sexta-feira, 29 de junho de 2012

Nossas Orquídeas.


Ela era daquele tipo orgulhosa, apegada ao que fazia, adoradora de seus gostos, cultivadora de suas preferências e, muitas vezes, publicitária de si mesma: não bastava ter os gostos e praticar as preferências, tinha que ir lá e dizer que estava fazendo, mostrar ao mundo, bradar aos vizinhos etc.
Dentre estes gostos, cultivados com a delicadeza com que se olha para uma orquídea florescendo, estava o seu café. Passado todo dia de manhã em um filtro de pano, que enxaguava por três vezes e deixava pendurado em um varal, secando ao sol, para no dia seguinte ser utilizado novamente.
Às vezes, nos períodos de vacas magras, o café comprado e saboreado não era dos melhores, mas ainda assim, era café, e mesmo assim ainda chamava um ou outro vizinho para que o tomassem juntos. 
Certa vez, já naqueles tênues instantes entre o fim da noite de sexta e o início do sábado, quando chegava de volta ao prédio, encontrou-se na portaria com o rapaz do 54: o porteiro fazia a ronda pelo estacionamento, e ambos o esperavam retornar para abrir o portão.
Papo vai, papo vem, ela se apresentou a ele, em tom jocoso de piadas de vizinhos, disse que ouvia os passos dele, pois morava no 44. 
O porteiro chegou, pediu desculpas pela demora, a moça disse que tudo bem, o rapaz apenas lhe desejou bom trabalho e bom dia. E foram caminhando rumo ao corredor do elevador. 
Entraram, ela apertou o botão do 4º andar, ele não apertou o do 5º. Enquanto a porta se fechava, ele disse:

-Não vou pro quinto agora não.
-Ah, vai pra onde?
-Vou esperar você me convidar pra tomar aquele café que passa todo dia de manhã, e que o cheiro entra pela janela da minha cozinha.

Ela sorriu: é bacana quando alguém se refere de forma doce às nossas orquídeas. 

Abriu a porta, convidou o moço a entrar e "ficar a vontade"; ele fechou a porta e disse: "parece que eu conheço esse apartamento", ela - colocando a água na caneca para ferver - sorriu, de costas para ele.
Ainda de costas, o ouviu dizer:
-O curioso é que você tem cara de quem não faz um café gostoso.

O pote com o pó de café voltou, da sua mão, para o armário; o gás, que gerava o fogo, que esquentava a água, foi desligado; o sorriso sumiu; e ela se virou para o rapaz e disse:
-É tão chato quando se referem de forma amarga às nossas orquídeas.

Ele não entendeu bem, apenas aproveitou que o elevador ainda estava no 4º, para subir ao 5º. E lá de cima sentir o cheiro do café que não provaria.

Como sempre...

Partindo.
Há uma música do Dance of Days, que não é uma das minhas favoritas, mas foi uma das primeiras que conheci da banda, lá pelos idos de 2004, e, por ter sido uma das primeiras, tem aquele ar de "especial" para mim. Trata-se de "Buck Rogers e o eterno retorno". Rogers é personagem de ficção, daquelas coisas espaciais que envolviam/previam um futuro fantasticamente engenhoso, digitalizado e tudo o mais para a humanidade. A partir disso, o Nene escreveu esta bela música.
Na música "Buck Rogers" há um trecho que sempre me tocou:

"Sinto que já vi esse lugar,sinto que já estive aquinão faz tempoe caminhamos tanto tanto em vão".

E por que estou dizendo isso? 
Pois - e já resmunguei tantas vezes aqui sobre isso - os constantes "vai e volta", de São Paulo pra Cá, e Daqui pra São Paulo, são extenuantes. Cansativos mesmo. E sempre que estou num lugar e preciso ir pra outro dá aquela preguiça, aquele suspiro, aquela vontade de ficar mais um pouco e não ir. Seja estando lá, seja estando cá.
Realmente, há retornos que soam como "sinto que já estive aqui não faz tempo", e ai vai, e pega carona ou vai pra rodoviária, arruma mala, esvazia mochila...
Às vezes me sinto como "Gabriel Coiso e a eterna ralação de peito".
E ai, mais uma vez, vamos lá, arrumar malas e entrar em "férias", que tem tudo para não serem aquele período de descanso puramente, mas sim de ser uma continuidade do que não fiz neste semestre, e que faz-se necessário para encerrar o próximo, e começar o seguinte ao próximo etc, etc, etc.



Como sempre: partindo.
Como sempre: ralando o peito.



segunda-feira, 25 de junho de 2012

Móveis.

Não se movem sozinhos.
Não servem apenas como móveis.
Não comunicam apenas móveis,
(Tampouco a mobilidade que devemos ter).
Não se vendem sozinhos.
Quando a venda,
Não são apenas mercadorias.
Mais do que isso,
São móveis,
E mobilidades, 
Em franca exibição.

Móveis, 
Mexeram comigo.
Móveis.
Não era hora de ficar imóvel.

domingo, 24 de junho de 2012

Toda Feijoada houver nessa vida...

Quem me conhece, convive comigo ou tomou um refresco em porta de role comigo, já me ouviu dizendo que se a vida fosse boa, se chamaria feijoada completa.

Certa vez, havia feijoada para um batalhão, não sei, talvez chegássemos a cem pessoas. Era necessário comer e, após saciar-se com a comida, lavar os pratos e talheres utilizados. Como tudo demorava, por conta da fila que o batalhão formou, rapidamente me ajeitei no início da fila, para ser um dos primeiros a me servir daquela iguaria gastronômica.
Enchi o prato, comi bem, era saborosa e cheia de carne seca, linguiça calabresa e paio. Não era uma feijoada completa [com costelinha e coisas do gênero] mas era uma feijoada. Era a feijoada, construída por uma merendeira do MST.
Quando fui lavar os pratos e talheres que utilizei, outra longa fila, tão longa que demorei para chegar à pia e aos detergentes. Lavados e enxugados os utensílios, notei que não havia mais fila para se servir da comida, e ainda muito arroz, feijão preto, couve e farinha nas panelas e cumbucas. Não tive dúvidas, e montei outro pratinho.
O comi, já com maior vagarosidade que o primeiro, e, para dar uma breve descansada antes do exercício com a esponjinha, dediquei-me a conversar com amigos e colegas. Um deles ainda não havia comido, e disse que iria se servir. Fui com ele, e construí o terceiro monte Sinai de Feijoada que coloquei para dentro de meu estômago no início da tarde daquele domingo.

A vida ainda chama vida, e a feijoada é apenas feijoada.
Mas penso: por que não tocar uma vida com a minha lógica dos dias de feijoada? Tal qual neste relato acima.
E me respondo, com outra pergunta: eu aguento?





sábado, 23 de junho de 2012

Campainha.

Sempre que chega em casa ela grita o meu nome. Engrossa a voz, faz uma graça e tudo. Quando chega em casa, sendo convidada ou não. Normalmente eu convido. Eu até tenho campainha, ela sabe, mas, mesmo assim, faz questão de dizer o meu nome. Com letra maiúscula no começo e tudo.
Desta vez, após dizer a ela que abrisse a porta e entrasse, pois esta estava destrancada, ela passou pela cozinha, onde eu passava um café, e já se acomodou em um dos dois sofás da sala. Terminei de preparar o café, coloquei em uma xícara para mim (não ofereci para ela nem nada) e me sentei no sofá de frente para o que ela estava.
Não a cumprimentei nem nada.
Sentei-me, dei um gole no café e desamarrei os nós dos tênis, sabendo que ela me observava em cada ato, mas cético quanto a presença dela ali.

-Estou sozinho - eu disse.
-Interessante - ela respondeu.
Fiquei calado.
-Devo dizer algo? - rompeu o silêncio.
(ergui os ombros).
-Devo fazer algo? - insistiu.
(ergui a sobrancelha direita).

Ainda bem que ela fez. 
Não sei se eu faria.


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Cinza não é preto nem branco.

[2]
(...)
O barco ligou novamente o motor, já estava com a portinhola da escada devidamente recolhida e nós sentados no estofado. Aliás, eramos quatro ajoelhados olhando para trás, para a água, e uma sentada sem olhar muito para trás; pensei que talvez pelas debilidades da idade não conseguisse se ajoelhar com a mesma facilidade que os demais.
Conforme o barco ia se distanciando do ponto em que havia parado em meio a um oceano azul esverdeado (em que o reflexo do sol chegou a castigar meus olhos), meu olhar perdia de vista a igreja próxima à orla. Recordei-me do início do texto clássico de Malinowski, que narra algo próximo ao oposto do que eu vivia: ele foi deixado na praia de seus nativos, e o barco partia mar a dentro.
Não deixamos ninguém na praia, talvez tenhamos prestado a "última homenagem" a um dos estágios daquele corpo que, já há alguns meses, existe apenas sob a forma de lembranças, para mim, poucas

[3]
(...)
Minha mãe não anda de barco no mar, o balancê da embarcação lhe faz um mal tremendo. Certa vez, numa dessas viagens comigo e minha irmã, fizemos um passeio numa dessas escunas, e recordo-me dela por todo o restante do dia, e também o seguinte, reclamando da zonzice na alma.
Portanto, não foi conosco, mas queria também realizar o último contato com aquilo que entendi ser a representação de um corpo (não era nem preto nem branco, eram cinzas). Foi a única que o pegou nas mãos, a unica que, ousaria dizer, o acariciou na despedida.

[1]
Saímos de São Paulo bem cedo, eu não sabia ao certo como se daria a cerimônia, se seria cerimônia, se seria mera ação. Exceto os filmes que tratam com ironia a temática concreta do pós-morte, não sabia como seria. O tamanho da embarcação (embora já questionasse pra que uma) e até onde iríamos eram duas dúvidas. 
Entendia que eram ações mais simbólicas do que práticas. E isso foi uma das únicas coisas que eu acertei: quanto simbolismo nestas ações, desde a fria delicadeza com o material ex-corpo, até o cuidado com a fita adesiva que colava o papel que embrulhava as flores que jogamos ao mar.



Outra coisa que confirmei é que às vezes o valor que damos à morte é proporcional ao desvalor que damos à vida. E isso chateia um pouco.
Ps: ao término do jogo, na última quarta, meu pai disse: "meu pai se divertiria vendo essa molecada do santos levando essa invertida".

terça-feira, 19 de junho de 2012

Aqui é para o Jabaquara?

(...)
Desci a escada da estação Sé com os olhos atentos no homem branco, de cabeça raspada e jaqueta verde com motivos nacionalistas que estava alguns degraus atrás de mim.
Logo que cheguei à plataforma apoiei-me em uma das barras de ferro que orienta o posicionamento das pessoas para a espera do vagão. Tratei de olhar para lá e para cá, e repetir o movimento, na tentativa de certificar-me de que o careca não estava mais perto de mim.
Numa das olhadas, que acabou por se tornar a última, uma jovem mulher, que estava apoiada na mesma barra de ferro que eu, fixou o olhar em mim e disse:
-Aqui é para o Jabaquara?
-Isso - foi o que consegui dizer.

Era linda.
Entramos no mesmo vagão, fiquei em pé próximo de uma das portas, e ela se sentou em um banco, de frente para mim. Olhei para ela mais algumas vezes - era impossível não fazê-lo - até que descesse na Vila Mariana.
Era realmente linda.

Fiquei pensando, quantas mulheres lindas passaram despercebidas por mim nesta vida, quantas passarão despercebidas, por nunca terem me perguntado (ou, pois jamais me perguntarão) se "aqui é para o Jabaquara?".


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Vizinho do Velório.

Começo com um trecho de 15 de Maio de 2010 (e a infernal repetição): 


"10:40, apontei o nariz na rampa com a certeza da obrigação, em tons de dever, de ir embora daqui para voltar mais tarde, talvez só no outro mês, no mínimo alguns dias.
O que me fez pensar que, independentemente da hora e da situação, não me esforço muito para ser simpático.
E ai tudo bem, volto no final do mês; e agradeço a um deus que não acredito."

***

Acho que superei a "não simpatia", devo dizer. Nestes dois anos e um mês (para ser romanamente exato) peitei a antipatia que me parecia inerente, e sou mais aberto socialmente. O que não quer dizer menos crítico; ou menos irônico; ou que me divirta mais; ou que não seja tão chato, não sempre.
Ou que tenha superado.
Como era o slogan daquela empresa de caminhões para mudança? "o mundo gira, a Lusitana roda"?. 
As coisas giram, passam, rodam, as vivemos etc. É o ritmo.
Mas, nos últimos 4 anos - que parecem 40 - sempre chega uma hora que não dá mais. O giro se torna rooto rooter, uma brincadeira besta de um "professor" que tive: erguia os meninos no ombro e os girava por longos segundos, até que um saiu da sala de aula cambaleando em um suntuoso vômito.
E, numa mescla desse giro, com o nariz apontado, ainda, na mesma rampa e o ar tão Lusitana que me bate na face, fecho o portão e vou.
Vou, e para os meus trajetos mais centrais, sempre que vou passo pelo Velório (é assim desde 2009), e às vezes é ruim ter que passar pelo cortejo, ou apertar o passo para não ter de esperá-lo passar pela rua. 
Não é legal ser vizinho do velório.
Já é fim do mês, fim do semestre. 
Mas eu volto, como sempre, sem jamais agradecer a deus algum, e, certamente, mais forte.
A ideia de ir é essa.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Gravidade.

No dicionário Michaelis:
gra.vi.da.de
sf (lat gravitate) 1 Qualidade de grave. 2 Astronáut Efeito, na superfície de um corpo celeste, de sua gravitação e da força centrífuga produzida por sua rotação. 3 Fís Força de atração da massa terrestre; força atrativa que solicita para o centro da Terra todos os corpos (...).


Na primeira definição do termo, me atrevo a pensar o "grave" sob duas perspectivas: a musical e a adjetiva. Na musical, sorrio, por ter encontrado na afinação em Fá do violão uma forma de tocar que combina melhor com uma forma de cantar que agrada, tanto às minhas cordas vocais quanto a meus tímpanos. Acho bonito o grave, estilo Bill Callahan. 



Enquanto adjetivo, grave é comumente pejorativo. "Acidente grave", "situação grave", "devido à gravidade da situação" etc. É sinônimo de seriedade, talvez seriedade caminhando para as últimas e péssimas conseqüências. 
Grave, como diriam os Super Fofos: "isso é sério".


Não entendo muito sobre a segunda definição, apenas recordo-me das imagens criadas nesta cabeça criativa a partir do Major Tom, cuja nave espacial parece saber o caminho a seguir
Por vezes fechei os olhos - deitado nalgum colchão - e me imaginei com o corpo solto, deixando que este flutuasse em um caminho muito peculiar:


Na terceira definição de gravidade, acho curioso pensar a "força atrativa que solicita para o centro da Terra todos os corpos". Aquela força que nos mantêm no colchão, que nos mantém em pé e andando.
Por vezes a força que - metaforicamente - nos mantém inertes, esperando o que virá, o que vai virar. Uma força que nós imprimimos a nós mesmos, em um posicionamento de espectador calado, de platéia de si mesmo. Tal qual Zeca Pagodinho, "deixa a vida me levar":


Entregar-se às forças de gravidade, sejam as do colchão, sejam as celestiais, sejam as cotidianas, soa-me como sendo uma imposição grave; talvez seja melhor tentar tomar algumas rédeas da vida, e cantar sozinho outra canção em Fá. 
Ou mesmo, encerrando esse monólogo com Colligere, creio que valer-se de todas as gravidades (seja o tom grave e pesado dos nossos dias, seja aquilo que nos atrai rumo ao centro da terra) com cautela seja o ideal: talvez fosse melhor estar sempre com os pés no chão:


Sei lá por quais razões o blogspot não está deixando o texto branco, o jeito, então, foi enfiar esse fundo preto em todos os parágrafos.

sábado, 9 de junho de 2012

Melando.

Lembro-me de uma piada, contada na escola por alguns meninos quando já eramos relativamente grandinhos (comparando-se com o período da vida que se passa na escola). Aliás, era mais uma tentativa de contar piada; ou algo que diziam na tentativa de ser uma piada. Enfim, não tinha graça, e, talvez por isso, não pudesse ser considerada uma piada.
Diziam assim: "ôh, sabe aquele negócio que você tava agitando?", o interlocutor, sem compreender, respondia: "que negócio?", e repetiam: "aquele negócio que você tava agitando", "que negócio?", "aquele negócio que você tava agitando, melou". E ai a pessoa que havia sido abordada, normalmente permanecia calada, com cara de esperma amanhecido ao compreender o intuito irônico e pessimamente masturbatório da "piada" em si.

Há pessoas em meu cotidiano com quem sempre tenho o pé atrás, seja para sair de casa ou para recebê-las em casa. Algumas por agitarem de mais, outras por sempre melarem de mais.
E fico realmente triste, quando confio na agitação que uma pessoa promove, mas, no fim das contas - como ocorre quase sempre - é esta mesma pessoa quem abdica de prosseguir na agitação, seja entregando-se a um amolecimento súbito, seja cedendo a uma melação precoce.


Às vezes você está no rolê, com as pessoas, comprometido com ele e com elas. Mas nem todos vem a coisa assim, e preferem pensar num falso bem estar individual do que considerar o coletivo. Que se fodam.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

falta.

sinto
falta
mesmo
(e
isto
é
irrisório
ao
fim)
de
quando
estava
tudo
legal
e
nós
bradávamos
isso
para
nós
mesmos
de
uma
forma
tão
peculiar
e
tua
que
se
tornou
nossa.
sinto
falta
disso.



terça-feira, 5 de junho de 2012

Uma Foto - I.

[Sugiro que se leia ouvindo a música abaixo, até por que, escrevo ouvindo-a; certamente a leitura se encerrará antes da música, por favor, não interrompa a música]

Naquela Foto
Só dá para ver um de seus dois braços, 
o outro está encoberto pelo meu corpo, pois me abraçava.
O braço que se vê ergue uma garrafa, 
que você beija de olhos fechados.
Você beija de olhos fechados.
Não há nenhum luxo nesta imagem; 
exceto o momento.
Eu não estou bonito, 
mas estou, e isso me enche os olhos.
Chuva de Pr/A arte diz o/Suvinil.
De olhos fechados;
De olhos.

Void.

A propósito, não estou falando desta foto.





domingo, 3 de junho de 2012

Underground x Mainstream?

Como faço frequentemente em sextas e/ou sábados (e já fiz em quartas, quintas e domingos) ontem [02/06] sai de casa para ir ao Cão Pererê prestigiar e fotografar uma noite de Roque. O Cão Pererê é o meu local favorito para fazer rolê em Marília, para quem não conhece, é um ponto que classifico como dos mais fantásticos, não só na cidade, como em um contexto geral de espaços para as artes que conheço por ai. Lá já presenciei exposições, shows de roque, forró, samba, jazz etc, oficinas, ensaios, intervenções teatrais e até reuniões. 
Na noite do último sábado houve no Cão show do Rock Rocket, de São Paulo, com abertura de duas bandas Marilienses: o Japona Invocada e o Blue Draft (que estreava nos palcos). 


Cheguei cedo e sozinho, como costumo fazer muitas vezes. Eu gosto de ficar sentado sozinho acompanhando o movimento aumentar, ou conversando com as demais pessoas que chegam cedo e estão por lá sozinhas, enquanto seus amigos e parceiros não chegam.
Neste "meio tempo" notei três fenômenos distintos do que ocorre normalmente na esquina em que se localiza o Cão: a grande maioria do público chegou de carro (ocupando todo o estacionamento do supermercado ao lado e também lotando as guias altas da avenida) e muitos carros, dirigidos por um homem ou uma mulher, encostavam em frente ao bar (em frente!), do veículo descia algum, alguma, algumas ou alguns jovens (bem jovens mesmo) e o motorista passava um tempo ainda espiando a movimentação no local; interpretei serem pais deixando filhos.
Houve ainda um casal que, após deixar duas garotas na porta da casa, estacionou o carro no alto da avenida, desceu do veículo e permaneceu em torno de cinco minutos observando o movimento. Os dois voltaram para o carro e passaram em frente ao Cão em velocidade reduzida, com os olhos atentos nas pessoas que já se aglomeravam na porta.

O terceiro fenômeno que notei no início da noite, ainda com relação ao público - e ainda fora da casa - dizia respeito à composição do público, um pessoal diferente do que costumar aparecer no Cão (também os valores dos ingressos eram bem diferentes, em vez dos R$5/7/10 das festas, cobrou-se R$15 e R$20).  E diferente não apenas em termos de estilo, mas em termos concretos: eu nunca havia visto aquelas pessoas lá, muitas já tinha visto em outro ponto da cidade, mas isso abordarei abaixo. Conforme apontou um cidadão conhecido como Rato no Facebook: "as pessoas que você conhece não tinham vintão".
Sociologicamente, estes três fatores podem ser pensados a partir de alguns pressupostos notados empiricamente no evento: um deles é o fato de que a banda principal da noite tem projeção na mídia (MTV), o que acaba por atrair um público que não está lá muito disposto a ir nos eventos em que rolam bandas como o Zababô Zebrinha ou o Nullius Avarus, e outras tantas que fazem "som próprio" e o divulgam em páginas e páginas virtuais, por isso nunca havia as visto no Cão; esta exposição na mídia também, entendo, instigou a ida de uma grande quantidade de "adolescentes" ao rolê. 
O preço dos ingressos também é importante, pois, como citei o Rato acima, acabou por "recortar" um público específico: o pessoal da Unesp e uma galera que 'mexe' com o roque na cidade não compareceu.


Após os shows, quando os carros começaram a partir pelos mais diversos sentidos possíveis naquela fina avenida, e outros tantos começaram a aparecer para recolher os jovens, muitas das pessoas "de sempre" no Cão, como fazem sempre, ficaram ainda por ali, conversando, bebendo, fumando etc. O Noel, do Rock Rocket, estava por ali sozinho e fui lhe perguntar se interessava receber as fotos que tirei, ele me passou um e-mail  para enviá-las. Espontaneamente, começamos a conversar: música, roque, tenho uma banda, São Paulo, a cena, as cenas, circulação... Essas coisas de sempre.
Eis que um jovem, que se enquadra no grupo dos que eu nunca havia visto no Cão Pererê, entrou no assunto, e, tentando contextualizar Noel no roque mariliense, realizou uma fala valiosíssima para mim: "aqui em Marília tem o role underground que rola aqui no Cão, e o mainstream que rola no Berlin". 

Com base na contextualização realizada pelo jovem - que, repito, eu nunca havia visto no Cão - encerro esta longa postagem, com duas perguntas, que se completam e anulam: na noite de dois de junho o Cão Pererê viveu uma noite de mainstream ou a galera que compõem o mainstream "desceu" para o underground
Será que não somos grandinhos demais para continuarmos nos separando e distanciando com base em termos como underground e mainstream numa cidade como Marília?

sábado, 2 de junho de 2012

2 coisas que me chateiam.

[e que talvez eu não tenha nem direito de me chatear visto que são escolhas pessoais de pessoas que não eu].

1) Quem gosta de fumar, tem exatamente onde e com quem comprar, vive fazendo corre mas é contra a legalização/liberalização, por achar que "vulgarizaria" e/ou "popularizaria" demais a coisa.

2) Quem se relaciona monogamicamente, "passa vontades", sabe que o parceiro também "passa vontades", mas se recusa a considerar qualquer possibilidade de 'outras formas' de relacionamento, mantendo os desejos por outras pessoas dentro da esfera do "crime".

[talvez eu tenha o direito de me chatear por sempre acabar caindo nalguma das falácias acima apontadas].