segunda-feira, 23 de julho de 2012

Meleca.

Vagarosamente, desceram as escadas que dão acesso àquela grande estação de trens elétricos e subterrâneos, que em outros lugares poderia ser chamada, apenas, de "Estação Central", mas ali ela tinha nome próprio. Estava calma, vazia e silenciosa; nenhuma fila, nenhum corre corre, nada do habitual. Talvez conseguir ver com clareza o chão daquele espaço fosse algo raro. 
Não estavam de mãos dadas nem nada do tipo, eram dois e apenas desciam as escadas.
Passaram pelas catracas, todas livres, caminharam mais um pouco pela estação silenciosa, e pararam em frente ao vão que separava os lances de escadas a serem percorridos à seguir: ela ia para um lado, e ele para o oposto. O instante da separação era exatamente aquele.
Não deram as mãos nem nada do tipo: aproximaram seus corpos e trocaram um beijo, que nos fluxos comuns daquele local, seria rapidamente interrompido por trombadas e reclamações de alguns dos milhares de transeuntes que circulam por ali; dificilmente beijos naquele espaço duram o que durou aquele.
Se despediram, seguiram cada um o seu rumo. Cada um a sua escada.

Quando ele chegou na plataforma de embarque, notou que era possível observá-la na outra, há metrôs de chão e dois trilhos de distância. Algo que, normalmente, não ocorreria: haveria centenas de pessoas entre eles.
A via pequenina. 
Ao supor que ela também o via, ergueu a mão direita em um aceno discreto. Mas ela não correspondeu, parecia estar encobrindo o rosto com a mão esquerda; o unico homem que estava entre ambos percebeu o que ocorria, e riu.
Os trens de ambos chegaram, praticamente no mesmo instante, estavam vazios, os dois viajaram sentados, sozinhos e tranquilos, para enfim pousarem em suas casas e repousarem.

Ele jamais saberá que ela não lhe acenou pois preferira cutucar o nariz.


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