quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Cicatriz.


Ele se distraía com os fios brancos que se soltavam do sofá predominantemente azul. Cutucava uns, puxava outros. Até que tirou um fio grande, e brincou com este, o enrolou entre os dedos, fez um laço, desfez, fez um nó, desfez, fez uma bolinha e deu um peteleco para se desfazer dela, que bateu no chão e por lá ficou, sendo apenas um fiozinho retorcido.

Enquanto ele buscava qualquer coisa para se distrair (leia-se: fugir do olhar alheio) ela se concentrava em encontrar novos detalhes no rosto dele. Sabia que estava sendo inconveniente. Sabia que estava estranho estar ali. Sabia que não ficava a vontade com um ser humano a sua frente levando fios rebeldes de sofá mais a sério do que a ela própria. Sabia que queria levar aquela brincadeira toda com um pouco de seriedade.

“Nunca tinha visto essa sua cicatriz na testa”; “eu escondo”; “essa eu já tinha visto”; “tenho uma atrás, desse lado... não, do outro”; “eu tenho essa aqui”; “caramba, foi feio?”; “poderia ter sido pior”; “eu fui uma criança meio elétrica”; “espoleta, como diziam meus vizinhos”.

“Tudo bem, se você quiser, pode ficar tranquilo, não tenho planos de te deixar cicatrizes”; “se você deixar, eu te quebro”; “se você deixar, eu te quebro”.





Um comentário:

Bruna :) disse...

Todos temos cicatrizes: físicas, emocionais, espirituais.
Entretanto, só resta a nós aprendermos com a lição que essas marcas nos trouxe.


Sabe, não tenho vergonha de todas as minhas cicatrizes, pois são elas que me construíram.

Todo o sangue que carreguei durante um tempo até que as cicatrizes surgissem fizeram de mim mais sensível e humana. Afinal, (e é nisso que sempre vou acreditar) são os machucados que nos fazem melhores e mais fortes.