sábado, 21 de julho de 2012

04h35min.

Aqui onde estou, até os próximos minutos, há uma varanda. Não é um terraço, ou uma laje cercada: é uma varanda, com algumas plantas, duas cadeiras quebradas e uma grade reforçada. Abri a porta da varanda, fechei a porta da varanda, e nela permaneci por alguns minutos. 
Há um prédio na frente deste em que estou - parado em pé na varanda de um dos apartamentos. Neste prédio, há apenas uma janela aberta e com a luz do cômodo acesa. Se trata de um quarto no quinto andar; ao que observo, há três quartos em fileira neste apartamento, aquele é o do meio. 
São quatro e trinta e cinco da manhã. O vento é frio.
No único cômodo com a luz acesa do único apartamento com uma janela aberta no prédio em frente, há um rapaz que anda para lá e para cá. Devem ser quarto grandes; devem ser apartamentos grandes; é um prédio grande. Há bastante espaço para se perambular entre e pelos cômodos.
O rapaz não me viu.
Deixo-o de lado um pouco, e observo a calmaria das ruas ao redor dos prédios; tanto deste, no qual estou parado em pé na varanda de um dos apartamentos, quanto do que está com apenas uma janela aberta e uma luz acesa, tanto quanto dos outros tantos prédios que formam a expressão "quanto prédio" em minha cabeça.
Passou um carro em alta velocidade.
Na calçada caminham uma moça e um moço.
De repente uma sirene - e apenas a ouço; de repente uma luz vermelha - e apenas vejo o seu reflexo nas portas das lojas fechadas; de repente um carro vermelho exalando uón-uón  e proclamando uma luz igualmente vermelha e giratória como tom temporário para aquela avenida.
Acaba-se o silêncio, fim de toda a calmaria. Apenas por alguns instantes: a ambulância se vai.
O rapaz me viu, tudo bem, certamente a varanda em que estou é a única do prédio em frente ao que ele está (no único cômodo com janela aberta e luz acesa) em que há alguém parado em pé, são quatro e trinta e cinco da manhã.
É então que penso: "esse cara deve ser um desses idiotas, como tantos idiotas como nós, que passam a noite em claro perambulando por um quarto e por entre páginas e janelas".
Viro as costas, abro a porta, que agora é porta da sala (que é apenas uma sala, nem um salão, nem uma saleta improvisada) entro na sala, fecho a porta. Permaneço parado em pé na sala com a luz apagada.
É então que penso: "o moço e a moça caminhando pela calçada devem ser desses idiotas, como tantos idiotas como nós, que passam a noite em claro perambulando pela cidade e por entre quartos e calçadas".


Mas na verdade, quando faço parte da segunda espécie de idiotas referida acima, o sono que bate ao nascer do sol é infinitamente mais saboroso do que o sono que faz fechar a janela (que, certamente, passará a ser a unica não aberta durante o dia).

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