sexta-feira, 20 de julho de 2012

A morte do, do, do...

Recentemente, passeando por São Paulo em uma madrugada fria, barulhos repetidos me assustaram, e me assustavam conforme se repetiam. O temor diminuiu, mas não passou, quando vi se tratar de uma van, entregando litros de leite em locais como padarias, lanchonetes e prédios residenciais. Automaticamente recordei-me da "Morte do Leiteiro", e senti, mais ainda, o medo por andar por esta São Paulo, sobretudo de madrugada
Hoje, pouco depois de ter acordado, minha vó chegou e disse que havia jornal, o peguei para ler - não gosto de ler jornal, sobretudo o Estadão/Direitão - e logo me chamou a atenção a seguinte manchete: "para PM, morte de publicitário no Alto de Pinheiros foi 'legalmente inadequada'". Li a notícia e me detive em entendê-la. Exponho, aqui, um pouco do que refleti apenas sobre o título.

A opinião que vem em destaque: a da PM, "para PM...". Por quê desta vez a opinião de quem cometeu o crime vem antes da opinião daqueles ligados à vítima? Por exemplo, quando um jovem é morto em briga de torcidas, normalmente lemos "para a família", "para os amigos" etc, e não "para os membros da torcida rival...". Na gíria popular: "costas quentes" é pouco.
Quem morreu foi um publicitário, não era um morador de rua, um desempregado, um "vagabundo" - nas palavras do Kassab - ou "um bosta" - nas palavras do Serra - era um publicitário, e isso faz toda a diferença, caso contrário, "seria mais um".
O ato de se tirar uma vida deu-se no Alto de Pinheiros. No site da "Leardi Imóveis" minha busca com o nome do bairro encontrou 140 imóveis, sendo que há duas residências à venda por menos de R$500mil. Todos os demais 138 imóveis disponíveis para venda nesta imobiliária estão na casa do 'meio milhão' para cima - sendo que mais de 100 superam o preço de R$2milhões. Podemos concluir que não se trata de uma favela, tampouco de um Cingapura ou mesmo de um bairro de trabalhadores composto por prédios com apartamentos de dois andares e habitados por famílias de 4/5 pessoas, mas, no mínimo, de um bairro de classe média.
(Não é um bairro em que moram leiteiros, é um bairro em que se matam leiteiros, jornaleiros, "mendigos").
E a ação da PM - sujeito passivo e ativo da manchete - foi classificada, por ela mesma, como 'legalmente inadequada'. Talvez não ter o coração de gelo tenha prejudicado minha compreensão do trecho, mas 'legalmente inadequada' significa (e isso é, 'me parece claro lendo a matéria') que a ação ocorreu dentro da lei, mas foi inadequada. Foi um erro, algo como "comer a sobremesa antes do prato principal".
Inadequada por que foi no Alto de Pinheiros? Inadequada por que foi um publicitário? Inadequada por que foram dados Seis tiros? ("quando apenas um basta para tirar uma vida", não é Clarice?). Inadequada por que agora é a PM quem vai investigar a PM? Inadequada por que para justificá-la se colocou 50 gramas de maconha no carro como "justificativa"? Inadequada por que um policial confunde um suposto celular com um revólver?
Adequado é o treinamento daqueles Policiais, certo? 

Quando ando em São Paulo, em madrugadas como a citada no início do texto, temo por mim e por aqueles que comigo estão. Meu medo é que "Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão", e, mais uma vez fica claro: para a PM do Estado de São Paulo, a linha que diferencia "gatuno" de "irmão", bem como, o valor que existe entre "vida" e "morte" são cada vez mais insignificantes.
A foto já diz: o Estado são eles.

2 comentários:

Alex Arbarotti disse...

na veia! texto perfeito! ao andar pelas ruas temo a policia em primeiro lugar! Vamos começar um movimento pelo fim da policia militar, pois ela é incoerente com um estado democrático, uma vez que ela, a policia militar, é herança da ditadura.

Alcides Renofio Neto disse...

Meteu o fumo com classe! Que texto!
Primeiro a prova de que não precisa ser marxista e esquerdista pra falar bem mal das coisas erradas, segundo que a PM é A coisa errada num mundo de gente que quer viver em paz!