terça-feira, 31 de julho de 2012

Foco.

Lembro-me de um daqueles grandes professores que temos na vida, que nos dão aulas em períodos letivos, em intervalos, em encontros pelas ruas etc. 
Talvez a última vez que o vi foi em 2007, num fim de tarde ruim em que eu descia a Consolação rumo ao cursinho, era Junho e eu carregava pesos nos ombros. Descia a famosa rua tirando fotos de detalhes que me soavam interessantes, e o encontrei fazendo o mesmo.
Embora sempre um cara fantástico, tinha um problema enquanto professor: se dispersava muito, fugia dos temas e conceitos que estava nos ensinando e caia em discussões igualmente interessantes e valiosas. Sempre entendi as dispersadas dele.
Volta e meia ele percebia que havia perdido "o fio da meada", olhava para o chão, esticava as duas mãos ao lado do rosto e gritava: "foco, foco, foco".
De certa forma, é o que estou começando a fazer agora.

sábado, 28 de julho de 2012

Até logo.

Passei um mês em São Paulo, sem tirar nem por: cheguei em um sábado e parto noutro sábado, precisamente quatro semanas depois. Embora não tenha cumprido com a meta para este mês, foi um período vitorioso, nos mais variados e amplos sentidos que pode ter tal termo. 
Cheguei para o encontro de Antropologia, que, realmente, engrandeceu bastante meus planos para o futuro, ao me encher de dúvidas - novas e velhas - quanto a estes próprios planos: o que cansa a cabeça deste que aqui escreve é o excesso de possibilidades para os próximos passos, assumo.
Quando cheguei em São Paulo muitas piadas eram ainda válidas e repetidas, estas piadas se foram por terra em uma gloriosa noite de vitória. Uma gloriosa noite de quarta feira, eternizada neste coração e nesta memória - e nesta cidade.
Também neste mês matei as saudades de uma das mais dolorosas ausências no dia a dia interiorano que levo: a falta do cotidiano de jogos do Corinthians. À exceção da disputadíssima final da Libertadores, neste período em que estive aqui, fui em todos os jogos ocorridos no Pacaembu. Me senti perto do Corinthians, não só por estas partidas, mas por ter ido ao memorial novamente, por ter, enfim, conhecido as obras do Nosso Estádio em Itaquera etc.
Os dias passados na casa da vó merecem um parágrafo composto de uma frase apenas e sem vírgula alguma por serem-me tão vitais quanto o ritmo com que se lê um parágrafo de frase unica e sem vírgula alguma.
Volto para minha casa (que é diferente de "meu lar") também com um sentimento jovial que há tempos eu não sentia, fruto das perambulações, em tardes, noites e amanheceres por esta cidade em que cresci e em que, de fato, não tenho planos de voltar a viver tão cedo.
Enfim, foi um grande mês, de grandes sabores, grandes vivências - muitas delas devidamente registradas neste blogue - e nada mais digno do que, antes mesmo de arrumar minha mochila para a viagem de volta, sair para dar uma volta de metrô, ônibus e a pé para me despedir da camada de fumaça que há entre o céu e a terra por aqui.
Uma despedida singela, que deveria ser uma grande despedida, até por que (como me lembrou um irmão) estou me despedindo das férias, e não sei quando as terei novamente.


Pode vir, bater de frente, prosseguimento da vida: esse peito aqui aguenta. 




quinta-feira, 26 de julho de 2012

Fragmento - I.

Continuação ilógica e nada retilínea e sem qualquer relação de "Fragmento".

-E ai cara.
-E ai, tudo bem?
-De boa, e você?
-Tranquilo.
-Noite fria.
-Bastante. Mas que que você faz por aqui, neste metrô?
-Esperando uma amiga, e você?
-Ah, nada de mais.
-Sempre fazendo isso hein?
-É. Ah, de certa forma.
-Tá podendo conversar?
-Tô sim, e você?
-Sim. Até a hora que a menina chegar, sim.
-Legal.
-Ai quando ela chegar simplesmente fecho e vou.
-Tranquilo.
-Cheguei cedo cara.
-Sério?
-É.
-Tipo, quanto?
-Tipo meia hora, e ainda tenha certeza que ela vai atrasar.
-Ai fica difícil, hein? Atraso sobre atraso.
-É, meia hora pode virar uma hora.
-Mas como que você chegou antes da hora?
-São Paulo é aquela topeira manca né?
-É, já te ouvi falando isso.
-Ai a gente nunca sabe se o ônibus vai demorar, se vai estar aquele trânsito, se um acidente, uma blitz, uma pane no metrô ou o que for vai causar atraso.
-É, volta e meia tem alguma coisa que trava.
-A chance de acontecer algo é sempre grande.
-Também, é proporcional ao tamanho da cidade.
-Que é gigante.
(...)


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Fragmento.

(...)

Eu sempre soube que ou doeria por um lado ou por outro.
Por um tempo doeu por um, em um, agora está doendo por outro, em outro.
Até que exista algum fluxo contínuo de cotidiano tranquilo e a coisa, digamos, se tranquilize.
Acho que vai doer - para/em lá, para/em cá.
Ou mesmo que eu alcance algum mero/qualquer tipo de equilíbrio.
O que ou como quer que seja isso.
É, vai acontecer.

(...)

Escrito no meu local favorito em São Paulo após realizar minha vivência/vivacidade favorita em São Paulo: no Terminal Lapa, após o jogo do Corintias.



segunda-feira, 23 de julho de 2012

Meleca.

Vagarosamente, desceram as escadas que dão acesso àquela grande estação de trens elétricos e subterrâneos, que em outros lugares poderia ser chamada, apenas, de "Estação Central", mas ali ela tinha nome próprio. Estava calma, vazia e silenciosa; nenhuma fila, nenhum corre corre, nada do habitual. Talvez conseguir ver com clareza o chão daquele espaço fosse algo raro. 
Não estavam de mãos dadas nem nada do tipo, eram dois e apenas desciam as escadas.
Passaram pelas catracas, todas livres, caminharam mais um pouco pela estação silenciosa, e pararam em frente ao vão que separava os lances de escadas a serem percorridos à seguir: ela ia para um lado, e ele para o oposto. O instante da separação era exatamente aquele.
Não deram as mãos nem nada do tipo: aproximaram seus corpos e trocaram um beijo, que nos fluxos comuns daquele local, seria rapidamente interrompido por trombadas e reclamações de alguns dos milhares de transeuntes que circulam por ali; dificilmente beijos naquele espaço duram o que durou aquele.
Se despediram, seguiram cada um o seu rumo. Cada um a sua escada.

Quando ele chegou na plataforma de embarque, notou que era possível observá-la na outra, há metrôs de chão e dois trilhos de distância. Algo que, normalmente, não ocorreria: haveria centenas de pessoas entre eles.
A via pequenina. 
Ao supor que ela também o via, ergueu a mão direita em um aceno discreto. Mas ela não correspondeu, parecia estar encobrindo o rosto com a mão esquerda; o unico homem que estava entre ambos percebeu o que ocorria, e riu.
Os trens de ambos chegaram, praticamente no mesmo instante, estavam vazios, os dois viajaram sentados, sozinhos e tranquilos, para enfim pousarem em suas casas e repousarem.

Ele jamais saberá que ela não lhe acenou pois preferira cutucar o nariz.


domingo, 22 de julho de 2012

Fraqueza 2.0

De certa forma, meu bem, ao lhe falar todas as coisas que terminei por falar, eu apenas assumi fraquezas. 
Tantas fraquezas (e alguns fricotes) recobertos por floreios nas palavras. 
Muitas fraquezas que eu canto em canções minhas (e tão suas) já faz alguns anos.
Hoje, apenas tiramos os floreios, os fricotes e a melodia.

sábado, 21 de julho de 2012

04h35min.

Aqui onde estou, até os próximos minutos, há uma varanda. Não é um terraço, ou uma laje cercada: é uma varanda, com algumas plantas, duas cadeiras quebradas e uma grade reforçada. Abri a porta da varanda, fechei a porta da varanda, e nela permaneci por alguns minutos. 
Há um prédio na frente deste em que estou - parado em pé na varanda de um dos apartamentos. Neste prédio, há apenas uma janela aberta e com a luz do cômodo acesa. Se trata de um quarto no quinto andar; ao que observo, há três quartos em fileira neste apartamento, aquele é o do meio. 
São quatro e trinta e cinco da manhã. O vento é frio.
No único cômodo com a luz acesa do único apartamento com uma janela aberta no prédio em frente, há um rapaz que anda para lá e para cá. Devem ser quarto grandes; devem ser apartamentos grandes; é um prédio grande. Há bastante espaço para se perambular entre e pelos cômodos.
O rapaz não me viu.
Deixo-o de lado um pouco, e observo a calmaria das ruas ao redor dos prédios; tanto deste, no qual estou parado em pé na varanda de um dos apartamentos, quanto do que está com apenas uma janela aberta e uma luz acesa, tanto quanto dos outros tantos prédios que formam a expressão "quanto prédio" em minha cabeça.
Passou um carro em alta velocidade.
Na calçada caminham uma moça e um moço.
De repente uma sirene - e apenas a ouço; de repente uma luz vermelha - e apenas vejo o seu reflexo nas portas das lojas fechadas; de repente um carro vermelho exalando uón-uón  e proclamando uma luz igualmente vermelha e giratória como tom temporário para aquela avenida.
Acaba-se o silêncio, fim de toda a calmaria. Apenas por alguns instantes: a ambulância se vai.
O rapaz me viu, tudo bem, certamente a varanda em que estou é a única do prédio em frente ao que ele está (no único cômodo com janela aberta e luz acesa) em que há alguém parado em pé, são quatro e trinta e cinco da manhã.
É então que penso: "esse cara deve ser um desses idiotas, como tantos idiotas como nós, que passam a noite em claro perambulando por um quarto e por entre páginas e janelas".
Viro as costas, abro a porta, que agora é porta da sala (que é apenas uma sala, nem um salão, nem uma saleta improvisada) entro na sala, fecho a porta. Permaneço parado em pé na sala com a luz apagada.
É então que penso: "o moço e a moça caminhando pela calçada devem ser desses idiotas, como tantos idiotas como nós, que passam a noite em claro perambulando pela cidade e por entre quartos e calçadas".


Mas na verdade, quando faço parte da segunda espécie de idiotas referida acima, o sono que bate ao nascer do sol é infinitamente mais saboroso do que o sono que faz fechar a janela (que, certamente, passará a ser a unica não aberta durante o dia).

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A morte do, do, do...

Recentemente, passeando por São Paulo em uma madrugada fria, barulhos repetidos me assustaram, e me assustavam conforme se repetiam. O temor diminuiu, mas não passou, quando vi se tratar de uma van, entregando litros de leite em locais como padarias, lanchonetes e prédios residenciais. Automaticamente recordei-me da "Morte do Leiteiro", e senti, mais ainda, o medo por andar por esta São Paulo, sobretudo de madrugada
Hoje, pouco depois de ter acordado, minha vó chegou e disse que havia jornal, o peguei para ler - não gosto de ler jornal, sobretudo o Estadão/Direitão - e logo me chamou a atenção a seguinte manchete: "para PM, morte de publicitário no Alto de Pinheiros foi 'legalmente inadequada'". Li a notícia e me detive em entendê-la. Exponho, aqui, um pouco do que refleti apenas sobre o título.

A opinião que vem em destaque: a da PM, "para PM...". Por quê desta vez a opinião de quem cometeu o crime vem antes da opinião daqueles ligados à vítima? Por exemplo, quando um jovem é morto em briga de torcidas, normalmente lemos "para a família", "para os amigos" etc, e não "para os membros da torcida rival...". Na gíria popular: "costas quentes" é pouco.
Quem morreu foi um publicitário, não era um morador de rua, um desempregado, um "vagabundo" - nas palavras do Kassab - ou "um bosta" - nas palavras do Serra - era um publicitário, e isso faz toda a diferença, caso contrário, "seria mais um".
O ato de se tirar uma vida deu-se no Alto de Pinheiros. No site da "Leardi Imóveis" minha busca com o nome do bairro encontrou 140 imóveis, sendo que há duas residências à venda por menos de R$500mil. Todos os demais 138 imóveis disponíveis para venda nesta imobiliária estão na casa do 'meio milhão' para cima - sendo que mais de 100 superam o preço de R$2milhões. Podemos concluir que não se trata de uma favela, tampouco de um Cingapura ou mesmo de um bairro de trabalhadores composto por prédios com apartamentos de dois andares e habitados por famílias de 4/5 pessoas, mas, no mínimo, de um bairro de classe média.
(Não é um bairro em que moram leiteiros, é um bairro em que se matam leiteiros, jornaleiros, "mendigos").
E a ação da PM - sujeito passivo e ativo da manchete - foi classificada, por ela mesma, como 'legalmente inadequada'. Talvez não ter o coração de gelo tenha prejudicado minha compreensão do trecho, mas 'legalmente inadequada' significa (e isso é, 'me parece claro lendo a matéria') que a ação ocorreu dentro da lei, mas foi inadequada. Foi um erro, algo como "comer a sobremesa antes do prato principal".
Inadequada por que foi no Alto de Pinheiros? Inadequada por que foi um publicitário? Inadequada por que foram dados Seis tiros? ("quando apenas um basta para tirar uma vida", não é Clarice?). Inadequada por que agora é a PM quem vai investigar a PM? Inadequada por que para justificá-la se colocou 50 gramas de maconha no carro como "justificativa"? Inadequada por que um policial confunde um suposto celular com um revólver?
Adequado é o treinamento daqueles Policiais, certo? 

Quando ando em São Paulo, em madrugadas como a citada no início do texto, temo por mim e por aqueles que comigo estão. Meu medo é que "Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão", e, mais uma vez fica claro: para a PM do Estado de São Paulo, a linha que diferencia "gatuno" de "irmão", bem como, o valor que existe entre "vida" e "morte" são cada vez mais insignificantes.
A foto já diz: o Estado são eles.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Três Crianças.

Um garoto ruivo de cabelos lisos longos, com uma franja quadrada cortada rente aos olhos, encobrindo quase toda a testa, vestindo uma jaqueta azul, cinza e vermelha com desenhos e nome do Bob Esponja.
Uma menina com os cabelos nitidamente alisados, os prende com alguns grampos e presilhas, no alto da cabeça uma presilha maior, prateada, em formato de "coroa" de princesa de desenho animado; cutucou o nariz com o dedo indicador direito por algumas vezes.
Um moleque com a cabeça em formato cônico, cabelos bem curtos penteados para o lado esquerdo, usa colares de barbante, veste uma blusa de moletom azul claro com estampas de marca de Surf, quando ele fala uma veia se salta em seu pescoço, e por vezes notei que ele piscava apenas um dos olhos.

Nas férias escolares (minhas e deles) estes três sujeitos dividem um banco no metrô de São Paulo.

O desenho fiz agora mesmo.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Corrida.

Nesta "corrida rumo ao TCC", que venho vivendo e me impondo viver há alguns meses, já tive dias em que desejei ser exilado do todo, assim como já houve dias em que me senti uma mexerica esturricada em fim de tarde. São dias e dias, e talvez este seja o primeiro dia em que escrevo algo sobre de forma mais 'empolgada' - talvez por ter entendido a que raios estou, de fato, me dedicando.
Está sendo um processo difícil, nalguns períodos é até sofrível; e nada disso por pressão de orientador, medo de jubilar ou coisa do gênero. Se por vezes é sôfrego, é em razão das minhas exigências para comigo, do meu respeito, trato e carinhos com o tema do Trabalho, do que quero fazer e da eterna sensação de que "tocar neste assunto não é exagero, cabe mais um subtítulo neste parágrafo, é só ler tais autores".
Entre rolês diversos, escritos, idas a jogos, festas, leituras, pausas e cafés [muitos cafés] estou vivendo este mês de Julho. Estou fracassando com os planos previamente traçados de passar o mês enclausurado dentro de uma casa, fazendo apenas o tal do TCC. Mas está bom assim.
Aliás, está sendo o justo e o necessário.
E ai, no meio do fluxo de dois dias seguidos com a fuça enfiada na tela e no teclado do computador, saí de casa em São Paulo no horário de pico - deve ter umas setenta pessoas neste microonibus/lotação cuja capacidade é para trinta e oito. O rumo é "o meu canto, no meu paraíso", é Julho, é Férias, não poderia fazer diferente.
Não se trata de uma bonificação por - até a próxima crise de exigência - ter encerrado o primeiro capítulo. 
Trata-se, pura e simplesmente, do fato que, sem o amor da família, o carinho dos amigos, o alento dos dias de jogos do Corintias, o sabor dos dias saborosos etc, não há como existir estrutura humana para criar uma estrutura científica.

Ps: e na mochila roupas de frio, livros e lequitoque: o estudo me empolga, e não posso pará-lo.
Ps1: ninguém quer sentar ao lado de um cara escrevendo em caderninho de bolso.


domingo, 15 de julho de 2012

Crime.

Início:
Foi numa calçada, em um canteiro de obras, apoiados num muro, que se iniciou o crime daquele dia. O sol era até gostoso, mas optaram pela sombra, causada pelo próprio muro. Era uma sombra boa, e não deixava a bebida esquentar tanto assim.

(im)Possibilidades:
Talvez o crime em si, não tenha se iniciado ali.
Talvez ambos, como sujeitos de um crime, ou como cúmplices de uma mesma ação tenham se aliciado, apenas, por ali.
Talvez a ação dotada de possibilidades criminais tenha se iniciado quando deixavam para trás a obra, e seguiam rumo ao próximo destino. Aquele seria o rumo de apenas um dos sujeitos, mas se tornou de ambos, quando, por cumplicidade, observaram e optou-se por seguir o mesmo rumo. 
Talvez tenha sido naquele banco chacoalhante de transporte público que a criminalidade se mostrou entre e para ambos. 
Talvez não: como medir o peso das ações quando não se sabe que, futuramente, se tornarão um crime? Como medir o peso das ações quando a bebida não esquentou tanto assim?

Desenvolvimento:
Era um momento especial. Em si, desde o escalar do barranco perpendicular ao muro do início, era um dia histórico para um lado, que se desdobrou em histórico para o outro lado e, assim, tornou-se histórico para os dois lados.
Em meio ao desenvolvimento da ação, a revista policial não encontrou as broas de milho, o croissant ficou para fora e as bolachas entraram, amassadas, mas entraram - não existe crime perfeito. A linha de policiais militares também não evitou os singelos encontrões de ombros, os abraços de felicidade e o não estar de olho na bolacha alheia.
Conivência e omissão não serviriam para descrever os erros da polícia: não havia planos concretos, coesos  e/ou compartilhados de criminalidade por ali.

Crime:
Todos os componentes históricos daquele dia inapagável foram celebrados em um tilintar de copos, cheios e refrescantes. A noite já comia - e era comida - de forma solta e deliberada por ali: via urbana que conecta bairros ao centro da cidade e concentra cidadãos em busca dos mais diversos tipos de noites. 
(Talvez fosse o local ideal para se encontrar um espaço que configuraria o fim daquele dia como algo sem crime algum. Mas não foi).
Era dia de serem criminosos e cúmplices, ambos foram as duas coisas, sem tirar nem por. E, na inexistência de julgamento, foram condenados, de forma quase que inquestionável, à celas solitárias, sem dó nem piedade.
Condenados às celas solitárias de suas camas vazias. Cada um na sua.
Sem tirar nem por.



sexta-feira, 13 de julho de 2012

Breve relato.

"Ai eu desci na casa dele ainda no dia de domingo e falei: "qualé que é? Cê não vai pagar o serviço que eu fiz nas roda do teu carro não?", ele disse que ia mas só na segunda, falou pra eu voltar lá segunda. Eu fui, de boa. Ai ele falou que era feriado, que nem tinha lembrado e que não tinha trombado o patrão pra pegar o dinheiro, falei pra ele: "fica esperto, não folga comigo que eu venho aqui e ranco essas porras dessas rodas". Falou que ele não podia fazer nada, que tava sem o dinheiro, que era pra eu colar na casa dele na hora do almoço na terça que nóis acertava. Cheguei lá meio dia, não tinha ninguém, nem o carro tava lá. Agora tô aqui, gastando trinta minutos no teu bar na frente desse ponto de ônibus antes de ir lá pegar esse filho da puta. E se ele tiver colocado o carro pra dentro e não quiser me pagar eu pulo o portão e arranco as rodas mesmo assim. [pausa]. Aliás, eu vou é matar aquele filho da puta. E como eu já tô loco com essa cachaça eu vou matar o primeiro ser humano que eu vê na minha frente".

Como eu sou um ser humano, e estava na frente dele, julguei por bem embarcar no ônibus que vinha se aproximando da calçada, do ponto de ônibus e do bar.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Três Garrafas.

Numa tem café,
Na outra café com leite,
E na terceira apenas leite.

As duas e cinquenta,
Quando o dia era ainda distante,
[Fosse para o fim de um,
Ou começo do outro],
Um barulho estremeceu,
O silêncio da avenida.

Uma porta de metal,
Batida por três vezes.

Mais a frente,
Outro ruído,
Bléim, Blóim,
Blum Blum.

Algo com motor,
Se aproxima,
Apenas o ouvia,
Não queria olhar.

Era um único carro,
Cortando aquela veia,
Avenida sempre entupida;
Colesterol urbano.

Passou por nós,
Não tive como não olhar,
Mesmo que quisesse.

Mais a frente,
Fez outra parada,
Bléim, Blóim,
Blum Blum.

Era um carro grande,
Que entrega leite,
Às três da madrugada,
Bem mais que três garrafas.

São Paulo,
Essa cidade de milhões,
Milhões de bezerros,
Eternamente desmamados.

[Sim Drummond,
Ainda existem leiteiros].


domingo, 8 de julho de 2012

Em São Paulo III: Linhas Férreas.

Estação Vila das Belezas/Estação Santo Amaro/Estação Pinheiros/Estação República/Estação Carrão/Estação Barra Funda.
 

O trilho sentido Osasco está interditado neste trecho, a manutenção que é feita nele me causa receio de embarcar no vagão que virá em breve, e que, segundo o funcionário da CPTM, causará um atraso de mais de meia hora (comprovado, experimentado e atrasado: foram 40 minutos).
Na plataforma de embarque, lotada em razão dos atrasos, um rapaz com conjuntivite traja jaqueta azul e preta do Chelsea.
Paralelo às linhas férreas, uma ciclovia foi construída recentemente, nela, passou um grupo de três jovens pedalando, um deles gritou: "bike é bem melhor hein?", e riu. Na plataforma ninguém riu.
Duas moças não são nada parecidas, mas por usarem excessos semelhantes de maquiagem rosa se tornam semelhantes.


Chiclete sortido dois sabores e Tic Tac laranja e canela é um real cada, só um real.
Um casal vestindo bonés brancos e amarelos com o nome de uma marca de cerveja barata troca efusivos beijos apoiados numa das portas. O boné da moça caiu, e ela nem ligou.
A quantidade de escadas para se chegar às plataformas da Estação Pinheiros é proporcional à necessidade de segurança da Área 51. Parece.
Na Estação República o relógio do sentido Corinthians/Itaquera marcava 16h45min, e o do sentido Palmeiras/Itaquera marcava 16h32min.


O metrô de São Paulo - e amplio a reflexão para toda a malha ferroviária paulistana - me soa como uma topeira manca, gerida e mantida por topeiras gordas e despreocupadas com aqueles que se valem deste meio de transporte.
Mas, reitero, apenas "me soa" assim.

sábado, 7 de julho de 2012

Poente & Nascente.

[Não, não errei as previsões feitas nesta postagem e a semana não foi fácil, foi sim muito saborosa, e como não ser? Apesar de cansativa, e por isso mesmo "entra para a história desta vida", como uma grandiosa semana].

As coisas não vinham lá muito bem, mas, para aguentar o ritmo e as responsabilidades, me obriguei a não parar. Vocês devem saber: às vezes não podemos simplesmente manobrar e estacionar. E me obriguei a seguir ritmos fortes, quiçá pesados, de idas e vindas, de noites em claro, de bunda na cadeira etc. Tudo para não parar; muito para não parar para pensar e, por consequência, estacionar.
Prazos foram sendo dados, alterados e remarcados: a entrega do último trabalho, a vinda para São Paulo, o show do Jair Naves, o fim do Congresso, o fim da Libertadores, o final de semana posterior ao Congresso e ao fim da Libertadores...
Neste meio tempo, tanta coisa, tanta gente, tanto Corintias, tanto eu, que ainda não havia parado, pois às vezes, sou realmente difícil de parar.
Um reencontro - levemente informal, mas repleto de cuidados - grandes festas, grandes conversas, grandes celebrações, algumas mensagens, alguns emeious, algumas trocas. Tudo da forma como deve ser.
Então, chegou o dia de começar a manobrar a alma para dar uma estacionada na vaga justa que é este viver. Talvez, considerei ao acordar e permanecer na cama hoje, fosse preciso encarar o por do sol para conseguir alcançar o nascente da manhã seguinte, e conseguir uma boa vaga - talvez menos justa - para o passado recente e o futuro próximo.
De fato, é isso. Um sol já se pôs, faz tempo, e de forma consideravelmente trágica e dolorida, existem outros por nascer, por fazer nascer; alguns até já mostraram as caras neste espaço de tempo e de vivências. E eu tenho gostado dos que tem nascido. 
Apesar dos pesares e das tragicidades pelo caminho, eu gosto das coisas que tenho vivido nas últimas semanas. E não me sinto mais um criminoso; ouso dizer que, por vezes, sinto-me jovem.
Pois o sol que se põem na PUC, é o mesmo sol que nasce na Sé, mas, Heraclitanamente, o idiota que se põem a observá-lo, nunca é o mesmo. 
E há sabor em estacionar e perceber isto.




 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Liberdade.

Invariavelmente, chega o instante em que temos de nos separar.

E irmos cada um para um lado. 

Não mais sincronia, seja nos espaços, nos tempos ou nos corpos.

Qualquer coisa seja dita, "até mais", "nos vemos", "a genta se fala", "legal".

Invariavelmente chega o momento, que é você para lá, eu para cá e fim.

Fim de qualquer possibilidade de "ah".






terça-feira, 3 de julho de 2012

Uma vida babacadêmica.


Em 2005 desenvolvi uma espécie de "trabalho monográfico" na escola. 
Em 2006 o apresentei em uma feira para jovens e futuros cientistas na USP. Foi bacana. Lá eu conheci uma garota.
Em 2007 vivemos bons momentos.
Em 2008 - seguindo com o plano sobre os "futuros cientistas" - entrei na faculdade, onde me reecontrei com a garota. 
Em 2009 também. 
E em 2010 também - aliás, acho que demos sorte de termos saído vivos daquele primeiro semestre.
Em 2011 não nos encontramos, nem nada.
Em 2012, alguns querem falar em construir alteridade, mas fogem do [antigo] amiguinho como seus nativos da cruz.


Tanta Ciência, Tanta Treta, Tanta Bobeira.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Um passinho para trás.

Há mais ou menos uma semana, um emeiou que surgiu em minha caixa de entrada me lembrou que, na semana seguinte, (vulgo: a que se iniciou ontem) eu deveria estar em São Paulo para um encontro anual de antropológos. Mais do que isso, me lembrou que eu havia dispendiado R$40,00 pela inscrição no evento e que deveria imprimir um banner (que me custou mais R$30,00) e falar sobre o conhecimento produzido e impresso naquela folha de 120cm X 90cm e em meus dias de pesquisa sobre o tema, que permitiram chegar a tal impresso.
Em São Paulo desde sábado, na tarde de segunda feira se iniciou a jornada para aproveitar ao máximo os R$40,00; digo, os dias e possibilidades do evento, que são realmente muitas e fenomenais para a minha formação na área - além de poder bajular pessoas que podem ser importantes para o meu futuro dentro da acadimia.
Na segunda feira não havia nada que me atraísse na programação do evento, de modo que me desloquei apenas para assinar uma folha e retirar uma sacola com os "materiais do encontro": um monte de papel [metade já foi pro lixo], uma caneta e, literalmente, uma sacola [que, por tradição, sempre dou pra minha mãe]. Perdi cinco minutos na universidade em que está ocorrendo o congresso, e já voltei para casa.
Porém, para perder estes cinco minutos, tive que perder aproximadamente três horas, entre sair de casa e voltar. Peguei dois micro ônibus e um ônibus [um deles, apenas por dois pontos, pois a avenida estava congestionada], em nenhum deles me sentei e no último destes fui diversas vezes esmagado; sempre sendo convidado pela senhora que cuidava da porta da frente a "dar um passinho para trás".

É muita lerdeza, é muita lentidão, é tudo muito cheio e tudo muito parado. 
E eu sei, que esta semana será cheia de idas e vindas para estar nos momentos mais interessantes do encontro, e voltar pra casa, e conciliar tudo isso com a ansiedade, e uma possível felicidade [ou uma possível tristeza], e dar mais um e outro passinho para trás e tudo o mais.


E ai, não posso deixar de fazer uma pergunta, uma afirmação e uma prece:
-Como vocês aguentam esse inferno?
-Essa semana será interminável.
-Vai Corintias!


domingo, 1 de julho de 2012

"Não há exceção à regra".

[não custa lembrar o silêncio de "Silenciosa" em 31 de Maio último].

Me interessa, agora, falar sobre o ontem. Tivesse tudo dado certo, dentro dos planos traçados, estaria agora escrevendo um texto sincero e meu sobre uma apresentação musical fenomenal, que me bateu nas portas mais escondidas [e fechadas] deste eu/corpo/alma/coração/enfim.
Farei isso, pois vivi isso a pouco, mas há o antes.

Havia combinado uma carona para Osasco, no sábado, as 8 horas da manhã. Deixei de ir na festa de sexta sob a alegação justa de que "iria dormir cedo, para acordar cedo". Meu corpo, volta e meia me trai, e eu acordei apenas após a metade da nona hora do dia.
Pensei rápido, e já me ajeitei para ir comprar uma passagem para o próximo ônibus rumo à São Paulo: não havia lugar, nem nele, nem no próximo, nem nada. Apenas no ônibus que partia de lá faltando trinta minutos para o fim do sábado; este não me servia, mas era o unico jeito.
Voltei para casa, puto. As caixinhas de som proliferavam canções de ódio em um metal que não sei se black ou trash. Enfim, pesado, sujo e catastrófico, como me senti ao me sentar na poltrona sabendo que não estaria na apresentação do Jair Naves, apresentação apenas dele.
Consegui chegar para tal. Podemos considerar que a ordem dos fatos [uma carona, vindo para São Paulo, sábado ao meio dia, após tudo o que ocorreu] teve lá o seu caráter milagroso.

[agora começa "um texto sincero e meu sobre uma apresentação musical fenomenal"].
Quando você diz a alguém habituado com a "industria musical" que vai a um show, essa pessoa imagina grades, esquemas de segurança, colunas [e mais colunas] de amplificadores. Normalmente, são essas mesmas pessoas que se referem às pequenas coisas do cotidiano como "show". Quando você diz para essas pessoas que no meio do show o músico perguntou se era necessário microfone, as pessoas se espantam: "ah, então não era show?". Era.
Por que um show não pode ser algo leve? Talvez umas expressão cotidiana, como um homem [e não um menino, ou mesmo um menino] com seu violão, suas vozes e suas canções?
E "suas canções" em um sentido amplo: não apenas músicas construídas por ele, mas músicas experimentadas e acariciadas por ele, a ponto de se tornarem suas também.
Assim como "Silenciosa", é uma música dele, Jair Naves, que também é minha, Gabriel Coiso.
(Ah Jair, se eu te dissesse como ouvi e berrei 'Um passo por vez' em minha casa e cabeça nos últimos tempos, talvez eu pudesse lhe dizer que "essa música é minha também").

Sai de lá choroso, lento, vagaroso; sentamos nalguma lanchonete após o ônibus e quis escrever algo em meu caderninho sobre a experiência de estar ali, saboreando os gritos e lágrimas dele. Não saiu nada, e nem tinha que sair.
Afinal, este é apenas um texto sincero e meu sobre uma apresentação musical fenomenal.
E fenomenal, por me bater nas portas do peito.


De certa forma os berros, músicas e todas as minhas predisposições que bateram e/ou abriram as portas deste peito, permitem que eu entre, enfim, em férias, e que encare de frente o que fechei nalguns quartinhos e escondi as chaves.
"Um passo por vez", com a participação vocal das mais ou menos 30 pessoas amontoadas naquela agradável loja na região da Augusta: