quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Cara de blusa emprestada.

Fim de noite, e as características próprias dos primeiros ônibus que irrompem as avenidas, dos primeiros cantos de passarinhos, das últimas garrafas que sobraram nas geladeiras do bar. Enfim: fim de noite.
Os ventos frios ainda ou já batiam - não entendo de ventos - e faziam alguns encolherem os braços junto ao corpo todo, ou mesmo esfregarem as mãos nos braços nus, ou qualquer forma de auto contato que fosse uma tentativa de desesfriar o corpo já no começo do dia.
Eu estava confortável em minha mediocridade: camiseta de manga comprida, blusa de lã e um copo de plástico com a borda mordida; a segunda por cima da primeira. Perambulava por aquela esquina  que me soa tão "minha casa, minha vida", via amigos, conhecidos e desconhecidos, papeava com uns, debochava de outros e cheguei até a mandar rimas com outrem (entendamos: era fim de noite).
Um sorriso passou, subiu a rua, se foi - nem me viu - tudo bem - nem queria.
Dando leves toques com os pés em tampas de cerveja, vi um corpo todo encolhido com os braços juntos do tronco esfregando as mãos nos braços nus e mordendo os lábios e até balançando um pouco a cabeça pelo frio, acho que era do frio. Eu nunca sei como agir.
Lhe ofereci minha blusa, eu não estava com tanto frio assim, e por dentro da blusa (por fora de minha mediocridade), vestia uma camisa de manga comprida, não passaria frio - e ainda mais, eu moro perto, sei que você mora longe, se abrigue nestes fios de lã, por favor.
Uma porta foi fechada, a outra encostada. Pouco a pouco restávamos poucos.
Até que alguém sugeriu um "bonde", e todos os últimos bravos guerreiros começaram a subir rumo ao lado em que o sol costuma se por. Posso estar equivocado em minhas recordações, mas neste percurso certamente fiz um aglomerado sólido de vidro se tornar um espalhado sólido de pequenos detritos.
Vamos para lá; Vamos para cá; Preciso parar; Vou ali, peraí; Você tá com o celular ai?; Caramba, o sol já tá nascendo.
Então, quando já estava com a mão no bolso direito da calça, pegando o grande grupo de chaves que está sempre comigo - ainda rindo, não sei por que ao certo - me virei, e a vi parada no canteiro central da avenida próxima dali. Encarava com firmeza o corpo medíocre recoberto por camisa de manga cumprida.
Me encarava com expressão de dúvida mal lavada, me encarava com cara de blusa emprestada.