




sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

3h47min/10h12min.

medáumbeijo,
dormecomigo,
acordacomigo,
umdiadebobeira,
sempressaalguma,
d
e
i
x
a
o
t
e
m
p
o
etodasaspalavras
soltasbemlivres
prabrincarmosassim
deprovarumaooutro
emumdiadebobeira
s
e
m
a
p
r
e
s
s
a
d
e
s
s
e
s
v
e
r
s
o
s
.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Matemática/Vida.


Daqui há um mês e dois dias,
Eu completo,
Vinte e quatro anos.

Daqui há um dia,
Se completará um mês,
Da segunda conquista do Mundo.

Daqui há trinta minutos,
Fará oito horas,
Que lhe desejei 'boa viagem'.

Daqui há vinte e quatro anos,
Estarei há um mês e dois dias,
Dos quarenta e oito.

O que vale as penas,
Desta matemática/vida toda?