domingo, 14 de outubro de 2012

Fure meus olhos.

Estou brincando com uma tesoura de ponta afiada, ela serve para cortar linhas e tecidos, mas há pouco a usei para cortar papéis. Ela cumpriu bem o papel de cortar papel, agora cumpre bem o papel de distrair minha mão esquerda enquanto deixo a direita descansar sobre a mesa, esperando por respostas tuas neste mundo virtual.
Percebo que além de fibras entrelaçadas da celulose, existe por aqui certo desejo de utilizar o mecanismo simples desta junção de duas lâminas pontiagudas para recortar o calendário. Sim, esse desejo de recortar alguns quadradinhos - segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo - para que 'chegue logo o dia de chegar' está se fazendo presente.
Assim como também se faz presente o desejo de saber recortar e organizar muito bem estas palavras e linhas e composição textual toda. Pois, supõem-se prerrogativa da literatura, a leitura. Vai que você me é uma leitora, e o texto encanta, e as palavras cinzas sobre o fundo preto se tornam um beijo vermelho estampado em minha bochecha direita?
É melhor escrever melhor.
Abri e fechei a tesoura devagar, observando o movimento lento dela, observando o reflexo da luz do teto do quarto na parte mais côncava das lâminas. Confesso que me lembrei das tuas pernas, cara possível leitora.
Você me respondeu, e eu te respondi, e vice e versa, pouco a pouco construímos um diálogo, bem centrado em assunto único através destas virtualidades.
"É melhor você parar de escrever essas coisas", ela disse, confirmando ser uma leitora.
Olhei para a tesoura, pensei: "a única forma de eu parar de escrever essas coisas, é furando os meus olhos".

Continuei olhando para a tesoura.
Continuei brincando com a tesoura.
Continuei escrevendo essas coisas.


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