quinta-feira, 5 de abril de 2012

Diploma pra quê?

Fila, em fim de tarde quente, em véspera de feriado, em agência dos Correios, traz, em si mesma, uma tensão própria e unica, quase "exclusiva"; ousaria dizer também que comum e esperada por todos que passam pela porta por necessitar de algum dos serviços desta "empresa".
Neste contexto, um homem e uma mulher jovens adentraram a agência e 'cortaram' a fila, dirigindo-se direto ao primeiro caixa a vagar após a entrada deles. Um homem mais velho, que estava a duas pessoas de alcançar o guichê, assoviou e indicou o restante da fila dizendo com a voz alta: "todo mundo tem que pegar essa fila aqui, que que é isso? Não vai cortar a fila não!".
O homem jovem, como resposta, apontou para a barriga da mulher que acompanhava, e, com calma, foi sucinto: "ela está grávida, tem direito à fila preferencial". Esta resposta foi motivo para a exaltação do homem mais velho, dizendo que "este papo" não existe, que todos tem de pegar a fila, que ele estava a mais de trinta minutos na fila e tra-lá-lá.

Estava iniciada, então, uma bela discussão entre um homem jovem e um homem experiente em uma fila de agência do Correio em fim de tarde de véspera de feriado!

O mais jovem alegava que o senhor não deveria ter ficado na fila, que ele tem o direito de ser atendido preferencialmente em razão da idade. Por outro lado o mais velho alegou não haver na agência nenhuma indicação sobre a preferência para o atendimento, por isso entrou e permaneceu na fila como os demais - e ainda acusou a funcionária de ser "negligente" por atender à moça grávida!
Argumentos vão, ofensas vem, o homem mais velho disse que o mais jovem era um ignorante, e teve como resposta a seguinte frase, dita calma e ironicamente: "ignorante? Eu tenho duas faculdades!"; o mais velho insistiu no argumento de que estavam faltando com respeito aos demais por estarem 'furando a fila', sendo a discussão encerrada mediante o silêncio do homem mais jovem, ignorando as perguntas e afirmações do mais velho.

Chegamos ao ponto que realmente interessa nesta vivência: diploma pra quê? Para encerrar uma discussão com um 'reles' homem que não conhece "seus direitos garantidos na lei" (entre aspas, pois dito pelo jovem)?
Penso que a postura do rapaz tem a ver com o "você sabe com quem está falando?", que o Roberto da Matta trabalha no livro "Carnavais, Malandros e Heróis". Pode-se falar 'desta forma' com qualquer um, mas não comigo, afinal: "você sabe com quem está falando? eu tenho duas faculdades!".

De certa forma 'ter' duas faculdades representa ter grande experiência e acumulo de conhecimentos científicos e/ou práticos diversos, e - considerando o discurso do rapaz - detê-los é antônimo de ignorância, são impeditivos de "ser um ignorante".
O que lhe confere liberdade para rir, ignorar e ser irônico com um homem simples que, não encontrando uma placa falando sobre um direito seu, optou por respeitar os demais (independentemente de idade ou condições físicas) que formavam uma fila por também necessitarem de um serviço daquela "empresa" em um fim de tarde quente numa véspera de feriado.

Um comentário:

Alex Arbarotti disse...

Com certeza! duas faculdades? que tivesse feito cinco ou seis, o que realmente importa é saber lidar com as ações no cotidiano!