domingo, 8 de abril de 2012

Não é lazer.

Em 2010, quando comecei a tentar começar uma pesquisa sobre torcedores e futebol, fui orientado a procurar bibliografia sobre o lazer, área muito relevante nas ciências sociais brasileiras, sobretudo a partir da obra do José Guilherme Magnani. Formalmente a pesquisa caminha, tropica, levanta, senta pra descansar, volta com pique de biotonico, pára e dorme por uns dias; mas eu estou sempre por ai, caminhando e pensando, muitas vezes com base nas leituras desse cansativo curso que me meti a fazer, e, mais ainda, penso desta maneira quando estou em momentos tidos como "de lazer".

Por que estou falando sobre isso?

Na madrugada de sexta para sábado fui chamado naquele mecanismo de conversa on laine por uma boa pessoa, a pergunta que ela me fez: "vamos no Fu Faiters amanhã?", a minha resposta: "ah, tô sem grana alguma pra gastar com show", a réplica dela - improvável, inesperada, quase icogitável: "mas estou te oferecendo um ingresso".
Neste caso a situação mudou, procurei um ou outro que o compra-se, mas não encontrei, e acabei por aceitar o ingresso para ir ao Fu Faiters.

Um show, na definição do Magnani - e de consumidores comuns, como eu, você e o miltinho - pode ser considerado uma forma de lazer, um espaço para divertimento. De fato, é, mas pondero para mim mesmo que "depende".

O Fu Faiters é uma boa banda, não nego; na juventude grunge que vivi, repleta de noites viradas em casas na Zona Leste de São Paulo, em que tocavam apenas conjuntos covers de Nirvana, Alice In Chains, Pearl Jam, Silverchair, Soundgarden, L7 e Fu Faiters, a última nunca foi-me atraente. Gostava, curtia, me divertia - cumpria, assim, a função de lazer - mas não me recordo de passar tardes em casa contemplando cd's ou músicas/letras da banda.
Enfim, desloquei-me até o Joquei Clube para o show, enfiamos o pé na areia, na grama, nos apertamos, mesmo estando distante do palco, estávamos apertados. Alguns minutos para o show, e eu já estava torto, esmagado, ainda tinha fome, já derretia de calor...
Antes disso, gastei 8 reais em um copo de isotônico de cevada pseudo holandês, não tive de gastar mais em razão da bondade dos organizadores do evento, que permitiam levar algumas frutas e bolachas.

Retornemos aos apertos.
O show começou, pula pra cá, é-se arrastado pra lá, o óculos embaça, uma música inteira e ainda não consegui ver os seres humanos que a tocaram sem ser pelo telão*. Duas, três músicas, quatro e chegamos à quinta, dentre as que eu conheço (com o viver do show, notei serem muitas), a minha favorita, mas não pude vibrar. Tontura, moleza, calor, anda pra trás, dá licença pra eu passar, onde fica o posto médico (merda, não tô enxergando nada), cara me ajuda que eu tô mal... De repente um jovem jogava água em minha nuca e outro me segurava, pulei uma grade e um bombeiro me deu um copo d'água, o qual acompanhou uma bolacha integral salgada. Melhorei, e assisti ao show da área dos enfermos.
A banda é boa, já disse. Mas o som não era dos melhores, muitas vezes não consegui distinguir as guitarras ou me concentrar em ouvir o baixo*.

O show foi fantástico, embora, como "grunge de raiz", ouse dizer que se o Kurt Cobain o assisti-se, romperia os laços de amizade com o Dave Grohl para toda a eternidade. Não se tratava de um show de música, de roque. Era um misto disso com um show de carisma, simpatia e 'stand up comedy' do Dave. O que, enquanto 'opção de lazer', engrandece o espetáculo, engrandece a 'opção' - nalguns momentos não consegui parar de rir das gracinhas do ex-garotinho das baquetas nirvanísticas.
Na saída, mais encheção: andar metros e metros novamente por entre areias, gramados, cimentos; não encontrar uma garrafa de água por menos de cinco reais (enfim os ambulantes começaram a enfiar a faca tal qual os os bacanas que organizam os eventos, eles estão certos). Chegar no metrô à meia noite e vinte e não conseguir se quer entrar na estação, quando o estado promete o serviço até à uma da manhã aos sábados. Esperar ônibus, andar (mais), pegar táxi...

A parte boa disso tudo é que por duas horas e meia estive em contato pseudo-semi-direto com uma boa influência, um músico marcante em minha trajetória e dando ouvidos (e corpo todo) à belas canções (mesmo que chegando até mim através de um som ruim). Porém, concluo cientifica e empiricamente, que, para mim, este tipo de evento não é lazer.


*Sobre estar em uma grande arena para acompanhar um show e assisti-lo, sobretudo, pelos telões, faz-me lembrar a ranzinza máxima: "é melhor comprar um DVD e assistir em casa" - ou ficar em casa e acompanhar pelo canal de televisão fechada que o transmitiu - com certas razões.

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