quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O babaca na frente da geladeira.


Você está sentado no carro, esperando uma pessoa, marcaram de se encontrar na frente daquela banca de jornais grande, com uma geladeira bem ao lado do caixa, e é lá que você está, olhando, de dentro do carro, algumas capas de revistas e o movimento intenso de pessoas passando por aquela calçada.

São dez e vinte, vocês somente se encontrarão as dez e cinquenta.

Você continua observando aquela banca, os jovens que param lá para comprar cigarros, aquele sujeito que entrou e comprou aquela revista cretina com nome de produto pra lavar privada, e eis que surge outro alguém neste pequeno cenário em um bairro de classe média alta paulistana: cabelos médios, gordinho, um pouco baixo e com a barba por fazer; ele usa uma camiseta vermelha com o logotipo de uma marca qualquer, uma calça jeans clara e um tênis da mesma marca da camiseta, nas costas, uma mochila preta.

Ele pára na frente da tal geladeira e a encara, você fixa o olhar nele, que olha andar por andar da geladeira, através da porta transparente (você acha que ela deve ser de acrílico).

O sujeito continua em pé olhando para a geladeira, com as mãos nos bolsos da calça, morde os lábios enquanto parece escolher algo para beber; sua expressão frente as diversas latas por trás daquela porta é de dúvida.

Você começa a se cansar daquilo, lembra que tem um livro no porta luvas e decide lê-lo, mas não chega sequer a pegá-lo, pois antes de desviar o olhar daquele rapaz um gesto dele te surpreende e ganha sua atenção mais uma vez: ele tira a mão direita do bolso e estica o braço, apoiando-se na porta da geladeira, dando a impressão que irá abri-la, pegar uma bebida e ir embora, te libertando desta chata observação a que você se obriga.

A mão se afasta novamente da porta e volta para o bolso, ele tira um celular e o atende, fala rapidamente com quem o ligou e continua com os olhos grudados na geladeira.

Após colocar o celular de volta no bolso, ele estica o braço esquerdo, puxa a porta, fica entre a geladeira e a porta – no vão que se formou – indeciso, continua olhando para as latas. Já são dez e meia. Ele se abaixa e pega uma lata, agora é observado também pelo dono da banca.

Segurando uma lata o rapaz fecha a porta e dá um passo visando entrar na banca, mas ele pára e começa a fitar a lata, lê alguma coisa nela, você não sabe os componentes daquela bebida ou as informações nutricionais.

Mais uma vez, ele volta à geladeira, só que agora ele é direto e rápido para abri-la; devolve a lata que havia pegado e se apropria de outra, fecha a porta e repete o gesto de ler o escrito da lata. Você não sabe o que ele leu, mas percebe que, após quinze minutos, ele achou a bebida certa. A paga para o rapaz no caixa da banca e anda em sua direção.

Ele chega perto do seu carro e você tenta disfarçar, para que ele não perceba que tem um observador, mas ele sequer te nota. Encostado do lado do seu carro ele abre a lata, bebe o conteúdo dela em poucos segundos, sequer deve ter sentido o gosto daquilo que ele levou longos minutos escolhendo.

O rapaz joga a lata vazia no lixo e olha as horas. Continua ao lado do carro. O telefone dele toca novamente, ele atende e você o ouve dizer “to te esperando na banca”. Você se despede dele mentalmente, e pega o livro que estava no porta luvas, certo de que o ser de camiseta vermelha se esfumaçaria de sua vida.

Um minuto depois, o babaca que estava na frente da geladeira volta para a banca e começa a folhear uma revista. O celular dele toca pela terceira vez, ele acena para um carro que parou ao seu lado, em fila dupla; ele vai até o carro, entra e dá um beijo na boca da bela morena que o dirigia. Você ainda ouve a moça dizer:

-Nossa, que gosto bom na sua boca. Que que você bebeu?

(Escrito em Outubro de 2007, em São Paulo/SP).


Um comentário:

Fernanda Silva disse...

que ótimo...adorei seu estilo de texto, você é um cronista!olá, muito prazer em lê-lo. Fernanda