quarta-feira, 20 de junho de 2012

Cinza não é preto nem branco.

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(...)
O barco ligou novamente o motor, já estava com a portinhola da escada devidamente recolhida e nós sentados no estofado. Aliás, eramos quatro ajoelhados olhando para trás, para a água, e uma sentada sem olhar muito para trás; pensei que talvez pelas debilidades da idade não conseguisse se ajoelhar com a mesma facilidade que os demais.
Conforme o barco ia se distanciando do ponto em que havia parado em meio a um oceano azul esverdeado (em que o reflexo do sol chegou a castigar meus olhos), meu olhar perdia de vista a igreja próxima à orla. Recordei-me do início do texto clássico de Malinowski, que narra algo próximo ao oposto do que eu vivia: ele foi deixado na praia de seus nativos, e o barco partia mar a dentro.
Não deixamos ninguém na praia, talvez tenhamos prestado a "última homenagem" a um dos estágios daquele corpo que, já há alguns meses, existe apenas sob a forma de lembranças, para mim, poucas

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(...)
Minha mãe não anda de barco no mar, o balancê da embarcação lhe faz um mal tremendo. Certa vez, numa dessas viagens comigo e minha irmã, fizemos um passeio numa dessas escunas, e recordo-me dela por todo o restante do dia, e também o seguinte, reclamando da zonzice na alma.
Portanto, não foi conosco, mas queria também realizar o último contato com aquilo que entendi ser a representação de um corpo (não era nem preto nem branco, eram cinzas). Foi a única que o pegou nas mãos, a unica que, ousaria dizer, o acariciou na despedida.

[1]
Saímos de São Paulo bem cedo, eu não sabia ao certo como se daria a cerimônia, se seria cerimônia, se seria mera ação. Exceto os filmes que tratam com ironia a temática concreta do pós-morte, não sabia como seria. O tamanho da embarcação (embora já questionasse pra que uma) e até onde iríamos eram duas dúvidas. 
Entendia que eram ações mais simbólicas do que práticas. E isso foi uma das únicas coisas que eu acertei: quanto simbolismo nestas ações, desde a fria delicadeza com o material ex-corpo, até o cuidado com a fita adesiva que colava o papel que embrulhava as flores que jogamos ao mar.



Outra coisa que confirmei é que às vezes o valor que damos à morte é proporcional ao desvalor que damos à vida. E isso chateia um pouco.
Ps: ao término do jogo, na última quarta, meu pai disse: "meu pai se divertiria vendo essa molecada do santos levando essa invertida".

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