quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Doce - III/Pé-de-Moça - II.

"Atacar!", bradou a líder daquele grupo de serezinhas minúsculas ao pé da cama. 
Eram verdadeiramente minúsculas, fazia-se necessário estarem em dez ou vinte para se fazerem minimamente notadas. E - para tornar mais crítico o déficit de atenção - era necessário morder, sambar, pisotear, cutucar e esfolar a cobertura daquele pé-de-moça.
Sendo possível compreender, devido ao alto grau de organização e empenho do grupo para tal "ataque!", a característica de trabalho que havia concentrada ali. Não era apenas um despretensioso: "hey, vamos ali". Não era uma cantiga de "vamos atacar" - "cantigas são para cigarras!", dizia a líder do grupo.
Se tratava de um: "atacar!", bradado em alto e bom som (em altura proporcional ao tamanho daquelas serezinhas minúsculas, claro). E se "atacar!", por um lado, era motivo de vida, por outro poderia ser causa mortis para as serezinhas.
Ao efetuar o "ataque!" ao pé-de-moça, o mesmo poderia ser tocado à exaustão, e cutucado, e coçado, e raspado secamente contra o lençol, causando a mortis de muitas componentes daquele grupo de serezinhas minúsculas ao pé-de-moça ao pé da cama.

***

Duas espertalhonas se separaram do grupo de serezinhas minúsculas, correram para um canto. Alheias às demais serezinhas, indiferentes à gelidez daquele canto e bem acobertadas e acalantadas, não sabiam ao certo o que fazer: se ficar no escuro, se buscar claridade, se ficar em silêncio, se ficar em falação - proporcional ao tamanho de seus corpos, línguas e, sobretudo, interesse despertado mutuamente - ou se permaneciam puramente na troca de acusações:

"você é engraçada"
"você é um doce"
"doce é o pé-de-moça"
"doce é você"
"shiu".


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Pular sem hesitar.



Breve Relato de José Gomes Neto - III:

Não sei se vou. Não é ainda. Calma. Bate no chão, no ar, no chão. Agora! Não, agora não. Será que a hora é agora? Vou falar pra ir outro, vou ver como ele faz. Ele foi, entrou, pulou, pulou, e saiu. Porque com ele pareceu tão simples? Tão fácil? Ele nem contou ‘um, dois, vai’. Vou agora, se eu acertar acho que vai ser bacana, se eu errar vou me enroscar e passar vergonha. Mas eu vou. Agora?”.

José Gomes Neto,
5 de Agosto de 1985,
Pulador de corda.


sábado, 22 de setembro de 2012

Pé-de-Moça.

Breve relato de José Gomes Neto - II:


"Estava na padaria esperando que o pão ficasse pronto, segundo promessa da atendente, seriam apenas dois minutos. Eu ocupava um dos lugares na fila que se formava entre vizinhos, conhecidos e desconhecidos do bairro. Para passar o tempo, cutucava o vidro da estufa de doces, sequer havia reparado o que havia na parte de dentro do vidro; eu apenas o cutucava. O senhor que estava a minha frente na fila se virou, com olhar sério encarou-me nos olhos - não cessei o movimento com o dedo indicador sobre o vidro - ele olhou para minha mão, para meu rosto, tornou a observar a mão e quando se virou ao meu rosto novamente sorriu, e disse sem parar de sorrir: "o pé-de-moça ainda dói no peito do moço?".

Encerrei a movimentação das cutucadas, e não respondi nada, apenas retribui o sorriso. Não entendi.
Os pães chegaram, a atendendo disse um estrondoso "pronto, chegou o pão Seu Pedro". O Seu Pedro parou de me encarar, retribuiu a fala da atendente com um irônico "já achei que você não traria mais pão hoje".
Fixei os olhos na parte de dentro da estufa, e me certifiquei: eu estava cutucando uma estufa repleta de pés-de-moça".


José Gomes Neto,
14 de Abril de 2010,
Solteiro.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Tic-Tac.

Breve relato de José Gomes Neto - I:

"Na minha casa não tem relógio de parede. Também não tenho relógio de pulso, e me informo sobre as horas por meio do relógio do celular. Desde que meu computador parou de funcionar, também não tenho mais o relógio do canto inferior direito da barra de tarefas para observar as horas. Quando criança tive um relógio digital de pulso. Já mais velho ganhei um de ponteiros, também pro pulso, mas não consegui usá-lo por muito tempo: o tic-tac constante me irritava. Tirei a bateria e o guardei numa gaveta; deveria ter vendido enquanto ainda era novo. 
Outro dia ela acabou por dormir em casa, também não usa relógio no pulso, vale-se apenas do visor do telefone celular para ver as horas. Ela dormiu, eu dormi, nós dormimos, e acordamos. Ao despertar, fora da hora correta segundo relógios de pulsos, de paredes, digitais, analógicos e, sobretudo, fora da hora correta segundo os compromissos firmados, ainda não sabíamos que estávamos fora de hora.
Segurando os cabelos, tateando o chão ao redor da cama, ela perguntou: cadê o meu tic-tac?".

José Gomes Neto, 
21 de Julho de 2010,
Desempregado.



quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Pessoas Novas.

A pessoa só é nova quando nasce. Aliás, talvez nem possa ser considerada ainda uma "pessoa" ou mesmo "nova", uma vez que possivelmente ainda não desenvolveu noção destes conceitos, coisas que vamos nos apropriando e entendendo ao longo dessa bobeira. Digo, dessa vida.
Uma "pessoa nova", em sentido subjetivo/individualista/egoísta pode ser uma pessoa que entrou em nossa vida recentemente. Como dizia meu avô, "encurtando a prosa": as pessoas novas são as pessoas que conhecemos no período em que estamos as conhecendo, ou quando as conhecemos.
Cansado, e, como tem sido tônica neste 2012, com os prazos atrasados e atrasando mais ainda, tenho conhecido muitas pessoas novas. E esse é o tipo de coisa que me cria largos sorrisos e ímpetos de "acordar, erguer a cabeça e seguir firme nessa porra", mais do que quando cumpro os prazos ou coisas do gênero.
São bandas que passaram por aqui, são bandas que conheci quando sai, são pessoas que surgiram em um rolê, no outro, e em um terceiro, e vamos conversando. Etc.
Sou apegado, sim, aos "amigos das antigas", mas pessoas novas entrando e fazendo a vida circular em dias e momentos intensos, é essencial também.
Pessoas, apareçam, sejamos novos vocês para mim e eu para vocês.



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Eu não sei fazer isso.

Quando me deitei, pouco após todas as pessoas terem passado pela abertura do portão, e a casa voltar a ser um emaranhado de cômodos vazios, vez ou outra ocupados por mim, o vento forte fazia as latas perambularem pelo quintal frontal da casa. 
O barulho das latas vazias rolando pelo chão parece o som que me informa ter recebido uma mensagem no celular. Eu gosto do toque de celular com barulho de lata vazia rolando pelo chão.
Consegui dormir, uma ou outra mensagens se fizeram necessárias para, de certa forma, poder dormir. Algumas latas bateram dentro do quarto, outras não.
Acordei. Não re-li mensagens (eu nunca releio, e meu celular não guarda as enviadas). Ainda ventava e as latas ainda corriam pela frente da casa. Despertar me soou tão chato, talvez pois o pré-sono (leia-se: aquilo que eu faria acordado na noite) e o sono em si não foram como eu havia me preparado para que fossem.
(No português claro, acordei com a sensação de que "deu tudo errado").

Na verdade, independente de sono, pré-sono, latas e/ou celulares, eu não sei fazer isso. E é isso que eu tenho a dizer por ora.
Quando me ligam ou me encontram e perguntam 'qual seu cargo?', 'o que você faz?', eu não sei o que dizer. Não sei encher a boca com um termo ou descrever atitudes que confluam para um posicionamento concreto.
Pois eu não sei fazer isso: eu não sei ter e ser tais posicionamentos concretos. Sei assumir que errei, sei observar a situação e chamar gente pra somar e atuar junto. Sei ter algumas ideias boas, compartilhá-las, e ver se são cabíveis com a realidade ou se são meros devaneios.
Devaneios do tipo de gente que deita para dormir, reflete no dia que teve e associa, um toque de celular, às latas vazias.





terça-feira, 11 de setembro de 2012

Meias (e) Verdades.

"Vou fazer uma pedreiragem". Não sei por que eu disse isso. É o tipo de comentário medíocre que odeio fazer. É o tipo de termo que odeio ouvir. Mas a verdade é que eu disse, e não sei por quê o fiz.

Atirei as meias longe, pra perto da mochila, e coloquei os pés diretamente nos tênis quentes após  passarem toda uma manhã debaixo de sol em um quintal alheio.
Ainda sem rumo, com medo do sol, medo do vazio no estômago, enfim, medo dos passos que deveria dar, segui andando, pois, como sempre, era o que me restava.
Quando ia chegando naquele ponto preciso de meus trajetos cotidianos - em que devo abaixar a cabeça para seguir na calçada sem chocar a testa com uma árvore - notei que eu observava os meus pés descalços de meias e calçados em tênis. 
Lembrei de outrora, em que realizara tal percurso da mesma forma, sem meias nos pés. Lembrei-me do mesmo trecho do caminho e da abaixada na cabeça.
Lembrei-me que nesta outra oportunidade me questionava sobre o que havia feito, e sentia-me espantado por não estar tão triste quanto eu achava que deveria estar, ou por não estar tão triste quanto as pessoas me fariam crer (e eu sabia que elas o fariam) que eu deveria estar. Estava até me sentindo bem. Aliás, sem meias verdades: me sentia bem, e ao abaixar a cabeça para passar por debaixo da árvore, pensei algo como: "puxa vida, eu não deveria estar me sentindo andando em plumas desse jeito. Deveria estar com vontade de me matar, ou coisa do gênero".
Atravessei a rua com cautela, e segui pensando "o que faria".
Quando sai da lembrança deste fato, e tornei a cabeça ao raciocínio atual, observei que tem me chateado a falta de e para alguns limites. Tem-me faltado a noção clara, pessoal e intransferível da escolha do "chega". Tem me faltado decretar e operacionalizar o "já deu, Gabriel".
Sem meias e sem verdades, assim desse jeito, cheguei em casa com um sorriso no rosto. E isso compensa o chulé no tênis (por conta do suor indo diretamente nele) e o chulé mental (por conta da falta de limites da noite anterior).


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Planos.

Plano A:
"Vou passar o feriado noutra cidade que não está que não aquela ocupando o tempo com a realização de entrevistas com pessoas comuns que podem ser a chave de abertura para a escrita do meu projeto de mestrado para prestá-lo em breve daqui há alguns meses tra-lá-lá". 
O Plano A não deu certo, demorei em, puramente, questionar se "dá pra eu ir?", e percebi que, mesmo se desse pra ser recepcionado, esse trabalho todo - dito palavra a palavra com voz e tom de criança cabisbaixa - não seria possível.

Plano B:
"Vou passar o feriado encafurnado nessa casa (tal qual uma jaula) para obrigar este cérebro e este corpo dispersos a se concentrarem pura-unica-exclusivamente no processo de escrita/leitura/escrita, ambos de forma escabrosa e concentrada".
Na verdade volta e meia eu estipulo isso para os feriados, variam-se quais são as necessidades de concentração, quais são as variedades para a dispersão etc. Fato é que, de certa forma, há sim a necessidade de abundar tal corporalidade na cadeira, defronte ao computador apenas com aquela página de doc.texto aberto e sentar a bota nas palavras, que, juntas, tem de criar uma articulação textual que diga: "esse cara aprendeu algos nos cinco anos de faculdade".

Plano C:
(C de "Concretizado"):
Não vou dizer que cumpri com a ideia de escrever e escrever páginas a fio e a rodo do tanto que tenho por escrever. Sempre podia ter feito mais. Mas, honestamente - honestly, como dizem as mocinhas dos seriados que vocês assistem - foi bom, "rendeu", "foi produtivo". 
Mais ainda, vieram os imponderáveis e surpreendentes coisas da vida, e ai "Coiso, fulano vai chegar cedo em Marília pá pá pá", "Coiso, tem como a banda ficar lá na casa que cês tão usando como sede do Coletivo e pá pá pá". Tem, Dá, Claro que tem, Claro que dá e pá pá pá.
Construiu-se, então, um feriado que fugia dos planos A e B outrora previstos. Não fugiu tanto de B, pois, como disse, até houve um rendimento para a produção acadêmica do momento. E, paralelamente, houve também tempo para o bom andamento das coisas bacanas dessa vida: conhecer gente boa, se encantar com o som dessa galera e ainda tocar no final da noite.

O tipo de feriado pra me dizer: "rapaz, cê vai fazer uma porrada de coisa nessa vida, todas juntas - e com poucas horas dormidas - algumas chatas-xaropes-rastejantes, mas no todo, sempre terá essas segundas feiras, em que as maritacas cantarão em frente de casa e você nem se irritará".
Simplesmente por que 'foi daora'.



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Saia.

Na verdade, eu sou encantado por esse tipo de coisa.
E eu não disfarço; só desvio o olhar.
Não chega a ser disfarce; é só uma desviada.
Normalmente eu não digo nada.
Mas tem um martelo em minha cabeça.
Pregando com força a minha real opinião.
Mas pregando só pra mim, não sou pastor.
Tampouco sou rabino.
Muito menos uma judia ortodoxa.

Às vezes eu digo "fique".
Olho pra baixo, sorrio e então falo
(sem pregação, apenas uma vez):
"bela saia".

"pra que a mancha saia, é só colocar um pouco de farinha de trigo"


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Carta de um homem a si mesmo.


Intencional e racionalmente, parei para ver algumas fotos nossas. Fazia algum tempo que não fazia isso; aliás, fazia algum tempo que fugia disso, mas, naquela oportunidade, foi inevitável.
Não há ódio, não há rancor, nada deste gênero. Chateações pululam aos milhões – ou pulularam – enfim. Importa dizer que parei para ver as nossas fotos, e talvez tenha sido um erro. Talvez não; como tudo nessa brincadeira toda em que passamos, sempre coloco um “talvez” antes.
Meu peito doeu (você sabe que eu sempre tive essa mania de não negar as dores no peito), mas como se tratava de uma realização “intencional e racionalmente” – conforme discriminei no início desta carta – detive-me em parar e pensar um pouco. Se estas linhas fossem direcionadas a um filosofo, ele com certeza estaria rindo agora.
Vi as fotos e doeu, em grande medida, chegou a subir à boca aquele gosto sem doce com amargo esquisito suavemente sem sal, mas com tudo isso ao mesmo tempo (“saudades”, “nostalgia”, “amargura”, gritam as crianças que saltitam dentro da minha cabeça).
Cutuco uma das crianças e digo: “tudo bem, pode ser saudade, fale mais sobre isso”. E começamos um diálogo, que não convém ser citado estritamente por aqui.
 A criança me orienta a voltar a ver as fotos, e o faço. Noutro dia, tão ou mais racionalmente do que antes; sem sombra de dúvidas, muito mais intencionalmente do que antes. Não estava apenas vendo fotos, estava as sentindo e pensando.
Coloco a mão sobre o peito (por fora, não por dentro), sinto que ainda bate. “Tudo bem, de fato, são saudades”.
“Mas eu lembro de mim, não no instante em que o obturador fez ‘cleck’ e registrou essa cena. Eu lembro de mim nesta época, nas semanas e meses que estão ao redor destas fotos todas. E, puxa, como eu tinha saudades...”.
Fecho as fotos, caminho um pouco, lembro delas, lembro de mim, lembro dela, lembro de tudo (note que o ato de caminhar durara bastante, pois me concentrei em lembrar “de tudo”).
Saudades, sempre tive, sempre senti, tanto nas épocas de fotos sorridentes entre calçadas e barracas, quanto nas épocas de fotos e mais fotos de festas e noitadas.
Se naquela época encontrava no conforto do teu abraço, o sentimento pleno de sabores unos, o fazia com uma saudade extrema de grande parte significativa deste ser, que entendo como um “eu”.
Se hoje sinto saudades do teu ser – com quem sempre foi bom ter – é pois estou sem saudades de mim, pleno e tranquilo, batendo os passos pelas ruas sem justificativas pós-madrugadas.

        Concluo esta carta de um homem para si mesmo, com a certeza de tirar risos dos filósofos: viverei embebido nas saudades, se não de mim, em sentido intenso e concentrado, de você ou de alguém, em sentimentos deliberados; será este meu eterno não equilíbrio?


domingo, 2 de setembro de 2012

Duas Marmitas.

Chegamos na cidade desconhecida:
-Ôh Pelego, que fome.
-Também, vamos procurar um restaurante barato.
-Pergunta pro taxista ai Pelego.

Taxista:
-Olha, restaurante barato assim, barato, não tem. Tem aqueles que tão 'no preço'.
-Tá certo, brigado.

Moça do Bauru Cap:
-Dizer um lugar pra vocês comerem que seja barato eu não sei, tem aquele ali.
-Passamos lá, é caro, quinze pra cada um.
-E a comida é horrível, vou dizer pra vocês.
-Mesmo?
-Óh, vocês vão descer aqui pelo lado do sol, ai vira ali na esquerda e segue pelo lado da sombra, segue até a esquina que vocês vão ver um homem vendendo Bauru Cap. É o meu marido, ai ele vai dizer onde ele compra nossas marmitas.
-Tá certo, brigado.

Seguimos o caminho:
-Pelego, não tem ninguém nessa rua vendendo Bauru Cap.
-Vamos voltar lá e avisar pra ela que o marido dela não tá por aqui não.
-Bom, tem aquele restaurante ali com a porta fechada na metade, vamos ver se nos fazem uma marmita.

Restaurante Boa Opção (com a porta semi fechada, diálogo travado pela janela):
-Moço, cês já fecharam?
-Já.
-E não tem nenhum restaurante barato aberto por aqui?
-A essa hora não, tá tudo fechando.
-Não tem como fazer umas marmitas pra nós?
-Quantas são?
-Duas.
(ele chamou o cozinheiro, perguntou algo)
-Dá sim, mas pega ali na porta do fundo que eu vou fechar as janelas também.

Marmitas nas mãos:
-Pelego, cê quer comer aqui na calçada ou vamos sentar ali na praça?
-Tem praça?
-Tem uma igreja ali, deve ter uma praça na frente.
-Mas vamos ter que descer a rua e depois subir? Que minhas coisas tão pesadas eu já tô cansado de andar pra lá e pra cá com isso tudo. Se tiver que subir de volta eu não vou querer descer, a gente senta aqui no canto e come ali mesmo, só ter uma sombra já vai ser uma benção.

Caminhando na bela praça rumo ao banco com sombra:
-Enfiei o nariz dentro do saquinho que o cara botou a marmita pra ver se adivinhava pelo cheiro qual é a proteína que o cara colocou, mas não adivinhei.
-Deve ser bife, ou frango assado.
-Podia ser feijoada.
-Feijoada não é proteína.
-Se for bife tá bom.

Abrimos as marmitas. Nossos olhos brilharam, nossos estômagos vibraram, nossos corações pararam de pulsar por um instante para poderem contemplar aquele primor da humanidade, aquele primor no universo das marmitas da face da terra: arroz, feijão, bife, linguiça calabresa frita e um ovo frito.

Bem alimentados, seguimos rumo ao bar, rumo a perambular e rumo a um grande show e uma grande noite.
A marmita comida na praça em Jau foi o marco definidor do começo de uma grande tarde e noite entre os Pelegos do Zababô Zebrinha.