segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Sabores, cheiros e palavras das férias.


Dezembro entra rasgando, junto com o rasgar da penúltima folha ­­­­do calendário do ano.­­­ Já está quente no finzinho de novembro, o corpo já está cansado e os olhos já dobram frente às obrigações do cotidiano.
Este ano, em especial, cansei mais do que nos últimos: ano de decisões importantes, ano extra como aluno universitário, ano de processos seletivos (que, benza deus, acabou por ser apenas um), ano de perdas, ano de muro de Berlim, ano em que voltei para a escola (embora, desta vez, do outro lado da mesa), enfim, ano de muitas coisas, era de se esperar que observasse dezembro surgir no horizonte com um cansaço maior sobre as pálpebras.
Chega o ar mais quente, as chuvas corriqueiras e fortes, já estou habituado ao horário de verão, as lojas penduram aquela porcariada verde, vermelha e iluminada, os mercados possuem pilhas e pilhas de panetones e espumantes, e a minha boca se enche de saliva ao receber das sensações filtradas pelo cérebro a seguinte informação: “um período de férias está chegando”.
E por mais que passem os anos, que os cansaços aumentem, que o passado se torne cada vez maior e mais largo e (alguns passados) mais distantes ainda, os sabores, cheiros e vozes que veem à boca ainda são os mesmos de anos atrás: bolo de banana da minha avó saboreado ao lado dela, a pólvora de bombinhas com o Fabinho e o Renato, e as conversas na sala com meu avô.

Mais do que as saudades que sinto daquelas férias (repetidas durante tantos anos), carrego aqui no peito a felicidade por lembrar que tanto as vivi.



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Diário da Raffaela - Suada.


Raffaela saiu da escola. Não no sentido de quem terminou de cursar o ensino escolar básico, tido como obrigatório de ser ofertado a todo indivíduo neste país, e não mais voltará à escola na condição de aluna. Nem no sentido de que teve muitas faltas, foi considerada aluna evadida e, por vontade própria e falta de contra argumentos da família, abandonou os estudos. Mas sim no sentido de que passou por debaixo do arco que compõem o portão da escola, no vetor conhecido como "do espaço escolar para os domínios da rua" (ou "de dentro para fora"). 
Por isso afirmo: Raffaela saiu da escola.
Ela subiu em um ônibus, depois desceu dele, subiu em outro e desceu deste outro também, mas ai não pegou outro. Não. Caminhou por dois quarteirões e chegou em casa. Todo dia fazia esse trajeto.
Raffaela morava com o pai em uma casa em cima de um supermercado em um bairro afastado do centro e das lojas e das melhores escolas e dos terminais centrais de ônibus em uma cidade média que tinha mais do que um terminal central e muitos supermercados e um desses supermercados (o que ficava embaixo da casa da Raffaela) era propriedade do pai dela. 
Raffaela saiu da escola, pegou dois ônibus e chegou em casa.
Para chegar em casa ela tinha que passar por dentro do supermercado (que ela considerava parte de sua casa, especificamente, a dispensa). Eram os últimos dias de aula do ano, final de novembro e o calor começava a morder as glândulas sudoríparas e a causar a efervescência e o fugitivismo bandido das gotas de suor por todo o corpo.
Raffaela passou por dentro do supermercado, o pai falou algumas coisas com ela, até que, enfim, chegou nos espaços privada e puramente de sua casa; ela precisava de um banho, mas antes escreveu em seu diário:

"Merda de mercadinho do caralho que saco essa porra vou ter que trabalhar nas férias achei que ia poder descansar um pouco e ficar tranquila só passeando com a Lú e a Sô mas vou ter que ficar trabalhando aqui pra economizar com funcionário bosta".




segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"O mundo dos adultos".


Em 2006 eu era apenas um idiota mirim aspirante a idiota adulto com potencialidade para realizar especializações dignas de um cretino-profissional. Vivia os meus dezessete ano recém completos e tinha feito um trabalho da escola com dedicação e seriedade, acho que foi o único que realizei com estes adjetivos naquela época. Se tratava do produto de alguns meses de pesquisa no chamado “Alfa – Projeto Monográfico do Colégio Bialik”.
No meu projeto realizei uma breve pesquisa sobre a arte urbana em São Paulo, um trabalho que estava no grupo de “Cidades e Urbano”, coordenado/orientado pelo professor de geografia (o louvável Rui) e que pra mim se tratava de um trabalho de artes – até por que, eu, à época um jovem que colava duzentos adesivos por final de semana pela cidade, era um “sujeito de pesquisa” e me achava artista, sim.
Realmente me dediquei a ele, pois rolava um papo de que quem o fizesse com dedicação ganhava um “Bônus” no conselho de professores, e não seria reprovado no final do ano. Minha estratégia, talhada no começo do ano letivo, então, foi: “vou me dedicar a este projeto que assim não preciso estudar as coisas chatas”.
E me dediquei mesmo a ele: fiz pesquisa de campo, fucei biblioteca da Usp, biblioteca no centro, torrei dinheiro com livro, fiz curso de grafite pra me aproximar dos artistas. Não por menos, três excrescências ocorreram como forma da meritocracia dizer: “este trabalho foi bem feito”.
A primeira delas foi a classificação do mesmo (junto de outros oito de alunos do mesmo ano que o meu) para uma feira de ciências e engenharia na Usp. A segunda delas (não bastasse a primeira, já absurda pros meus intuitos vagais da época) foi ele ter sido reverenciado como “melhor trabalho na área de ciências sociais aplicadas” – e me lembro de resmungar: “que porra é essa de ciências sociais? Ainda mais aplicadas. Essa merda é um trabalho de arte, não tem nada de social”.
A terceira excrescência meritocrática, para mim a mais espantosa de todas, foi o raio do trabalho ter sido chamado para apresentação num tal “Cientistas de Amanhã”, evento para apresentações de monografias realizadas por estudantes de ensino médio, organizado pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (a SBPC). Ocorreria em Florianópolis e “pagariam” tudo para que eu chegasse lá e falasse sobre o trabalho.
Porém, para apresentar o trabalho neste mega evento da intelectualidade brasileira, segundo meus professores, seria necessário “reescrever o trabalho todo”, uma forma de fortalecê-lo para a apresentação, torná-lo melhor, mais coerente, mais cabível nas propostas e expectativas dos organizadores.
“Mas, João, se o trabalho já foi selecionado e tudo, não é só montar a apresentação e chegar lá que tá tudo certo?”, perguntei algo assim ao coordenador geral do projeto. E ele respondeu algo como: “Gabi, a gente tem que botar pra fuder, e refazer o trabalho, reescrever tudo com mais orientação, mais atenção, mais carinho vai valorizá-lo pra caralho”.
Sai da escola chateado esse dia, pensava: “poxa, será que meu trabalho ficou ruim do dia pra noite? Pra que reescrever essa parada?”.
Quando estava já chegando em casa, de dentro do ônibus vi que dois grafiteiros do meu bairro, com os quais realizei parte do projeto e das entrevistas, estavam pintando um muro, e desci do ônibus uns pontos antes, para papear um pouco com eles. Um deles perguntou como andava aquele trampo que eu tinha feito, e eu contei a novidade da seleção para apresentá-lo em Florianópolis, me lembro deles vibrarem e do outro dizer algo como: “porra, que foda, a gente tá sendo visto que nem artista, valeu mano”.
Mas já cortei a festa, dizendo que o professor indicou que teria de reescrever o trabalho todo e que eu não entendia como o trabalho havia se tornado ruim do dia pra noite. Um dos rapazes, sendo bem sensato, disse: “ah fi, isso é mania do mundo dos adultos, esse papo de refazer, melhorar, de nunca estar bom. Acostuma que vai ser sempre assim”.

E sempre que é assim, que o que era bom fica ruim e tem de ser refeito de repente, eu me lembro desse dia.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Aqui Habita um Professor? - VIII


As quartas feiras são dias infernais na vida deste jovem professor, começam às 5h40min, quando acordo, e terminam normalmente às 20 horas e uns quebrados, quando chego em casa, quebrado.
Ultimamente têm sido seis aulas pela manhã, uma tarde inteira ocupada com algo útil (estudo, descanso, passeio pela bela Vera Cruz) e duas horas-aula de "reunião de professores". 
Após essa maratona, sempre volto para Marília de carona com algum professor e, às vezes, pego carona com um professor que me deixa num dos principais supermercados de Marília. Como foi o caso ontem.
Hoje, quinta feira, quando cheguei pela manhã na escola, travei o seguinte diálogo com uma aluna:
-Sor, vi você no mercado ontem!
-Ontem? - pensei que fosse no mercado de Vera Cruz.
-É, na fila do caixa rápido.
-Ah, pode crê. Lá em Marília?
-Isso. Mas - começa a rir - cê não toma banho não sor?
-Tomo sim pô, por que?
-Você tava com a mesma roupa que deu aula.
-Brodi, tava com a mesma roupa por que tinha acabado de sair da escola. Passei o dia aqui ontem!
-Ah tá - achei que o papo tinha se encerrado, quando a menina me solta: e por que que você tava comprando três cervejas, um pacotinho daqueles de linguiça, iogurte, pão, amendoim e um outro negocio? É só isso que você come?
(...)

Desde que começou essa brincadeira de dar aula, notei como "encontrar com o professor" em algum lugar é bacana pros alunos. Lembro-me, aliás, de como achava isso bacana quando era aluno.
Acho curioso esse tom de "personalidade pública" que os alunos (que gostam do professor, claro) dão para nós quando nos encontram por ai. Apresentam pro pai, falam pra mãe quem é o adulto que estão cumprimentando, dizem pros colegas que nos encontraram, gritam do outro lado da rua para chamar nossas atenção etc.
Porém, o detalhismo desta aluna para observar o que havia em minha cestinha, realmente me assustou...


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Quem é Ana?


Breve relato de José Gomes Neto - XI:

"As coisas estavam mornas. Não aquele morno de cinema, aquele morno de cartório. Aquela falta de paixão. Aquele carinho que é áspero. Aquele sexo que é mero cumprimento da burocracia afirmativa do 'estamos juntos'. É. E então, nos encontramos mais uma vez. Jantamos mais uma vez. Já não estava tão legal. Nos gostamos, mas falta aquela explosão. Falta o rebite pros caminhoneiros dos nossos peitos. Sugeri uma pizzaria nova (pelo menos nisso buscar alguma mudança), e nela fomos bem recebidos. Inclusive, bem recebidos pela promoção de vinhos argentinos. Uma pizza, uma garrafa. Sugeri um motel diferente. Fomos. E, não sei ao certo por quê, ali (sob o olhar atento do espelho de teto) acabei por dizer um nome diferente: Ana. A tristeza também foi diferente. Correr para o banheiro, chamar um táxi, ir embora aos prantos. Nada do que eu disse adiantou - com razão. E até agora eu ainda não descobri quem é essa Ana, que chegou aos ouvidos de quem não mais me Ama, após pular da minha boca - em plena cama".

José Gomes Neto,
1 de Março de 2006,
Não conhece nenhuma Ana.



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Gabriel, desligue o amplificador.


Dei a última paulada nas cordas da guitarra, e me abaixei na frente do pedestal do microfone. Mexi nos botões dos meus pedaizinhos de efeito. Joguei a distorção ao máximo, criei duas ondas dissonantes com o phaser e o flanger. Me levantei novamente e segurei a guitarra de frente para o amplificador (que não era o que estou acostumado a usar, o que me causou transtornos e infelicidades, em minha própria casa).
A onda ressoou distorcida e disforme. E ressoou até a frase "Gabriel, desligue o amplificador", ser martelada em minha cabeça. 
"Gabriel, desligue o amplificador". 
Logo eu, que tantas vezes já cantei aos berros "while the amps are screaming for us". Desta vez, até o amplificador deveria parar de gritar por mim.
"Tudo bem".
Gradualmente abaixei o volume da guitarra, até o zero. Silêncio retomado, sem cerimônia levantei o pino do amplificador, do 'on' pro 'standby'.
Me ajoelhei ao lado da bateria, o dj começou a tocar aquela outra música, de se respirar a plenos pulmões, que diz que o mundo é um vampiro
Ela chegou ao fim, pensei: "não dá pra melhorar/piorar" - ainda não entendi se melhorou ou piorou. Mas começou aquela outra música, que fala de quando você era jovem. A ouvi sentado na escadinha de saída do palco. Interpretei que é sobre quando eu era jovem. 
Era.

Tudo isso pra dizer que desliguei o amplificador tocando em casa, e ao fazer isso, tive certeza de que era a última vez que o fazia "nesta fase" da vida, "neste local", deste jeito. 
Mais do que desligar o amplificador, Gabriel, lá começou o desligamento de uma fase da vida.



[Fotos: Mariângela Lahr].

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Carta de resposta positiva aos que me nomeiam mau e/ou sem caráter.


Esta carta, ou "breve postagem" (era digital, século vinte e um), é dedicada aos amigos e amigas que questionam a índole de minhas atividades cotidianas. Que questionam a índole de meus posicionamentos cotidianos. Que questionam o andamento dos meus cotidianos. Que questionam as preferências, mudanças de rota, rumo e companhias que operacionalizo e aciono em meus cotidianos.
Àqueles e àquelas que questionam: "como pode fazer isso? idiota, babaca, trouxa, otário, mau caráter, sem caráter".
Vim lhes dizer que, de factum, o sou. Vocês estão certos em seus apontamentos. Obrigado pelo aviso, pelo informe, pelo toque, pela classificação subjetiva, pela nomeação. E me perdoem pela certeza em assumir tais verdades.

Sou o tipo de mau caráter que galanteia a namorada ou namorado do amigo ou da amiga até chegar às vias dos fatos, por puro prazer de me sentir mais altivo em meu coco matinal - ao imaginar a discórdia semeada naquele nicho de monogamia corrompida ante meu bafinho.
Sou o tipo de sem caráter que compra e vende e negocia (fazemos qualquer negocia) trabalho de conclusão de curso, projeto para pós-graduação e planos de vida.
Sou o tipo de descaracterizado que seleciona o item "não possuo outro vínculo profissional" para ganhar mais dinheiro de forma irregular, quando, na verdade, a carteira de trabalho está mais assinada que camiseta promocional de time recém campeão repleta de autógrafos.
Sou o tipo de sádico que conta pra diretora da escola que o aluno escreveu "professor bobo" no caderno, só pra vê-lo levar bronca.
Sou o tipo de malaco que diz que o lugar que você frequenta é uma bosta de lugar, mas logo logo tô lá.
Sou o tipo de canalha que toma uma atitude em nome de meu amor contemporâneo, para em seguida encontrar outros meios, caminhos, nomes e logins de seguir atazanando as paixões passadas.
Sou o tipo de cretino que vê a nota de dez cair do bolso de um anônimo e espera que ele se afaste, para que possa me considerar dez reais mais rico.

Em suma, vocês estão certos: eu sou o cara-sem-caráter que abdica de um amor, de uma companhia frutífera, saborosa e cotidiana dos últimos tempos em nome de arriscar um romance com a gerente da agência bancária, que é linda e habita os sonhos de todos os juros, moratórias, caixas eletrônicos, bobinas de papel de extratos bancários e envelopes para depósitos de cheques.

Este sou eu. 
Vocês sempre estiveram certo.
Valeu,
Gabriel Coisó - judeu e descendente de franceses.


"V, de Verdade".

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Rotinas das Manhãs/Manhãs na Rotina.


Tudo é repetição,
Nas manhãs,
Da rotina.

Na rotina,
Das manhãs,
Tudo se repete.

Às vezes muda, 
Qual ônibus,
Vem na frente.

Mas, 
Em geral,
É tudo igual.

Pedestres, Resmungos, Bons dias, Motoristas, Cobradoras, Carros, Ônibus, Passageiros, Relógios (sobretudo).


Nas manhãs,
Tudo é repetição,
Da rotina.

Das manhãs,
Tudo se repete,
Na rotina.

Às vezes muda,
A ordem,
Dos ônibus.

Mas,
É tudo igual,
Em geral.

Motoristas, Bons dias, Carros, Pedestres, Passageiros, Ônibus, Cobradoras, Resmungos, Relógios (sobretudo).


Da rotina,
Nas manhãs,
Tudo é repetição.

Tudo se repete,
Das manhãs,
Na rotina.

Às vezes muda,
O posicionamento,
Dos ônibus.

Mas,
É tudo geral,
Em igual.

Bons dias, Cobradores, Ônibus, Carros, Motoristas, Pedestres, Resmungos, Passageiros, Relógios (sobretudo).


sábado, 2 de novembro de 2013

Carnificinas de Paixão - Oito.


O jovem casal heterossexual branquinho com roupas bem limpas cabelos lisos e barba bem feita (que agradaria a qualquer senhor ou senhora com vestígios de ditadura correndo pelas ideias) se sentou no banco do ponto de ônibus.
Uma senhora atravessou a avenida, bem velhinha bem branquinha com um sapato de salto e uma roupa toda bem engomadinha e um colar bem douradinho. Se sentou no mesmo banco, ao lado do casal.
Puxou assunto - perguntou se estavam lá fazia tempo, disseram que sim. A senhorinha começou, então, a dizer onde estava, o que fazia, pra onde ia, onde morava e: "vocês são namorados?", "sim", disse a moça com um sorriso no rosto e apertando mais forte a mão do moço.
"Ai, que delícia!", exclamou a senhora, "eu lembro dos meus tempos de menina, que comecei a namorar. Ai como é gostoso! Me convidem pro casamento hein?". 
Os jovens, encabulados, riram. O ônibus surgiu na rua, se levantaram, a senhora também.
Antes de subir no veículo, ela olhou mais uma vez para o jovem casal, sorridente, e disse: "o amor é lindo não é mesmo?".
"O amor é foda", disse a moça.
A velhinha desfez o sorriso, subiu no ônibus (se sentou nos bancos amarelos, preferenciais) e, lá do fundo, o casal a ouviu dizendo ao cobrador: "essa juventude não sabe nem amar sem falar besteira, tá tudo perdido".
*
Ele e ela iam para a casa dela. Quando chegaram lá se amaram, de um jeito foda. 
Foda.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Carnificinas de Paixão - Sete.


                      Quando tão apaixonado,

                 Que o colchão vazio,


      Só com o seu corpo pelado,

                             Parece qualquer terreno,
                             Seco e esturricado,
                             Em que brota aquela flor rara,



                 Que nasce no cerrado.





segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Dois de Outubro de Dois Mil e Treze.


Meu nome: Gabriel.
Por aqui me chamam: Coiso.
Meu estado físico: cansado.
Meu estado emocional: apaixonado.
Minha ocupação: estudar.
Minha roupa: camisa de flanela.
Minha armadura: camisa do Corinthians.
Minha respiração: ofegante.
Meus dentes: não escovados.
Minhas pernas: pulsando.
Meus tênis: furados.
Minha bolsa: cheia à metade.
Meu espírito: vitorioso.

Minha síntese: ansiedade.

E assim se prevê que será em todo período decisivo nesta vida (com breves alterações nos quesitos dentes e tênis).
*
E um beijo apimentado pra quem me aguentou naqueles dias tensos.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Isto não é apenas um show.


“Dia 13 de Setembro tocaremos em Bauru, ajudem a divulgar”, foi um twitte publicado no perfil da minha – sem hipérboles – “banda favorita”.
Como ocorrera nas outras duas vezes em que algo deste gênero (e envolvendo esta banda e cidade) foi publicado em redes sociais nos últimos seis anos, prontamente disse: “eu vou”. E eu vim.
Todas as três vezes (2009, 2010 e agora, 2013) foram completamente diferentes em si. A vida muda rapaz – e se viajei alguns quilômetros e gasteis alguns vinténs nestas ocasiões, foi por sempre crer no que diz uma música: “vem dar valor ao que é bom nessa vida, que é tolice viver por viver (...)”.
Desta vez sai da escola, onde tento me habituar com a idéia de que “sou professor”, e vim para cá, Bauru. Cheguei cedo: a casa em que ocorrerá o show abre apenas às onze da noite, e eu desci do ônibus na rodoviária, precisamente, as duas e vinte e sete da tarde.
Havia o intuito de comprar ingresso ao preço de antecipado, e uma grade de horários dos ônibus que me levariam de Marília à Bauru que não contribuía para que tal ação fosse possível e, outro fator importantíssimo para ter chegado cedo: para mim não se trata apenas de dizer “vou em um show” ou “vou pra um rolê” ou, mais ainda, “vou consumir um serviço músico-artístico-cultural”.
Pra mim tem de ser um dia, cujo ápice será o show, e que tem de ser vivido, sentido. Para se chegar ao ápice dele plenamente, há de existir espírito, vida, vivacidade. Há de ter dia no dia, noite na noite.
Caminhei pela cidade sem ter o que fazer; comprei um livro, uma bermuda (tava muito quente, e viajei de calça), tomei cafés; escrevi dezenas de idéias em meu caderninho de capa vermelha, redigi alguns “próximos passos” para a vida; centenas de sms’s foram trocados (os destinatários são especiais). Comi cookies integrais, um pastel, tomei uma coca, um iogurte, uma rainequem, bolachinhas assadas sabor peito de peru foram engolidas, conversei com estranhos, pedi e – pasmem! – dei informações sobre caminhos naquela cidade (vocês sabem, eu tenho um passado por aqui...).
Se isso aqui fosse uma propaganda de cosméticos, poderiam dizer que eu tive “um dia avon” ou que vivi “momentos natura”.  
A verdade, entretanto – e esta foi uma ficha que me caiu caminhando positivamente entediado, me encontrando comigo mesmo de uma forma deliciosa – é que faz nove anos que eu ouço e gosto dessa banda, que faz oito anos que eu os persigo por ai (São Paulo, Bauru, cidades do Abc), que faz seis anos que semanalmente (ou quinzenalmente, depende) eu visto uma camiseta com a frase “e que talvez teu mundo não tenha lugar pra mim” impressa (e já desbotando) nas costas.
Pra mim isso tudo – andar entediado, músicas, CD’s, shows, camiseta, adesivo colado na cômoda do quarto – faz todo o sentido do mundo, do “meu mundo” (pra seguir, de novo, a lógica dos comerciais de cosméticos). E que no “meu mundo” tem, sim, lugar pra mim – coisa que bestamente neguei nalguns períodos.
Enfim, após todos os anos “indo atrás da banda” (sendo “macaco de auditório”, como diz meu pai) entendo que, na verdade, não estou meramente indo atrás de uma banda (de um show, de um role, de um serviço músico-artístico-cultural). Estou indo atrás de um momento, de pouco mais de uma hora (às vezes nem isso) de músicas que conheço bem. Estou indo atrás de palavras, de acordes que, ali, no frigir da frente do palco, me representam.
Estou indo atrás de mim.
E, me perdoem pelo final individualmente apocalíptico, mas quem não possuí vínculos enraizados de identidade e auto reconhecimento no universo ao seu redor (músicas, bandas, um time, um lugar etc), jamais entenderá o prazer que vivi ao saborear uma sexta feira de tédio, calor e eu mesmo, coroada e em razão de estar em um show do Dance of Days na cidade de Bauru.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Carnificinas de Paixão - Seis.


Dia de pagamento que cai em véspera de feriado rima com supermercado lotado. Toda fila de caixa é representação, das mais legitimas, de quizumba em porta de formigueiro quando se inicia chuva.
Carrinhos e mais carrinhos entopem os minúsculos corredores, passagens obrigatórias para que “produtos das prateleiras” se tornem “bens pessoais”. O “bip bip bip bip” das máquinas à laser vermelho, leitoras de códigos de barras, é ensurdecedor e incessante.
Uma pintura retratista do caos contemporâneo e capitalista se faz ante meus olhos.
A vez de passar minha breve compra está distante de chegar, e observo tudo ao meu redor, podendo dedicar a maior atenção possível a todos os detalhes, até ser interrompido por um rapaz, que passava compras junto de uma mulher, no caixa em cuja fila eu estacionei o meu carrinho. Passou apressado, chegou até a dar um leve encontrão em meu ombro, e disse à mulher que ele acompanhava ter se esquecido de “um negócio”.
Alguns instantes passam (não sei dizer quantos minutos permaneceu distante da fila do caixa) até que retorna com algo em mãos – dizer “com um produto em mãos” seria um substrato de desumanidade da parte deste escritor. A mulher que o acompanha observa, de costas ao caixa – e ao homem que retorna – os funcionários do supermercado que guardam suas compras em caixas plásticas.
O homem apóia a mão que nada segura num dos ombros dela, que, então, tem a visão estimulada pela orquídea que ele trazia em mãos, e a audição estimulada pelo “parabéns meu bem, eu te amo”, que ele lhe diz.
Ambos tem o paladar e o tato – lingual, corporal e cardíaco – estimulado por um beijo e um abraço, repletos de paixão.



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Sete de Outubro e a pista de salsicha.


A sexta à noite foi vivida, idem para todo o sábado e todo domingo. Não, não é aquele caso de dizer: “se foi o final de semana” ou “como passou rápido o final de semana”. Na verdade, foi o exemplo mais fidedigno do que se pode chamar de vivê-lo plenamente – em termos futurologistas, talvez seja o caso de dizer “foi aberta a temporada oficial de festejos por esta breve e suada conquista”.
Quando voltamos – eu e todos os moleques e manolas que moram em minha cabeça – para a órbita comum dos dias de semana, isto é, quando chegou a segunda feira (e suas inegáveis e inescapáveis obrigações), ocorreu o que não se sentia ocorrer havia tempos/anos: calma, tranqüilidade, pés rígidos, passos firmes.
Sobretudo, havia por aqui – moleques e manolas – calma e tranqüilidade, guiando este corpo, já “não tão pesado”, em passos certeiros, e, por que não, plumamente leves.
Andando sem pressa, pensei nos infortúnios não esperados, nos vividos negativos deste 2013 – como canta o Jair Naves (numa versão ao vivo), pensei que “eu sobrevivi [caralho]”.
Segui andando vagarosamente ao meu destino matinal, pensando nas cápsulas de desgosto, nas chateações comprimidas, nos empurrões expandidos e nas demais coisas ruins vividas neste intervalo de tempo que compõem 2013, ou seja, entre o final de 2012 (pra mim reveionzado no dia 16 de Dezembro daquele ano) e o agora, a manhã deste 7 de Outubro.
É aquela velha história, quando a gente alcança uma vitória, por mais simples que seja, ela torna irrisórias todas as derrotas e dores (di)saboreadas no período, faz-nos esquecer das partidas negativas vividas até que se erguesse a taça da vitória – e os copos da celebração.
A gente nem se lembra (e se lembra, nem liga) que o Corinthians apanhou por 5x1 no começo do Brasileirão de 2005, pois fomos campeões no fim do Campeonato.
Em geral, em suma, cheguei à segunda feira, sete de Outubro, passeando por entre plumas de salmão rosado e gotejos de chocolate. Os pedaços longos de duro asfalto, pelos quais perambulo todos os dias, me soaram como a mais bem feita rua de salsicha - daquela musiquinha da época da escola, que alertava ao motorista dos ônibus de excursão escolar: “motorista, olha a pista, não é de salsicha”.
No caso da manhã da primeira segunda feira posterior ao resultado de minha aprovação no mestrado, e posterior a um final de semana repleto de abraços e carinhos com dezenas de pessoas me parabenizando, os moleques e manolas da minha cabeça cantarolavam, eufóricos em seus lugares dentro do ônibus, que a pista era, sim, de salsicha.
***
Falei das coisas ruins, dos buracos no caminho, e não falarei das coisas boas? Sou realmente um reclamão que só sabe olhar a parte vazia do copo? Um resmungão de primeira linha, atento apenas às porquices do trajeto?

Às coisas boas, às pessoas boas e vitais aos meus trajetos, aos acontecimentos positivos, às sensações de deveres cumpridos, e, por fim, a esta breve conquista ainda recente, a única coisa que posso ousar pensar em declarar por aqui é o alinhamento dentário na foto abaixo:



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Moleque é Moleque.


Moleque é moleque,
E não importa a distância que há,
Entre a data demarcada,
No registro geral,
E o dia de hoje.

E não importa,
A titulação acadêmica;
A lonjura dos pés;
A magreza da pele;
A altura dos ossos.

Moleque é moleque,
E se esconde por trás,
De brincadeirinha de criança,
De esconde-esconde,
Com palavrinhas anônimas.

E não importa,
O volume dos cabelos;
A presença das barbas;
A facilidade no discurso;
O movimentar dos braços.

Moleque é moleque,
E trata com desdém,
Os seus iguais;
E quer sempre tentar,
Tirar alguma vantagem.

Passam-se os anos,
Despede-se com cretinices,
Vê e trata mulheres,
Como meros objetos.

Moleque é moleque,
E você,
Ah, moleque,
Não tem jeito.

M.O.L.E.Q.U.E.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Carnificinas de Paixão - Cinco.


"Sabe, a parte elétrica da minha casa tem um problema curioso. Quer dizer, curioso nada, é um saco aquilo. É no chuveiro. Sei lá por quê o chuveiro não esquenta muito, ai pra tomar um banho de boa e mais ou menos quente tenho que deixar ele aberto bem pouquinho. Não sei, acho que isso aquece demais a resistência e depois aquece demais os cabos e depois aquece demais alguma outra coisa e depois aquece demais uma outra-outra coisa e ai, 'pléc', faz um barulhão, e para de cair água quente. Água fria. Direto no lombo. Acho que a expressão correta é que a "chave da energia do chuveiro cai". Se não for a expressão correta, não deve tá longe da correta. Bom, mas eu tô te dizendo isso tudo pra te falar que, na verdade, acho que acontece algo parecido comigo. Tipo, quando a gente fica junto assim ou quando a gente fica um tempão sem nos vermos e depois nos encontramos. Eu sinto que vou aquecendo, aquecendo, aquecendo e que, a qualquer hora, vai fazer um 'pléc' na minha caixa toráxica e a "chave de energia do meu coração" vai cair, explodir, arrebentar, espatifar-se em mil pedaços. Tamanha paixão que circula por lá".


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Carnificinas de Paixão - Quatro.


Não sou muito de gastar com coisas luxuosas. Aliás, não me ligo muito em coisas usualmente luxuosas. Luxo pra mim é aquela coisa boa da vida: estar com gente que faz bem pra nós, estar em situações e em locais que fazem bem etc.
Tenho meus luxos e meus consumismos, específicos e reduzidos, tanto ao tamanho do que [mal-e-má] recheia os bolsos, quanto à noção de que algumas coisas são luxos supérfluos e não-vitais a mim. Tomar uma cerveja com os amigos, ir a um show que me toca no fundo do coração, ir a um jogo do Corinthians, são coisas vitais.

Sucrilhos, não é vital. Mas tem lá o seu sabor, o seu gosto nostálgico de fim de infância de classe média assistindo programa esportivo em final de tarde na televisão, ou rindo e me babando de leite frente ao glorioso Chaves. Acho que por isso, vez ou outra, bate uma vontade do leite gelado cobrindo levemente uma volumosa porção de sólidos duros amarelados recobertos por açúcar branco.
Certa manhã [ou será que já era a tarde?] ela foi embora. Tinha que ir pra casa, reunião de família, almoço com parentes, algo do gênero. Após ela ter ido embora, por consequência lógica de um cara que mora sozinho, passei a estar sozinho em casa. 
Era sábado, e, solitário - após saborear beijos e sorrisos - tive vontade de comer sucrilhos - sei lá por qual razão.
Sabia que a conta bancária alcançava já os tons mais escuros possíveis na escala cromática dos vermelhos universais, e que não havia hipótese palpável de gastar dinheiro com este luxuoso alimento.

Decidi mandar o sucrilhos às favas, bem como, a vontade de saboreá-lo, e permaneci jogado no colchão ainda suado, pensando - profunda e desejosamente - na pessoa com quem eu havia suado a pouco por ali. Que delícia de madrugada [ou será que ainda era manhã?] vivera a pouco. 
Acendi um cigarro, mas meu corpo pedia sucrilhos. 
Passei um café, mas meu corpo pedia sucrilhos.
Tirei um cochilo, e nele sonhei com aquela moça tão linda - de sorriso fácil e beijo envolvente - mergulhada numa piscina de lona plástica [daquelas de mil litros] repleta de grandes flocos de milho açucarados recobertos por leite branco e gelado.
"Chega", decretei entre lençóis, "preciso de sucrilhos com leite, para aplacar esse desejo, para incinerar esse peito, para contemplar essa paixão!".

Tal qual o deus cristão, com seu adãozinho e sua evita, criei eu mesmo meu próprio sucrilhos: entre dois panos de chão martelei uma garrafa não retornável de cerveja, até que se tornasse uma série de pequenos cacos amarronzados, os coloquei em uma vasilha plástica e cobri com leite, os comi com gosto, em colheradas bem cheias, como se fossem o melhor dos sucrilhos feitos de milho em formato redondo com pigmentação e aromatização de chocolate.
Pois, apenas para nomear de paixão (com todo o gabarito que for possível), sou capaz de mascar vidro, para sorrir com a boca escorrendo em sangue, saliva e leite, dizendo: "volte logo, meu coração num guenta você tão longe".





Pois, luxo mesmo, na minha vida, é o peito pulsar e o sangue correr mais fino, por pura paixão.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Relato de uma entrevista.


Cheguei cedo, e, nisso, não há sustos: eu sempre chego cedo, pelo auto conhecimento do risco de chegar tarde - recorrente nesta vida.
Cheguei cedo, encontrei um bom conhecido, improvavelmente escovando os dentes em um dos banheiros. Descobri em qual sala eu deveria estar às 16 horas e, ao lado da porta desta, me sentei em uma confortável cadeira, exatamente às 15 horas e 28 minutos. 
32 minutos - mais possíveis atrasos - de espera.
Abre caderninho, faz anotação, fecha caderninho; abre agenda, lê anotações, tenta dominar um conceito, em vão: "deixa, nem vou citá-lo"; abre um livro, uma história curiosa [com a qual me identifiquei, leiam a sinopse].
O rapaz que entrou antes que eu saiu: "ufa, já é já, já é já já, já é".
Desliga o celular. Tira tudo dos bolsos.
Minhas mãos tremem e suam: "ai caramba, quando foi que me tornei tão ansioso? Ah é, sempre fui. E inseguro? Esse raio que não passa por nada...". 
Estava lendo a placa que indicava as salas do corredor adiante quando vi, sem câmera lenta nem nada, a maçaneta da porta ao lado se abaixando. 
Respira fundo: "Vai Corintias".
Dizem meu nome.

Entro na sala e tem três pessoas que eu não conheço - três homens - ao redor de uma mesa. 
Num piscar de segundo, numa fração de olhos, minha mente troca o rosto destes sujeitos: não estou em uma sala do departamento de antropologia da USP, estou em uma mesa de bar, no Sul de Minas, e os três sujeitos são o Pedrinho, a Jamilinda e o Alex.
Sento-me na cadeira que indicam que eu sente, e - santa mãe de deus! - agora estou largado no tapete de casa, À minha frente agora, toda a concentração da Janaína, o foco da Mariângela e a curiosidade do Pelego.
Ainda antes de começarem a falar, enquanto ajeito minhas pernas debaixo da mesa, a fumaça do narguilé da Dorô, da Isa e da Naty passa debaixo do meu nariz.
Fico calmo. Vocês me acalmam. Pensar em vocês me acalma.

As primeiras perguntas, sempre com graça: é complicado se identificar como pesquisador (logo, atributo de seriedade) em algo que é motivo cotidiano de diversão e fruto de piadas.
Elas, como já esperava, surgem: "não deve ser fácil vir para uma entrevista após levar quatro da Portuguesa". E não é mesmo, eles não fazem ideia.
Aliás, seria difícil lá estar mesmo se tivéssemos enfiado quatro na Portuguesa.
As perguntas sérias surgem, as respostas sérias tremulam. 
Uma mão desliza no suor da outra, "pelo menos não tremem mais" - penso. A segunda pergunta, uma prensa, um "não vi o valor preciso disto, poderia explicar melhor?", "claro, como não".
Descontração, esse mau contemporâneo intitulado "quebrar o gelo", que a mim soa sempre como "desconcentração".
Mais algumas perguntas, algumas afirmações, algumas auto afirmações - perspicaz lembrança do sábio homem que me disse: "puxe sempre a situação para a sua zona de conforto".
"Então, acho que é isso", os três homens se entreolham, "é, é isso", diz outro deles.
"Só isso? Poxa!", exclamo jovial.
Constrangidos, mais uma pergunta aqui e outra ali, minhas melhores respostas: conceitos, vivências, realizações, anseios, costuras de ideias e práticas e opiniões.

Ao pé da porta, ouço um "boa sorte". Nunca sei se estico a mão para uma saudação cordial nestas situações.
E não, não sai nem um pouco esperançoso desta breve entrevista.




domingo, 29 de setembro de 2013

Carnificinas de Paixão - Três.


"Os produtos dos shopping centers não vão preencher os vazios do seu coração, meu bem":

Sabe,
Acho que eu me encantei,
Pelos seus belos olhos,
Passeando por vitrines,
Procurando por sapatos,
Procurando por casacos.

Sabe,
Acho que eu me entreguei,
Quando te falei,
"Não precisa de sapatos,
Não precisa de casacos,
E talvez seja legal,
Um cara como eu".

Sabe,
Acho que eu desejei,
Me tornar alguns sapatos,
Me tornar alguns casacos,
Me tornar uma vitrine,
Me tornar o shopping todo,
Pra ganhar o seu olhar.

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Versos escritos à luz da batida e melodia criadas pelo Friza e pelo Pelego numa segunda feira à noite.