domingo, 3 de junho de 2012

Underground x Mainstream?

Como faço frequentemente em sextas e/ou sábados (e já fiz em quartas, quintas e domingos) ontem [02/06] sai de casa para ir ao Cão Pererê prestigiar e fotografar uma noite de Roque. O Cão Pererê é o meu local favorito para fazer rolê em Marília, para quem não conhece, é um ponto que classifico como dos mais fantásticos, não só na cidade, como em um contexto geral de espaços para as artes que conheço por ai. Lá já presenciei exposições, shows de roque, forró, samba, jazz etc, oficinas, ensaios, intervenções teatrais e até reuniões. 
Na noite do último sábado houve no Cão show do Rock Rocket, de São Paulo, com abertura de duas bandas Marilienses: o Japona Invocada e o Blue Draft (que estreava nos palcos). 


Cheguei cedo e sozinho, como costumo fazer muitas vezes. Eu gosto de ficar sentado sozinho acompanhando o movimento aumentar, ou conversando com as demais pessoas que chegam cedo e estão por lá sozinhas, enquanto seus amigos e parceiros não chegam.
Neste "meio tempo" notei três fenômenos distintos do que ocorre normalmente na esquina em que se localiza o Cão: a grande maioria do público chegou de carro (ocupando todo o estacionamento do supermercado ao lado e também lotando as guias altas da avenida) e muitos carros, dirigidos por um homem ou uma mulher, encostavam em frente ao bar (em frente!), do veículo descia algum, alguma, algumas ou alguns jovens (bem jovens mesmo) e o motorista passava um tempo ainda espiando a movimentação no local; interpretei serem pais deixando filhos.
Houve ainda um casal que, após deixar duas garotas na porta da casa, estacionou o carro no alto da avenida, desceu do veículo e permaneceu em torno de cinco minutos observando o movimento. Os dois voltaram para o carro e passaram em frente ao Cão em velocidade reduzida, com os olhos atentos nas pessoas que já se aglomeravam na porta.

O terceiro fenômeno que notei no início da noite, ainda com relação ao público - e ainda fora da casa - dizia respeito à composição do público, um pessoal diferente do que costumar aparecer no Cão (também os valores dos ingressos eram bem diferentes, em vez dos R$5/7/10 das festas, cobrou-se R$15 e R$20).  E diferente não apenas em termos de estilo, mas em termos concretos: eu nunca havia visto aquelas pessoas lá, muitas já tinha visto em outro ponto da cidade, mas isso abordarei abaixo. Conforme apontou um cidadão conhecido como Rato no Facebook: "as pessoas que você conhece não tinham vintão".
Sociologicamente, estes três fatores podem ser pensados a partir de alguns pressupostos notados empiricamente no evento: um deles é o fato de que a banda principal da noite tem projeção na mídia (MTV), o que acaba por atrair um público que não está lá muito disposto a ir nos eventos em que rolam bandas como o Zababô Zebrinha ou o Nullius Avarus, e outras tantas que fazem "som próprio" e o divulgam em páginas e páginas virtuais, por isso nunca havia as visto no Cão; esta exposição na mídia também, entendo, instigou a ida de uma grande quantidade de "adolescentes" ao rolê. 
O preço dos ingressos também é importante, pois, como citei o Rato acima, acabou por "recortar" um público específico: o pessoal da Unesp e uma galera que 'mexe' com o roque na cidade não compareceu.


Após os shows, quando os carros começaram a partir pelos mais diversos sentidos possíveis naquela fina avenida, e outros tantos começaram a aparecer para recolher os jovens, muitas das pessoas "de sempre" no Cão, como fazem sempre, ficaram ainda por ali, conversando, bebendo, fumando etc. O Noel, do Rock Rocket, estava por ali sozinho e fui lhe perguntar se interessava receber as fotos que tirei, ele me passou um e-mail  para enviá-las. Espontaneamente, começamos a conversar: música, roque, tenho uma banda, São Paulo, a cena, as cenas, circulação... Essas coisas de sempre.
Eis que um jovem, que se enquadra no grupo dos que eu nunca havia visto no Cão Pererê, entrou no assunto, e, tentando contextualizar Noel no roque mariliense, realizou uma fala valiosíssima para mim: "aqui em Marília tem o role underground que rola aqui no Cão, e o mainstream que rola no Berlin". 

Com base na contextualização realizada pelo jovem - que, repito, eu nunca havia visto no Cão - encerro esta longa postagem, com duas perguntas, que se completam e anulam: na noite de dois de junho o Cão Pererê viveu uma noite de mainstream ou a galera que compõem o mainstream "desceu" para o underground
Será que não somos grandinhos demais para continuarmos nos separando e distanciando com base em termos como underground e mainstream numa cidade como Marília?

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