domingo, 28 de outubro de 2012

Os meus projetos.

Dentre as bandas de hard core paulistanas que eu gostei e acompanhei em São Paulo no período de 2004 a 2006, uma delas era o Fullheart. Na música "Inferno e Distância", sempre se destacou para mim o seguinte trecho cantado: "os meus valores viram motivo de piada". No fim da manhã deste domingo penso, me valendo da estrutura deste trecho, que "os meus projetos viram motivo de piada". Talvez, de fato, sejam assim facilmente transformados em motivo de piada pois eu não sou sério, e quando dedico o supra sumo do meu coeficiente de seriedade, ainda assim me parece que quem está ao redor os encara mais com 'rs' do que com 'ok'.
E face considerável do problema está justamente nisso: em quem está ao redor.
Muitos projetos não podem ser "meus", eles tem de ser "nossos", pois para que perambulem entre o 'mundo das ideias' e o 'mundo das ações' (sendo, então, projetos colocados em prática) um corpo, uma cabeça, um coração não bastam, é necessário mais. É necessário um você que faz aquilo, é necessário ela que sabe aquilo, é necessário ele que articula aquele outro negócio etc.
A maioria dos projetos em que me vejo envolvido hoje em dia tem essa característica: dependem de outros para dirigir o carro, de outros para fazerem determinados contatos, de outros para tocarem determinados instrumentos etc. Coloquei sim, alguns projetos que se pareciam coletivos na frente de outros individuais. E no limiar da construção de confiança nestas ações coletivas, coloquei no quartinho dos fundos alguns projetos que devem caminhar de forma mais individualizada - no clássico embate "coletividade x individualidade", em alguns aspectos dei a chance de triunfo ao primeiro, noutros ao segundo. Observando já de longe (os meses voam, não é mesmo?) pondero sobre a possibilidade de ter respondido corretamente as questões, mas colocando a resposta de uma, no campo dedicado à resolução da outra, e vice versa, o que - na matemática escolar - configura duas respostas erradas.
Não estou arrependido (como é praxe se dizer nessas situações), mas individualmente vou lavar a louça coletiva do final de semana entre resmungos, músicas tristes e possivelmente lagriminhas; que desta esponja saia alguma definição, aliás, alguma "define ação", do jeito que tá/estou não pode seguir.
(Não sei, era pra ser um desabafo, mas, na verdade, acho que o negócio é voltar os ouvidos pro hard core, e torcer para que os projetos sejam menos piadas, e mais concretizações de relativo/relevante sucesso. E que os "projetos coletivos em que me envolvo" sejam menos "os projetos individuais que coletivizamos e me envolvo").
 
Ps: em suma, em termos de projetos que naufragam, em termos de piadas ruins, em termos de investimentos equivocados, em termos de passos sem rumos em finais de noites, enfim, em termo disso tudo, pouco a pouco vou chegando à uma conclusão precisa acerca desta vida: 2012 está sendo um ano que não deveria ter existido.
 
Essa foto ilustra muito do tudo que eu disse acima.
 
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Acerto de contas.

Breve relato de José Gomes Neto - V:
 
 
"Quando saí de casa, eu não precisava ter saído, até seria melhor ter ficado. Ela disse para nos encontrarmos em uma padaria no centro da cidade, para tomarmos um café, numa tarde de domingo. Não entendi, mas fui. Cheguei um pouco atrasado e ela já estava sentada em um dos bancos em frente ao balcão, sobre ele, um caderninho e uma caneta. Me aproximei, trocamos um beijo no rosto (meio torto e meio tortos), e me sentei; pedi um café preto "igual o dela". Ela abriu o caderninho, com as folhas já amareladas, e mostrou anotações - números e contas - antigas, algumas quase invisíveis, como se a tinta da caneta tivesse sido sugada pelo papel. Pouco a pouco foi me sugando pelo seu discurso, palavra a palavra, risco a risco no caderninho. Ela arrancou algumas folhas, com a ponta do dedo molhada de café, fez manchas amarronzadas sobre o texto, antes de amassá-las e jogar no lixo. Pagamos os cafés, cada um os seus, saímos e nos sentamos na beira da calçada. Acertamos nossas contas: "você também sente como se tivéssemos nos atrasado pra pagar isso tudo?". Sorri, andamos, demos tchau; ela jogou o caderninho no lixo do metrô, tenho certeza".
 
José Gomes Neto,
13 de Julho de 2003,
Jovem e rancoroso.
 


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Sentados à mesa.

Parte II - "Dois":
 
Aquele preciso instante, sentados à mesa, em que um dos dois começa a se referir às coisas (vividas antes de se sentarem à mesa naquela data) como um texto alinear, espécie de "massa pré-ponto final". Talvez seja o começo do talhar de um ponto final sobre o plástico duro da mesa de bar.
Inicia-se o desfile gélido de termos no pretérito imperfeito, aquele tempo verbal em que não há espaço para o futuro, e cujo presente pode ser rapidamente suprimido no suspiro tranquilo de dois "tchaus" amenos. Pode, não deve: estão sentados à mesa, e a possibilidade do diálogo entre os dois (que são dois) é realmente concreta, e se faz.
O outro lado pede permissão para, coçando a mesa como cutuca o cérebro, assumir que ficou com medo diante de tanto pretérito, e de tanta imperfeição, assim, de repente - e sinaliza que ter medo nem sempre é ruim.
 
Parte I - "Um e Um":
 
Aquele preciso instante em que não se sabe ao certo onde se está, mas se percebe estar em um lugar bom: sentados à mesa, frente a frente, mediados por copos. Se percebe que o lugar é bom, pois o silêncio frequentemente é rompido por palavras e sorrisos, ora de um, ora de um: "sorriso é bom".
Não são dois à mesa, neste momento, é um e um, sentados à mesma mesa, talvez por curiosidade, por desejo, por improbabilidade ou mesmo por curiosidade acerca de um desejo improvável; as coisas nunca são tão estáticas assim.
É aquele precioso instante em que não se pensa se haverá outras mesas, outros copos, outros desejos, outras casas etc. Não se observa a possibilidade da criação de uma massa textual/conceitual repleta de sabores, até por que, "além de improvável", nenhum, nem um, tem isso em mente.
São apenas um, que saiu de sua casa, e um, que saiu também de sua casa, para se encontrarem e conversarem sentados à mesa, sem pretensões sobre o tempo de duração da conversa.
 
Parte III - "A mesa":
Que se conste, apenas pelo esforço de adicionar alguma ironia no enxerto: a mesa de "II" e de "I" é, geograficamente, a mesma.
 
 
 
 
 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Essa tal seriedade.

Tenho um sério problema na vida com o termo "sério" e suas variações: eles me perseguem. 
Foi em meados do fim de Agosto de 2005 que isso começou. Nesta época era um jovem rapaz no auge de seus dezesseis anos, que se vestia com bermudões pretos longos, tênis madrats, camisetas de bandas de hard core e grunge (algumas ainda uso até hoje) e, religiosamente, um boné daqueles com redinha atrás. Era o período em que andar nas ruas significava colar adesivos (nunca gostei do termo sticker) em postes, placas, semáforos etc.
Em Agosto daquele ano o eu sujeito descrito acima estava vivendo um namoro com uma bela jovem, que ia para a escola com camiseta vermelha estampada com o rosto do Che Guevara. Eramos um casal simpático, gostávamos das aulas de história, geografia e literatura, e conversávamos sobre algo que entendíamos como "arte crítica" e política. 
Certa vez, já à época do término do namoro, não sabíamos muito bem como lidar com isso (aliás, não sabíamos bem como lidar com nada daquilo que sentíamos e vivíamos) após uma briga, a garota fora questionada por uma pessoa relevante em sua vida: "como você pode levar a sério alguém que se auto intitula Coiso?".
Os anos foram passando (já se foram sete) e volta e meia alguém questiona o meu coeficiente de seriedade. São amigos, parentes, pessoas com quem desenvolvo trabalhos, pessoas que assumidamente me repudiam etc, que apontam uma capacidade minha para não ser sério ou questionam (negativamente) posturas de não seriedade.
Reconheço que não sou cotidianamente sério, que não transpareço seriedade; aliás, assumo que só me concentro em ser sério quando entendo se fazer extremamente necessário, no restante do tempo piadas, sorrisos e ironias me soam mais coerentes com a chatice da vida do que respostas objetivas e cruas.
Então, pessoa próxima da garota com camiseta do Che Guevara (e todos vocês que sempre questionam a minha seriedade), lhes pergunto: se essa seriedade que vocês veem como ausente em mim é tão bacana, por que até quando estou ranzinza estou mais bem humorado que vocês?

***

A imagem abaixo é um desenho feito por mim em 2008, para ilustrar e intitular um grupo de músicas compostas por mim entre 2007 e 2008. Na época, eu achava que a faculdade (e tudo o mais) me conduziriam a ser plena e integralmente sério. Há dois meses de encerrar a graduação fui novamente questionado sobre "ser sério"; e, consequente a isso, o texto acima indica que eu estava equivocado neste 'achismo'.
A quem possa interessar, as citadas músicas estão neste link.



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Eu gosto é de viajar.

E
Se
Desse
Certo
Seria
Bacana
Que
A
Centralidade
Da
Minha
Vida
Envolvesse
Perambular
De
Cidade
Em
Cidade
De
Lugar
Em 
Lugar
E
De
Etc
Em
Etc.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Aquele segredo.

Num dia torto, desses dias desequilibrados, nós começamos a beber cedo. Posso estar equivocado, mas era uma segunda, o que torna a bebedeira imoral sob alguns pontos de vista. Os copos bem recheados - nunca vazios e nada tortos - por vezes se tornaram cruéis vilões, pois ganhavam a atenção dos teus lábios, e faziam você parar de sorrir por alguns instantes. Entre um sorriso e outro, você dava um gole e outro; e certamente bateu o dente frontal (aquele que é um pouquinho desalinhado aos demais) na borda do copo, por uma ou duas vezes.
Eu precisava sair (levar algo à alguém). Meu plano não era ir embora, e com você pedindo, primeiro, para eu ficar e, segundo, para eu voltar, não havia outro rumo a ser tomado, se não ir, entregar algo à alguém, e retornar. 
"Vem comigo", eu disse, você relutou. "Vem comigo, e no caminho eu te conto aquele segredo que fiquei de contar", você balançou - já fazia tempo que bebíamos, manter-nos retos era algo difícil - e então você topou, mas dizendo que iríamos e voltaríamos. Claro, que mais posso querer se não voltar com você?, foi o que eu devo ter pensado, alisando seus cabelos ou suas bochechas, embora eu tenha dito apenas: "é".
Os copos foram recheados pouco antes de cruzarmos o portão, foram conosco, mas rapidamente ficaram vazios. Distantes das fontes que os enchiam, se tornaram objetos para distração, sendo um deles mordiscado por mim entre uma palavra e outra, afinal, eu estava te contando aquele segredo. Quando eu começo a falar costumo criar pausas apenas para morder copos, os cantos dos meus dedos ou lábios que sentenciam "cale-se", me calando objetivamente.
Apesar da sombra das muitas árvores em grande parte do trecho do caminho, feito zonzamente a pé, recordo-me da sua expressão atenta ouvindo cada detalhe do que eu dizia. Quer dizer, parecia que você estava atenta, ao menos curiosa, com a orelha direita próxima da minha boca que falava sem parar, levando a sério o que eu anunciei que seria dito como um segredo. 
Porém, assim como no dia em que eu levei flores, devo reconhecer, não era nada de mais, talvez nem pudesse ser considerado segredo: estava apenas contando uma forma minha de encarar  alguns aspectos da vida, algo que não costumo dizer para todo mundo por ai. Dizia como guardo rancores de coisas imbecis, e como isso norteia algumas ações e dedicações minhas.
Talvez pudesse ser considerado segredo, pois eu nomeava coisas (e pessoas) imbecis, e relatava ações rancorosas construídas por mim para lidar com estas de modo semi-vingativo.
De certa forma, é um segredo.
Avistamos o local em que eu deveria entregar algo à alguém, já havíamos deixado os copos plásticos nalgum lixo pelo caminho, e, se minhas lembranças não estão tortas, uma mão se distraía com os ombros, cabelos e nuca um do outro.
"Tudo bem, eu também não gosto de chegar nos lugares abraçado", eu te respondi.
Repetimos o trajeto a pé, ao contrário: voltamos. Mas o assunto da volta, eu não me recordo; certamente falávamos com amor sobre alguma das coisas e pessoas imbecis listadas na ida.


***
Flick your cigarette, then kiss me.



domingo, 14 de outubro de 2012

Fure meus olhos.

Estou brincando com uma tesoura de ponta afiada, ela serve para cortar linhas e tecidos, mas há pouco a usei para cortar papéis. Ela cumpriu bem o papel de cortar papel, agora cumpre bem o papel de distrair minha mão esquerda enquanto deixo a direita descansar sobre a mesa, esperando por respostas tuas neste mundo virtual.
Percebo que além de fibras entrelaçadas da celulose, existe por aqui certo desejo de utilizar o mecanismo simples desta junção de duas lâminas pontiagudas para recortar o calendário. Sim, esse desejo de recortar alguns quadradinhos - segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo - para que 'chegue logo o dia de chegar' está se fazendo presente.
Assim como também se faz presente o desejo de saber recortar e organizar muito bem estas palavras e linhas e composição textual toda. Pois, supõem-se prerrogativa da literatura, a leitura. Vai que você me é uma leitora, e o texto encanta, e as palavras cinzas sobre o fundo preto se tornam um beijo vermelho estampado em minha bochecha direita?
É melhor escrever melhor.
Abri e fechei a tesoura devagar, observando o movimento lento dela, observando o reflexo da luz do teto do quarto na parte mais côncava das lâminas. Confesso que me lembrei das tuas pernas, cara possível leitora.
Você me respondeu, e eu te respondi, e vice e versa, pouco a pouco construímos um diálogo, bem centrado em assunto único através destas virtualidades.
"É melhor você parar de escrever essas coisas", ela disse, confirmando ser uma leitora.
Olhei para a tesoura, pensei: "a única forma de eu parar de escrever essas coisas, é furando os meus olhos".

Continuei olhando para a tesoura.
Continuei brincando com a tesoura.
Continuei escrevendo essas coisas.


sábado, 13 de outubro de 2012

Existe atraso?

[articula diretamente com: Tic Tac].

Breve Relato de José Gomes Neto - IV:

"Odeio ter que sair correndo assim, com passos desestruturados e moles, acordados de susto. Talvez acordados de súbito. Ela não tem relógio de parede, como eu, e seu computador estava desligado, restavam os celulares para ver as horas, e as cabeças inchadas da noite anterior para esquecerem das horas. Acordar e correr nunca é pra mim; odeio ter que sair correndo assim.
"Você está atrasado", ela disse. Vesti sapatos, arrumei o colarinho, os punhos, fechei botões e reergui o corpo: "não existe atraso quando tem alguém sorrindo desse jeito pra gente", foi tudo o que eu consegui dizer antes de sair correndo, e como odeio sair correndo assim".

José Gomes Neto,
03 de Novembro de 2010,
Recém empregado.


terça-feira, 9 de outubro de 2012

O dia em que eu levei flores.

Hoje, enquanto lavava a louça, decidi contar uma história da minha vida sem fazer rodeios ou exagerar nas metáforas. 

Eu já não era tão jovem assim, estava nesta vida de fazer e falar bobeiras e me arrepender e não saber parar já fazia alguns anos; claro, sou jovem ainda, e espero ter muitos anos e pessoas para falar menos bobeiras e mais coisas certeiras. 
Devo até salientar, o volume das besteiras diminuiu consideravelmente, vez ou outra este poder (que me parece inalienável) vem e causa devastação tal qual vulcão que se fazia inativo.
Na história que quero contar a vocês, com um pouco de rodeios e metáforas - eu não sei pensar  e falar sem estes - me aproximei de um ser humano com o intuito de lhe dizer bolos recheados, lasanhas suculentas, churrascos volumosos e frangos à parmegiana. Mas acabei por lhe falar o total oposto: leites com natas, repolhos refogados, proteínas de soja na manteiga e sucos de limão com couve.
No momento e em local pré "não foi isso que eu quis dizer", sem notar comecei a brincar com algumas flores que havia por ali. Sempre que brinco com flores me recordo da Morticia Addams podando/decepando rosas, e confesso que pensei: "será que a troca de parmegianas por repolhos foi o decepar irreversível de algumas rosas?".
Juntei as flores, e segui o caminho levando-as firmes numa das mãos. O intuito não era dá-las ou utilizá-las como presente ou coisa do gênero ao ser humano, eu apenas conduzi as flores de um ponto A para um ponto B; eu apenas levei flores.
Quando cheguei não disse: "veja, eu trouxe flores", ou "vim lhe trazer este humilde presente" (como sempre diz o Professor Girafales) ou mesmo "flores. veja: flores". Não disse nada, entrei com elas em punho, as deixei nalgum canto, e pétala/ponto final.

Afinal, foi apenas o dia em que eu levei flores.



domingo, 7 de outubro de 2012

Um elevador no peito.

1)
Já não havia luz quase alguma, o sol completamente posto e os olhares brevemente apagados:
"Paciência", se pensou.

2)
Um dedo em riste e solitário subia e descia, por vezes se enroscando no tecido rugoso da camisa:
"Este elevador que você está fazendo no meu peito está gostoso", se disse.

3)
A luz já era totalmente ausente, nos olhos até alguma fonte de claridade que o valha, o dedo continuava a se enroscar nas rugosidades do tecido, de cima para baixo: 
"Você está fazendo um elevador no meu peito", se metaforizou.




sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um Idiota.

Durante um longo tempo na vida eu apenas frequentava os rolês: saia de casa, pagava o ingresso (pois nunca fui de manguear, sempre tive prazer em pagar quando achava justo, se não achava justo, eu nem ia), curtia e voltava pra casa - com possibilidades de escala noutra morada, claro. Neste período, eu nunca tive noção exata do "trabalho que dá" montar um rolê.
No ano passado, entrei para o então Coletivo Caipira Bruto, que se tornaria em Agosto de 2011 o Coletivo Desdobra, um coletivo ligado ao Circuito Fora do Eixo. No Desdobra desenvolvemos rolês  no Cão Pererê - único espaço na cidade de Marília que se abre para Noites de música apenas com bandas autorais e independentes - e já realizamos algumas ações em outros pontos da cidade, como o Espaço Cultural e a República Branca de Neve.
Locais que são bem diferentes em suas estruturas, e nos quais desenvolvemos tipos distintos de rolês. Porém, locais que se tornam semelhantes em um aspecto quando nos dedicamos a fazer algum evento: estar neles e montar um rolê envolve muito trabalho, e por envolver trabalho, envolve muita gente.

Coloque duas bandas, e estará envolvendo em torno de 8, 9, 10 músicos: uma banda pode ter 7 integrantes, como o Osso e Dente, e outra apenas dois, como o meu glorioso Zababô Zebrinha.
Coloque um bar para vender bebidas, uma pessoa responsável por cuidar do som e do palco, e você terá mais 3, 4, 5 pessoas em dedicação durante o rolê.
É necessário 2 ou 3 na portaria para recolher ingressos ou cobrar o dinheiro pela entrada ou colocar pulseirinhas nas pessoas etc. 
Os shows das bandas não devem passar em branco, então, indiquemos 2 pessoas munidas de máquinas fotográficas e filmadoras.
Pensemos que alguém teve de limpar a casa antes, e alguém - pode ser o mesmo, ou outro alguém -  terá de limpar a casa depois.
E, claro, consideremos que para que haja público no evento, é necessária uma boa equipe de divulgação, o que envolverá mais, no mínimo, 10 pessoas.
Fazendo uma soma simples, notamos que para um rolê acontecer, são necessárias, no mínimo, 20 pessoas envolvidas.

Agora, algo que aprendi com o tempo (e reiterei na noite da última quinta feira): vocês sabem quantos são necessários para estragar um rolê? 
Não?
Basta reler o título do texto para obter a resposta.

***

Ademais, gostaria de deixar um abraço carinhoso aos responsáveis pelo Cão Pererê: todo o trabalho e cansaço jamais serão em vão.


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O babaca na frente da geladeira.


Você está sentado no carro, esperando uma pessoa, marcaram de se encontrar na frente daquela banca de jornais grande, com uma geladeira bem ao lado do caixa, e é lá que você está, olhando, de dentro do carro, algumas capas de revistas e o movimento intenso de pessoas passando por aquela calçada.

São dez e vinte, vocês somente se encontrarão as dez e cinquenta.

Você continua observando aquela banca, os jovens que param lá para comprar cigarros, aquele sujeito que entrou e comprou aquela revista cretina com nome de produto pra lavar privada, e eis que surge outro alguém neste pequeno cenário em um bairro de classe média alta paulistana: cabelos médios, gordinho, um pouco baixo e com a barba por fazer; ele usa uma camiseta vermelha com o logotipo de uma marca qualquer, uma calça jeans clara e um tênis da mesma marca da camiseta, nas costas, uma mochila preta.

Ele pára na frente da tal geladeira e a encara, você fixa o olhar nele, que olha andar por andar da geladeira, através da porta transparente (você acha que ela deve ser de acrílico).

O sujeito continua em pé olhando para a geladeira, com as mãos nos bolsos da calça, morde os lábios enquanto parece escolher algo para beber; sua expressão frente as diversas latas por trás daquela porta é de dúvida.

Você começa a se cansar daquilo, lembra que tem um livro no porta luvas e decide lê-lo, mas não chega sequer a pegá-lo, pois antes de desviar o olhar daquele rapaz um gesto dele te surpreende e ganha sua atenção mais uma vez: ele tira a mão direita do bolso e estica o braço, apoiando-se na porta da geladeira, dando a impressão que irá abri-la, pegar uma bebida e ir embora, te libertando desta chata observação a que você se obriga.

A mão se afasta novamente da porta e volta para o bolso, ele tira um celular e o atende, fala rapidamente com quem o ligou e continua com os olhos grudados na geladeira.

Após colocar o celular de volta no bolso, ele estica o braço esquerdo, puxa a porta, fica entre a geladeira e a porta – no vão que se formou – indeciso, continua olhando para as latas. Já são dez e meia. Ele se abaixa e pega uma lata, agora é observado também pelo dono da banca.

Segurando uma lata o rapaz fecha a porta e dá um passo visando entrar na banca, mas ele pára e começa a fitar a lata, lê alguma coisa nela, você não sabe os componentes daquela bebida ou as informações nutricionais.

Mais uma vez, ele volta à geladeira, só que agora ele é direto e rápido para abri-la; devolve a lata que havia pegado e se apropria de outra, fecha a porta e repete o gesto de ler o escrito da lata. Você não sabe o que ele leu, mas percebe que, após quinze minutos, ele achou a bebida certa. A paga para o rapaz no caixa da banca e anda em sua direção.

Ele chega perto do seu carro e você tenta disfarçar, para que ele não perceba que tem um observador, mas ele sequer te nota. Encostado do lado do seu carro ele abre a lata, bebe o conteúdo dela em poucos segundos, sequer deve ter sentido o gosto daquilo que ele levou longos minutos escolhendo.

O rapaz joga a lata vazia no lixo e olha as horas. Continua ao lado do carro. O telefone dele toca novamente, ele atende e você o ouve dizer “to te esperando na banca”. Você se despede dele mentalmente, e pega o livro que estava no porta luvas, certo de que o ser de camiseta vermelha se esfumaçaria de sua vida.

Um minuto depois, o babaca que estava na frente da geladeira volta para a banca e começa a folhear uma revista. O celular dele toca pela terceira vez, ele acena para um carro que parou ao seu lado, em fila dupla; ele vai até o carro, entra e dá um beijo na boca da bela morena que o dirigia. Você ainda ouve a moça dizer:

-Nossa, que gosto bom na sua boca. Que que você bebeu?

(Escrito em Outubro de 2007, em São Paulo/SP).


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Constatação.


Tem uma música que joga comigo: entra pelos ouvidos e passeia por todo o meu corpo. Tal qual atleta que veste a camisa, entra em campo e joga o jogo da vida, a música já está vestida - apenas dou o "play" - e ela entra e já vai correndo, rompe meu meio de campo, passa pela pequena área e cava um pênalti.
A música joga tanto comigo, que me joga de volta pro limbo de um passado úmido, pegajoso, escorregadio e repleto de boas memórias - como diz algum poeta: "somos feitos do que fomos" ou "do que vivemos", tanto faz, ambos me soam legítimos agora.
A música me derruba.

Observo o calendário gigante do mês passado, e penso: "justo, vou deixar que ela jogue comigo e me jogue, vou me deixar ser derrubado e cessar tudo que se faz atual e correr em busca de setembro, agosto, julho, junho, maio, abril, março, fevereiro, janeiro? Ou vou montar um calendário de Outubro diferente destes demais? [Em vez de quadradinhos para marcar os dias, bolinhas; será que isso faz um mês diferente?] Vou encarar que há um novembro, um dezembro e outro janeiro, outro fevereiro, e outro reticências".

A música é linda (acho que das novidades que ouvi este ano, talvez seja a mais bela) mas, para o bem de minha saúde, e dos meus projetos, e do meu futuro e de tudo o que tem de ser negociado, pensado, criado e entregue, serei obrigado à riscá-la de minhas playlists contemporâneas. 
Pois, calendários à parte, eu só quero andar pra frente. 

***

PS: a quem possa ser relevante saber, até quinta feira estarei off line. Vocês sabem por qual razão.