terça-feira, 4 de setembro de 2012

Carta de um homem a si mesmo.


Intencional e racionalmente, parei para ver algumas fotos nossas. Fazia algum tempo que não fazia isso; aliás, fazia algum tempo que fugia disso, mas, naquela oportunidade, foi inevitável.
Não há ódio, não há rancor, nada deste gênero. Chateações pululam aos milhões – ou pulularam – enfim. Importa dizer que parei para ver as nossas fotos, e talvez tenha sido um erro. Talvez não; como tudo nessa brincadeira toda em que passamos, sempre coloco um “talvez” antes.
Meu peito doeu (você sabe que eu sempre tive essa mania de não negar as dores no peito), mas como se tratava de uma realização “intencional e racionalmente” – conforme discriminei no início desta carta – detive-me em parar e pensar um pouco. Se estas linhas fossem direcionadas a um filosofo, ele com certeza estaria rindo agora.
Vi as fotos e doeu, em grande medida, chegou a subir à boca aquele gosto sem doce com amargo esquisito suavemente sem sal, mas com tudo isso ao mesmo tempo (“saudades”, “nostalgia”, “amargura”, gritam as crianças que saltitam dentro da minha cabeça).
Cutuco uma das crianças e digo: “tudo bem, pode ser saudade, fale mais sobre isso”. E começamos um diálogo, que não convém ser citado estritamente por aqui.
 A criança me orienta a voltar a ver as fotos, e o faço. Noutro dia, tão ou mais racionalmente do que antes; sem sombra de dúvidas, muito mais intencionalmente do que antes. Não estava apenas vendo fotos, estava as sentindo e pensando.
Coloco a mão sobre o peito (por fora, não por dentro), sinto que ainda bate. “Tudo bem, de fato, são saudades”.
“Mas eu lembro de mim, não no instante em que o obturador fez ‘cleck’ e registrou essa cena. Eu lembro de mim nesta época, nas semanas e meses que estão ao redor destas fotos todas. E, puxa, como eu tinha saudades...”.
Fecho as fotos, caminho um pouco, lembro delas, lembro de mim, lembro dela, lembro de tudo (note que o ato de caminhar durara bastante, pois me concentrei em lembrar “de tudo”).
Saudades, sempre tive, sempre senti, tanto nas épocas de fotos sorridentes entre calçadas e barracas, quanto nas épocas de fotos e mais fotos de festas e noitadas.
Se naquela época encontrava no conforto do teu abraço, o sentimento pleno de sabores unos, o fazia com uma saudade extrema de grande parte significativa deste ser, que entendo como um “eu”.
Se hoje sinto saudades do teu ser – com quem sempre foi bom ter – é pois estou sem saudades de mim, pleno e tranquilo, batendo os passos pelas ruas sem justificativas pós-madrugadas.

        Concluo esta carta de um homem para si mesmo, com a certeza de tirar risos dos filósofos: viverei embebido nas saudades, se não de mim, em sentido intenso e concentrado, de você ou de alguém, em sentimentos deliberados; será este meu eterno não equilíbrio?


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