sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Acerto de contas.

Breve relato de José Gomes Neto - V:
 
 
"Quando saí de casa, eu não precisava ter saído, até seria melhor ter ficado. Ela disse para nos encontrarmos em uma padaria no centro da cidade, para tomarmos um café, numa tarde de domingo. Não entendi, mas fui. Cheguei um pouco atrasado e ela já estava sentada em um dos bancos em frente ao balcão, sobre ele, um caderninho e uma caneta. Me aproximei, trocamos um beijo no rosto (meio torto e meio tortos), e me sentei; pedi um café preto "igual o dela". Ela abriu o caderninho, com as folhas já amareladas, e mostrou anotações - números e contas - antigas, algumas quase invisíveis, como se a tinta da caneta tivesse sido sugada pelo papel. Pouco a pouco foi me sugando pelo seu discurso, palavra a palavra, risco a risco no caderninho. Ela arrancou algumas folhas, com a ponta do dedo molhada de café, fez manchas amarronzadas sobre o texto, antes de amassá-las e jogar no lixo. Pagamos os cafés, cada um os seus, saímos e nos sentamos na beira da calçada. Acertamos nossas contas: "você também sente como se tivéssemos nos atrasado pra pagar isso tudo?". Sorri, andamos, demos tchau; ela jogou o caderninho no lixo do metrô, tenho certeza".
 
José Gomes Neto,
13 de Julho de 2003,
Jovem e rancoroso.
 


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