quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Auge.

Gostava da forma como ele me levava aos auges, naquelas situações. Eram auges, e sempre me soltava, não havia necessidade de guiá-lo, ou coisa do tipo; deixava que me levasse ao topo, puramente.
Eu disfarçava. Olhava para o lado, mordia os lábios e até almofada furada cheguei a mordiscar, só para disfarçar. Não ficava a vontade dele ver meu rosto alternando entre estar contraído e estar sorrindo; entre estar com os olhos abertos (fixos no teto) e estar com a boca aberta, exalando suaves e quase calados, sussurrantes suspiros de puro prazer. 
Sussurros de extremo auge.
Naquela noite não virei o rosto, sequer percebi que estava o olhando enquanto construíamos sabores mútuos. Ele sorria ao me ver suspirar em silêncio. Foi ao vê-lo sorrir que percebi que não estava escondendo o rosto ou as expressões mais sinceras do momento. Acho que era a primeira vez,  em muitos anos, que eu não escondia as expressões.
Continuei o olhando, continuamos nos olhando, apenas parei ao fechar os olhos, pois havia uma força incontrolável sobre as minhas pálpebras. Fechei, pois, como está escrito na bíblia, "vi que era bom".
Após tudo - auges, suores, sorrisos - foi inevitável não dormirmos, abraçados (daquele jeito que aprendemos com os filmes que é bonito). Antes de, por fim, me entregar ao sono e ao cansaço que embalavam meu corpo, concentrei alguns segundos em observá-lo já dormindo. Sereno, sem lábios ou quaisquer músculos tensionados. Estava relaxado e dormindo, era lindo.
Dormi, acordei, ele se foi, voltei a dormir, tornei a acordar, e a imagem dele dormindo não me saía da cabeça.
Pensei: "droga, estou perdida".


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Cara de blusa emprestada.

Fim de noite, e as características próprias dos primeiros ônibus que irrompem as avenidas, dos primeiros cantos de passarinhos, das últimas garrafas que sobraram nas geladeiras do bar. Enfim: fim de noite.
Os ventos frios ainda ou já batiam - não entendo de ventos - e faziam alguns encolherem os braços junto ao corpo todo, ou mesmo esfregarem as mãos nos braços nus, ou qualquer forma de auto contato que fosse uma tentativa de desesfriar o corpo já no começo do dia.
Eu estava confortável em minha mediocridade: camiseta de manga comprida, blusa de lã e um copo de plástico com a borda mordida; a segunda por cima da primeira. Perambulava por aquela esquina  que me soa tão "minha casa, minha vida", via amigos, conhecidos e desconhecidos, papeava com uns, debochava de outros e cheguei até a mandar rimas com outrem (entendamos: era fim de noite).
Um sorriso passou, subiu a rua, se foi - nem me viu - tudo bem - nem queria.
Dando leves toques com os pés em tampas de cerveja, vi um corpo todo encolhido com os braços juntos do tronco esfregando as mãos nos braços nus e mordendo os lábios e até balançando um pouco a cabeça pelo frio, acho que era do frio. Eu nunca sei como agir.
Lhe ofereci minha blusa, eu não estava com tanto frio assim, e por dentro da blusa (por fora de minha mediocridade), vestia uma camisa de manga comprida, não passaria frio - e ainda mais, eu moro perto, sei que você mora longe, se abrigue nestes fios de lã, por favor.
Uma porta foi fechada, a outra encostada. Pouco a pouco restávamos poucos.
Até que alguém sugeriu um "bonde", e todos os últimos bravos guerreiros começaram a subir rumo ao lado em que o sol costuma se por. Posso estar equivocado em minhas recordações, mas neste percurso certamente fiz um aglomerado sólido de vidro se tornar um espalhado sólido de pequenos detritos.
Vamos para lá; Vamos para cá; Preciso parar; Vou ali, peraí; Você tá com o celular ai?; Caramba, o sol já tá nascendo.
Então, quando já estava com a mão no bolso direito da calça, pegando o grande grupo de chaves que está sempre comigo - ainda rindo, não sei por que ao certo - me virei, e a vi parada no canteiro central da avenida próxima dali. Encarava com firmeza o corpo medíocre recoberto por camisa de manga cumprida.
Me encarava com expressão de dúvida mal lavada, me encarava com cara de blusa emprestada.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

O exame de HIV.

-Puta que pariu, não acredito que cê fez isso.
-Ah, não dá pra dizer que eu fiz.
-Não?
-Do jeito que eu tava não.
-Não vem com esse papo de alcoólatra de novo.
-Tá, não venho.
-Porra, devia ter me falado.
-Mas pra quê?
-Idiota! Você já ouviu falar em "comportamento de risco".
-Já, mas...
-E, porra, depois eu ainda dei pra você!
-Falando assim parece um castigo.
-E é mesmo!
-Poxa...
-Você é um castigo na minha vida!
-Poxa!
-É mesmo, e você sabe.
-Ah...
-Vai se foder. A gente vai fazer um exame de HIV e DST, nós dois.
-Porra, mas precisa disso tudo?
-Precisa sim. Eu não confio em você. Cara, que nojo.
-Nojo é demais vai.
-Não, não é. Tô com nojo de você, nem chega perto.

[após uma noite de sexo seguro e saboroso pós briga, foram logo cedo ao posto de saúde fazer os tais exames, um deles com resultado espontâneo].

Na sala do exame:
-Olá, tudo bem?
-Olha moça, se tivesse bom eu não tava aqui, mas, sim, tô bem.
-Sei como é.
-Imagino.
-Preciso fazer algumas perguntinhas.

(...)

-Quantas relações de risco você teve?
-Uma só.
-E você não conhecia a parceira ou parceiro?
-Sim, conhecia.
-E era de risco mesmo assim?
-Sim, considero de risco por que eu conhecia a parceira.

(...)

-Bom, o resultado deu negativo.
-Quer dizer que eu tô com Aids?
-Não. Quer dizer que você não está com o vírus.
-Então o negativo é seguir vivendo sem uma doença que pode encurtar essa ópera toda?
-Não. O negativo é que você não porta o vírus.
-Ah, entendi. Achei que a referência para isso de positivo ou negativo era a vida, e não o vírus.
-Você achou errado.
-Hum.
-Aqui o papel do exame, e se você quiser há preservativos grátis na saída.
-Ah, sim, muito obrigado.
-Por nada, cuide-se!
-Obrigado pela atenção, e me perdoe qualquer piada.
-Tudo bem.
-Mas honestamente, espero nunca mais ter que ver sua cara ou entrar nessa salinha.
-Isso mesmo, cuide-se rapaz!


domingo, 19 de agosto de 2012

Não sei.

Perambulando pela festa me sentei. Encontrei uma mesa sem nenhum ser humano ocupando qualquer cadeira. E me sentei.
Confesso que me recordei do Bukowski (e de certa camiseta Bukowskiana). Sentado eu estava, e puxei o caderninho do bolso. Puxei a caneta também.
"O Bukowski cagaria nesse luxo todo", pensei. E cagaria também nessa música de merda. Uma bosta. A bebida é boa, enfim.
Os sentimentos também. Certo? São sentimentos? Pode ser. Eu acho.
Coloquei o copo ao lado, o troquei pela caneta e este caderninho. 
A única pessoa simpática da festa - das que eu não conheço - não é simpática. É fanática, (palavra que não consegui entender) e policêntrica. Credo.
"Mais bebida Buk".
Me perdoem, deixo a mesa para trás. Deixarei. E volto pro agito tosco dos troxas que se sacodem com a música ruim. Só me divirto pelas minhas amadas. Só com elas.

Ps: entre uma frase e outra, a caneta escapou, e manchei a toalha branca com tinta azul. Foda-se. Aqui é escrita demente e constante e, por favor, não me interrompam. Na próxima.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Cheguei.

E quando o fiz portava em mãos (logo, carregava) uma garrafinha d'água. Apenas. Outrora ela me permitira a sensação de que deus - ele mesmo! - estava me dando beijos de prazer e santidade, a cada gole em ressaca.
Assim que cheguei realizei a estupidez de perguntar para mim mesmo: "será que é só isso?"; "isso quanto?", replicou o outro lado. "Isso, chegar só com uma garrafa d'água sem água".
Encerrei o assunto entre os dois lados quando entendi que o que estava sendo questionado era se eu estava chegando apenas com a garrafa.
E apenas no sentido mais amplo (embora reducionista) que consegui me imaginar em termos de perambulando por vazios.

***

Foi então que, sentindo a cabeça seca e cindida em dois lados, realizei outro exercício: o de virar as páginas do amigo caderninho. De fato, nas mãos podia haver só uma garrafinha d'água, mas a verdade, descrita em letras tortas (e escritas com letras garrafais) é que:

"Gosto do som,
Dos meus passos batidos,
No vazio batendo,
Deserto infinito,
Das ruas escuras,
Em noites sem fim".


domingo, 12 de agosto de 2012

Doce - II.

                                       Substantivo.

                                               Adjetivo.
      
             Verbo.


                                                 Nome Próprio.

                                Advérbio.
    
                                                   Pronome.

                                                      Interjeição.



"Doce"
"Você é um Doce"



               
                                 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A casa UFC.

Era uma casa.
Não era a mais espaçosa, ou mesmo a mais bem arrumada das casas do bairro. Era, e isso não se pode negar - apesar dos descuidos - uma casa muito simpática.

Era um casal.
Não era o mais aberto, ou mesmo o mais sorridente e radiante dos casais do mundo. Era, e isso até se deve negar - mesmo que se respire o oposto - um casal simpático.

Passavam pelas entradas da casa e já preenchiam o espaço de presença. Chamemos de presença a forma como irrompiam o silêncio e suspendiam a razão prática da existência de paredes duras e portas (e janelas) trancadas.
Talvez tivessem como filosofia de amor (ou lógica de amar), debaixo do teto daquela (ou de qualquer) casa, as bases desportivas daquilo que se convencionou chamar de "campeonato de lutas", um grande espetáculo para a televisão:"UFC: os gladiadores do terceiro milênio".

Passavam pelas entradas da casa, e já transformavam sala, quarto, cozinha, banheiro, quintal em um grande octógono: livre, geral e irrestrito.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Democracia Participativa com Listras.

Então decidimos inscrever o Zababô Zebrinha no tradicional "Festival InterUnesp de MPB", o famoso "Ilha Solteira", para o pessoal dos mais diversos Campus da Unesp. Li o edital, o passei para que o Caio pudesse fazer sua apreciação e então chegamos a um corriqueiro impasse entre nós: "quais músicas inscrever?".
O edital indica que cada banda, grupo ou artista solo deve inscrever até três canções, sendo que apenas uma poderá ser selecionada pela comissão organizadora do evento para ser apresentada publicamente na primeira noite do evento. Como o festival é voltado à MPB e a 'canções' (o que frequentemente envolve músicas cantadas), entendemos que nossas queridinhas "canções de rancor" estariam de fora das opções, por serem músicas instrumentais.
Como as músicas tem de estar gravadas para serem enviadas à comissão organizadora, nos restaram sete opções de músicas, gravadas no Estúdio Octopus com o querido Garboso no fim de Março deste 2012.
Logo, nos restavam sete dúvidas. Aliás, restavam não, considerando que o prazo para inscrição no evento é dia 14 de Agosto, e nós a faremos em cima da hora, nos restam ainda sete dúvidas: quais três músicas inscrever para tentarmos participar do Festival InterUnesp de MPB em Ilha Solteira?
Considerando algum princípio de "democracia participava", ou coisa do gênero - que certamente algum professor nalguma disciplina de Ciências Políticas trabalha ao longo do curso em que se formou o Zababô Zebrinha - repassamos essa pergunta aos amigos, seguidores, curtidores, desconhecidos e curiosos que possivelmente ouçam ou queiram conhecer o nosso som e nos ajudar na escolha.

Montamos um questionário pedindo a vocês que escolham três das sete músicas listadas.
Não conhece nossas músicas ainda? Ouça-as em nossa página no Oi Novo Som: http://ouve.ai/zababozebrinha ou em nossa página no Toque No Brasil: http://zababozebrinha.tnb.art.br/ .
E depois escolha as três que você mais gostou aqui neste questionário: http://gabrielcoiso.questionform.com/public/ZebrinhaIlhaSolteira

E assim, construímos uma Democracia Participava com Listras.







Leitor Atemporal.

Eu ainda leio o seu blogue.




Sabia que eu leio o seu blogue?




Se você fizer um blogue, o lerei.






sábado, 4 de agosto de 2012

Doce.

Uma criança caiu, sentada com a bunda aplanada no chão duro. Rapidamente alguns adultos - precisamente, três - se aprumaram em a levantar, talvez para que o tombo não fosse maior, ou coisa do gênero.
Um homem se sentou adiante, comendo mais uma porção daquele macarrão que parecia delicioso, servido em uma espécie de bandeja de alumínio mole.
Duas meninas retiravam latinhas de refrigerantes, sucos e cervejas de dentro de sacos e latões, as espalhavam pelo chão, uma mulher as amassava com o pé direito enquanto outra as colocava noutros sacos.
Pessoas diversas recebiam distintos tipos de massagens, algumas pareciam relaxar, outras pareciam sofrer; alguns massagistas pareciam gostar de realizar tal ação, outros pareciam carrascos medievais, e havia um indiferente, que apenas movimentava seu cotovelo nas costas de um sujeito.
Um rapaz perguntou ao outro: "quer ir procurar um doce?"; o outro encostou levemente seu ombro no  do um e respondeu: "nem precisei procurar".





quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Lasanha ao Colchão.

Eram mãos trêmulas o que a movimentava, pouco a pouco, de um lado para o outro, ainda dentro do ainda quente do ainda forno.
Eram mãos trêmulas que, com muita imprecisão, tremiam por temer a temperatura elevada da situação.
A lasanha, foi ao chão.

Eram mãos firmes que nos movimentavam, pouco a pouco, de um lado para o outro, ainda não quente, um o outro.
Eram mãos leves (suaves) que, com indefinível precisão, construíam sem temer a temperatura elevada da situação.
Os corpos, foram ao colchão.