sábado, 22 de setembro de 2012

Pé-de-Moça.

Breve relato de José Gomes Neto - II:


"Estava na padaria esperando que o pão ficasse pronto, segundo promessa da atendente, seriam apenas dois minutos. Eu ocupava um dos lugares na fila que se formava entre vizinhos, conhecidos e desconhecidos do bairro. Para passar o tempo, cutucava o vidro da estufa de doces, sequer havia reparado o que havia na parte de dentro do vidro; eu apenas o cutucava. O senhor que estava a minha frente na fila se virou, com olhar sério encarou-me nos olhos - não cessei o movimento com o dedo indicador sobre o vidro - ele olhou para minha mão, para meu rosto, tornou a observar a mão e quando se virou ao meu rosto novamente sorriu, e disse sem parar de sorrir: "o pé-de-moça ainda dói no peito do moço?".

Encerrei a movimentação das cutucadas, e não respondi nada, apenas retribui o sorriso. Não entendi.
Os pães chegaram, a atendendo disse um estrondoso "pronto, chegou o pão Seu Pedro". O Seu Pedro parou de me encarar, retribuiu a fala da atendente com um irônico "já achei que você não traria mais pão hoje".
Fixei os olhos na parte de dentro da estufa, e me certifiquei: eu estava cutucando uma estufa repleta de pés-de-moça".


José Gomes Neto,
14 de Abril de 2010,
Solteiro.


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