quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sobre fingir que não conheço.

Naquele dia você surgiu de forma abrupta (sem rodeios, sem avisos, nem nada do gênero) nos espaços que eu ainda compreendia como meus - ou "mais meus do que teus". Respirei fundo encarando meus cadarços desamarrados, e busquei alguma decisão. Como gosto de dizer, "decisão mediadora de ação". 
Amarrei os barbantes do tênis para que pudesse dar os próximos passos de maneira firme: "é, vou ter que fingir que não a conheço". 
Perambulei pelos espaços com os olhos atentos, para que, quando te vissem, fingissem que não viram.
Tardei em ver-te novamente, e quando vi, era como se não visse. Sentia que você olhava para mim, mas não havia retorno. Passei por você, duas ou três vezes, mas fingi que não te vi.
Aliás, fingi não te conhecer. 
E por não te conhecer, não sabia quem era você. E por não saber quem era você, eu não tinha por que te olhar. E por não ter por que te olhar, deixei que seu corpo passasse batido como mero corpo (mero ingrediente na massa).
Na terceira vez em que passei por você, fracassei no plano de fingimento, e acabei por lhe olhar nos olhos: "são dois olhos", pensei, e retomei o rumo de meus passos, que te desconheciam. Mas, mesmo assim, percebi o seu retorno, como um encarar de desdém, misto de "como pode fingir que não me conhece?" com "como pode fingir que não está me vendo?" com "algum floreio metafórico-poético de terceira categoria que você diria com a voz engrossada".
Um pouco baseado naquela lógica judaica, que diz que para manter a honra deve se dar um "troco na mesma moeda", eu fingi não te conhecer: pois foi assim que você agiu quando optou por não me ouvir.


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