quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ter e Ser.

Há algum tempo (consigo marcar bem este tempo: há um ano e algumas semanas, quando conversava com a Renata sobre os rumos do CabouTchan) comecei a refletir sobre a enorme diferença que há entre 'ter uma banda' e 'ser uma banda'. Conhecendo várias bandas de lá pra cá, e tendo vivências muito bacanas neste meio, não consegui deixar de pensar a o fazer musical coletivamente (e com outros fazeres, não tenho dúvida) com uma larga cisão de possibilidade que extremo aqui: ter e ser, de modo que - talvez devido à obviedade do assunto - este breve texto será dividido em duas sucintas partes.

1) Ter uma banda
Para mim, 'ter uma banda', é como ser criança e ter uma caixa de brinquedos. Lá você tem um ou dois sacos com peças de lego, uns bonequinhos de metal que um primo lhe deu, tem também alguns carrinhos, possivelmente bonecas, alguns brinquedos que já se quebraram mas continuam por lá etc. Ai num dia você decide brincar com os legos, noutro encontra vestígios de um "Forte Apache", há ainda os dias em que não quer brincar com nada do que tem lá, e vai desenhar, assistir TV, encher o saco de algum adulto (normalmente minha opção era essa).
Ter uma banda, para mim, é isso.
Você tem amizade com alguns comparsas que tocam outros instrumentos, se encontram para tocar quando possível, são chamados pra tocar aqui ou ali por algum amigo de algum dos amigos que compõem este grupo de amigos que tocam entre amigos. Se você não está afim de tocar (neste caso, seria correto chamar de "ensaiar"?) naquele dia, não vai, desmarca etc.
É algo "livre, leve, solto". Ousaria comparar também com o campo relacional do "ficar".
Outro dia uma amiga disse-me que fica com vários caras, mas que "tenho um fixo, é mais garantido".
Ter uma banda pode ser "ter um fixo", para quando bater aquela vontadezinha de fazer uns sons.

2) Ser uma banda
Como diz uma gíria que percorre as páginas virtuais e conversas faladas por ai, "agora a porra ficou séria"; e séria no sentido de dedicar, investir e trocar seriedade.
Em 1995, durante um passeio pelo lendário Shopping D, em São Paulo, meu avós me compraram um pequeno bichinho de pelúcia felpuda preta e branca (que leva no peito um escudo do Corintias); o guardo até hoje e guardarei até sempre. Ele já passou por prateleiras, caixas, sacos plásticos, está em sua terceira casa sem previsão de que seja a última; quando me mudei para esta residência atual, o guardei dentro de um saquinho, em uma caixa de sapatos junto de outra relíquia da vida. Há anos não 'brinco' com ele, e o tenho mais como uma representação de um tempo da vida do que como um "brinquedo": talvez nele, muito do que veio, fiz e vivi após aquela tarde de domingo em um Shopping.
Neste pequeno objeto material (e felpudo) encontro diversos momentos de alegria, saudades, responsabilidades, construções etc.
Assim como há uma substancial diferença entre brincar com um soldadinho qualquer, e carregar um bicho de pelúcia felpuda preta e branca (com escudo do Corintias), ser uma banda, para mim, não é escolher "com qual brinquedo brincarei hoje?", mas sim apontar - repleto de certezas - "essa brincadeira faz e traz sentido pra mim e eu quero brincar disso".
De certa forma, também pode ser visto como "ter um fixo", mas um fixo com quem se vai ouvir, discos, assistir filmes, pensar sonoridades em termos de 'propostas', 'construções' e 'trajetórias'; não são apenas alguns beijinhos.
Como disse acima, aqui 'a porra fica séria', por que não se "tem", mas se "é".

Pondero: um não é melhor que o outro, depende das suas perspectivas (e sinceridade para com os amiguinhos), tanto para as brincadeiras, quanto para as bandas.

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