sábado, 23 de junho de 2012

Campainha.

Sempre que chega em casa ela grita o meu nome. Engrossa a voz, faz uma graça e tudo. Quando chega em casa, sendo convidada ou não. Normalmente eu convido. Eu até tenho campainha, ela sabe, mas, mesmo assim, faz questão de dizer o meu nome. Com letra maiúscula no começo e tudo.
Desta vez, após dizer a ela que abrisse a porta e entrasse, pois esta estava destrancada, ela passou pela cozinha, onde eu passava um café, e já se acomodou em um dos dois sofás da sala. Terminei de preparar o café, coloquei em uma xícara para mim (não ofereci para ela nem nada) e me sentei no sofá de frente para o que ela estava.
Não a cumprimentei nem nada.
Sentei-me, dei um gole no café e desamarrei os nós dos tênis, sabendo que ela me observava em cada ato, mas cético quanto a presença dela ali.

-Estou sozinho - eu disse.
-Interessante - ela respondeu.
Fiquei calado.
-Devo dizer algo? - rompeu o silêncio.
(ergui os ombros).
-Devo fazer algo? - insistiu.
(ergui a sobrancelha direita).

Ainda bem que ela fez. 
Não sei se eu faria.


Um comentário:

pedro meinberg disse...

ou cara!! este é um belo micro-conto, eu acho que podemos assim chamá-lo embora eu não tenha gabarito nenhum para outorgar a algum texto o status de "conto", "poesia", "romance"... mas gostei bastante. lembra dalton trevisan, "micro-contista", lá de curitiba. se não leu, vale a pena ler.

ps.: talvez cientistas sociais estejam aptos somente a credenciar uma "crônica", gênero literário mais próximo dos nossos "ensaios" e "artigos".