quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Aquele segredo.

Num dia torto, desses dias desequilibrados, nós começamos a beber cedo. Posso estar equivocado, mas era uma segunda, o que torna a bebedeira imoral sob alguns pontos de vista. Os copos bem recheados - nunca vazios e nada tortos - por vezes se tornaram cruéis vilões, pois ganhavam a atenção dos teus lábios, e faziam você parar de sorrir por alguns instantes. Entre um sorriso e outro, você dava um gole e outro; e certamente bateu o dente frontal (aquele que é um pouquinho desalinhado aos demais) na borda do copo, por uma ou duas vezes.
Eu precisava sair (levar algo à alguém). Meu plano não era ir embora, e com você pedindo, primeiro, para eu ficar e, segundo, para eu voltar, não havia outro rumo a ser tomado, se não ir, entregar algo à alguém, e retornar. 
"Vem comigo", eu disse, você relutou. "Vem comigo, e no caminho eu te conto aquele segredo que fiquei de contar", você balançou - já fazia tempo que bebíamos, manter-nos retos era algo difícil - e então você topou, mas dizendo que iríamos e voltaríamos. Claro, que mais posso querer se não voltar com você?, foi o que eu devo ter pensado, alisando seus cabelos ou suas bochechas, embora eu tenha dito apenas: "é".
Os copos foram recheados pouco antes de cruzarmos o portão, foram conosco, mas rapidamente ficaram vazios. Distantes das fontes que os enchiam, se tornaram objetos para distração, sendo um deles mordiscado por mim entre uma palavra e outra, afinal, eu estava te contando aquele segredo. Quando eu começo a falar costumo criar pausas apenas para morder copos, os cantos dos meus dedos ou lábios que sentenciam "cale-se", me calando objetivamente.
Apesar da sombra das muitas árvores em grande parte do trecho do caminho, feito zonzamente a pé, recordo-me da sua expressão atenta ouvindo cada detalhe do que eu dizia. Quer dizer, parecia que você estava atenta, ao menos curiosa, com a orelha direita próxima da minha boca que falava sem parar, levando a sério o que eu anunciei que seria dito como um segredo. 
Porém, assim como no dia em que eu levei flores, devo reconhecer, não era nada de mais, talvez nem pudesse ser considerado segredo: estava apenas contando uma forma minha de encarar  alguns aspectos da vida, algo que não costumo dizer para todo mundo por ai. Dizia como guardo rancores de coisas imbecis, e como isso norteia algumas ações e dedicações minhas.
Talvez pudesse ser considerado segredo, pois eu nomeava coisas (e pessoas) imbecis, e relatava ações rancorosas construídas por mim para lidar com estas de modo semi-vingativo.
De certa forma, é um segredo.
Avistamos o local em que eu deveria entregar algo à alguém, já havíamos deixado os copos plásticos nalgum lixo pelo caminho, e, se minhas lembranças não estão tortas, uma mão se distraía com os ombros, cabelos e nuca um do outro.
"Tudo bem, eu também não gosto de chegar nos lugares abraçado", eu te respondi.
Repetimos o trajeto a pé, ao contrário: voltamos. Mas o assunto da volta, eu não me recordo; certamente falávamos com amor sobre alguma das coisas e pessoas imbecis listadas na ida.


***
Flick your cigarette, then kiss me.



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