domingo, 29 de abril de 2012

"Essa Cidade" - 9/9.


Vi uma maritaca,
Verde e linda.
Cantava, porém,
Desesperada.

Do alto de,
Um telhado.
Vinha seu canto,
Doce, gostoso.

E ela olhava,
Ao seu redor.
Parecia procurar,
Outras maritacas.

Cantou bastante,
Andou também.
Desesperada, desistiu,
Bateu asas e se foi.

Depois voltou,
Com outra.
Duas maritacas,
Nessa cidade?

Devem ter fugido,
De um “pet shop”.
Se cansaram,
E fugiram da gaiola.

Mas agora, livres,
Cantam desesperadas.
A fumaça deve,
As sufocar.

E o barulho,
Coitadas.
Já são três,
Sobre o telhado.

Cantam, cantam,
E me encaram.
Nos olhamos,
Desesperados.

Parecem me convidar,
Para voarmos.
Para abandonarmos,
Essa cidade.

PS: finalizo a publicação desta série, aproximadamente 5 anos após sua escrita. O valor destes grupos de versos não está na escrita ou coisa do gênero, mas sim o fato de que aquele era um período de grandes mudanças, em razão das importantes decisões que estavam por vir. Observo que momentos semelhantes (envolvendo, quiçá, mudar de cidade) estão por vir novamente. Ler (e publicar) as palavras daquele rapaz que escrevia apenas versos no caminho de ida e volta pro cursinho, fez-me ter um pouco de calma para encarar as decisões e mudanças.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

"Essa Cidade" - 8/9.


É pouco o que,
Ainda me atrai.
Nessa cidade,
Pejorativa; má.

O terminal lapa,
Ainda dá gosto.
O fim de noite,
Aqui, é bom.

Vento leve e frio,
Pessoas caladas.
Cansados dessa cidade,
Como eu.

Mas nem todas,
Param e dizem:
“Sumirei, sim,
Dessa cidade”.

Certamente,
Não imaginam.
Os dias acabando,
Longe daqui.

Viver em paz,
Sem esse barulho.
Motores berrando,
Às onze e meia.

Isso é podre,
Tudo de ruim.
Mas esse terminal,
É meu amor aqui.

Nessa cidade,
Porca, podre.
Um lugar que,
Vale a pena.

Um dos últimos,
Devo dizer.
Aqui, dor de cabeça,
Não dói tanto.

Mas é ‘um’ lugar,
Nessa cidade.
Sinceramente,
Não compensa.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

"Essa Cidade" - 7/9.


Embora seja,
Assim, assassina.
Essa cidade,
Sei aproveitar.

Fiquei três horas,
Sentado e inútil?
Sentado, sim,
Inútil, jamais!

Tracei o plano,
De minha fuga.
Para desaparecer,
Dessa cidade.

Tudo tão simples,
E eu sofrendo.
Quase chorando,
No trânsito.

Imaginando cidades,
Que não conheço.
Mas que são,
Diferentes dessa.

Algumas delas,
Possuem faculdades.
E quero estudar,
Como desejo!

E descobri,
Que beleza!
Há bem da verdade,
Eu já sabia.

Marília, ah,
Ela me aguarda.
Ela e sua faculdade,
De sociologia.

Seu marasmo,
Cidade plana?
Muitas árvores,
E sociologia!

Sem transito,
Muitas praças.
Levarei o violão,
Comprarei conhaque.

Vou para Marília,
Minha salvação.
Estudarei para,
Lá estudar.

E então andar,
Só de bicicleta.
Não chorar mais,
Aqui, nessa cidade.

terça-feira, 24 de abril de 2012

"Essa Cidade" - 6/9.


Desejo sair,
Esquecer este lugar.
Dias assim,
São brutais; demais.

Essa cidade,
Não dá escolhas,
Cansar num ônibus,
Ou num carro.

Mas cansará,
Aqui é assim.
Subirei morros,
De bicicleta?

Não tenho opção,
Apenas o ônibus.
E vão-se horas,
Quase três já.

Desejo não mais,
Essa cidade.
Cuspo nela,
E piso em cima.

Desejo árvores,
Por todo canto.
Desejo ruas,
Mais planas.

Desejo o centro,
Perto dos bairros.
Desejo os ônibus,
Não lotados.

Desejo mais,
Paz; tranqüilidade.
Desejo festas,
De alguma fruta.

E minha nova cidade,
Só lotará.
Dois fins de semana,
Por ano.

Não todo dia,
Até domingo.
Como é aqui,
Quero chorar!

Desespero chato,
Não mereço!
Só queria chegar,
Na hora certa.

Mas aqui,
Não pode!
Para onde irei,
Será rotina.

Deixar essa cidade,
Ah, que sonho!
Virará realidade,
Ah, quando virar!

Serei mais feliz,
De bicicleta.
E já tenho,
Meu plano.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

"Essa Cidade" - 5/9.

O cobrador encara,

O rapaz estranho.

Minha cara deve,

Ser de angustia.


Um acidente em,

Um cruzamento.

Cobrador não olhou,

Olha para mim.


Há duas horas,

Escrevendo; no ônibus.

É realmente,

Muito estranho.


Mas os nervos,

Já inflamados.

Se revoltam,

E o encaro.


Quero brigar,

Bater, socar.

Descontar toda,

Essa angustia.


Achar um culpado,

E mata-lo.

Por momentos que,

Vão se esgotando.


É coisa,

Dessa cidade.

É absurdo perder,

Horas no ônibus.


Sentado torto,

Cansado; atrasado.

Sem ter qualquer,

Outra opção.


Estou longe de onde,

Deveria estar.

E não posso levantar,

E ir andando.


Não é possível,

De verdade!

Como sobrevivo,

Nessa cidade?


Que me mata,

Me maltrata.

Me enerva,

Tira-me de mim.


Preciso de outra,

Mais tranqüila.

Aonde eu possa,

Existir.


Sem estas,

Palhaçadas.

Ônibus parado,

Trânsito lento.


Céu cinza,

Mesmo com sol.

Distâncias enormes,

Prédios estúpidos.


Essa cidade,

É assassina.

Mandarei-a logo,

Ao necrotério.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

"Essa Cidade" - 4/9.

O ônibus parado,

Encosto a cabeça.

O vidro treme,

Meu cérebro balança.

Controlo os olhos,

Para não chorar.

Odeio, de verdade,

Essa cidade.

Já é noite,

Fecho os olhos.

Começo a imaginar,

Outras cidades.

Marília,

Americana,

Bauru,

Mineiros do Tietê.

Qualquer uma,

Menos aqui.

Não dá,

Não agüento mais.

Sonho com ruas,

Sempre tranqüilas.

Avenidas principais,

De duas faixas.

O bar novo,

É a noticia!

E transito só em,

Dia de procissão.

A grande balada,

É a pracinha.

Só o violão,

E um conhaque.

Tudo isso que,

Aqui não há.

Sem nada do que,

Aqui me mata.

Essa cidade,

É lixo; podridão.

Asfalto derretido,

E trânsito parado.

Desencosto a cabeça,

Sonho lindo tive.

Bocejo,

E olho ao redor.

Desejo agora,

Chorar, chorar.

O ônibus, acredite,

Nada andou.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

"Essa Cidade" - 3/9.

Quero um lugar,

Mais tranqüilo.

Mais plano,

E menor.


Se eu achar,

Um lugar assim.

Prometo andar,

De bicicleta.


Nas gastar mais,

Com ônibus.

Nem tempo,

Nem dinheiro.


Não agüento,

Não da mais.

Essas distâncias,

São enormes.


E se chove,

Alagamos.

Se faz sol,

Torramos.


Sentado, num banco,

De um ônibus.

Já se foram,

Duas horas.


Os olhos já,

Estão pesando.

Querem muito,

Que eu chore.


Que faça algo para,

Largar essa cidade.

Ela não me merece,

E me mata!


Começo a sonhar,

Com o interior.

O seu marasmo,

E tranqüilidade.


Para essa cidade,

Não tenho mais como.

Ela faz-me, puramente,

Ter-lhe ódio!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

"Essa Cidade" - 2/9.

Não quero mais,

Morar aqui.

Quero fugir,

Ir embora.


Isto é lixo,

Puramente.

Não pode ser,

Sequer reciclado.


Até a louvei,

Mas me cansei.

O transito,

Perdeu a graça.


E nada anima,

Só me canso.

Saio de casa e já,

Quero voltar.


Muito cimento,

É degradante.

Tantos prédios,

Cadê o céu?


Essa cidade,

Não me merece.

Me causa dor,

Angustia, raiva.


Tantas pessoas,

Nada me dizem.

Tantos gritos,

Me atormentam.


Preciso criar,

Um plano.

Para largar,

Essa cidade.


terça-feira, 17 de abril de 2012

"Essa Cidade" - 1/9.

No constante fluxo de perde-acha-recupera-perde arquivos no computador, procurando por um resumo acabei trombando com um documento intitulado "Essa Cidade". São nove grupos de versos - que na época eu chama de "poemas" - escritos em um dia de Maio, Junho, Julho ou Agosto de 2007 (lembro-me apenas que estava frio), no qual perdi a noite trancafiado em um ônibus, enclausurado pelo trânsito em São Paulo.
Publicarei aqui os noves grupos de versos, um por dia nos próximos dias.

Essa cidade I

Cansei,

É a verdade.

Cansei,

Dessa cidade;

Tudo se junta,

E então explodo.

Quanto ódio,

Para tudo!

São ônibus,

Que demoram.

Filas enormes de,

Carros parados.

A fumaça preta,

Me sufoca.

A barulheira,

Credo; credo!

Sempre gostei,

Dessa cidade.

Mas tudo junto,

E fico louco.

E olho ao redor,

Estou atrasado.

E tudo parado,

Não chego hoje.

Sinto-me preso,

Neste ônibus.

A agonia queima,

Quero chorar!

Essa cidade,

É lixo; lixo!

Cansei, quero,

Ir embora!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ter e Ser.

Há algum tempo (consigo marcar bem este tempo: há um ano e algumas semanas, quando conversava com a Renata sobre os rumos do CabouTchan) comecei a refletir sobre a enorme diferença que há entre 'ter uma banda' e 'ser uma banda'. Conhecendo várias bandas de lá pra cá, e tendo vivências muito bacanas neste meio, não consegui deixar de pensar a o fazer musical coletivamente (e com outros fazeres, não tenho dúvida) com uma larga cisão de possibilidade que extremo aqui: ter e ser, de modo que - talvez devido à obviedade do assunto - este breve texto será dividido em duas sucintas partes.

1) Ter uma banda
Para mim, 'ter uma banda', é como ser criança e ter uma caixa de brinquedos. Lá você tem um ou dois sacos com peças de lego, uns bonequinhos de metal que um primo lhe deu, tem também alguns carrinhos, possivelmente bonecas, alguns brinquedos que já se quebraram mas continuam por lá etc. Ai num dia você decide brincar com os legos, noutro encontra vestígios de um "Forte Apache", há ainda os dias em que não quer brincar com nada do que tem lá, e vai desenhar, assistir TV, encher o saco de algum adulto (normalmente minha opção era essa).
Ter uma banda, para mim, é isso.
Você tem amizade com alguns comparsas que tocam outros instrumentos, se encontram para tocar quando possível, são chamados pra tocar aqui ou ali por algum amigo de algum dos amigos que compõem este grupo de amigos que tocam entre amigos. Se você não está afim de tocar (neste caso, seria correto chamar de "ensaiar"?) naquele dia, não vai, desmarca etc.
É algo "livre, leve, solto". Ousaria comparar também com o campo relacional do "ficar".
Outro dia uma amiga disse-me que fica com vários caras, mas que "tenho um fixo, é mais garantido".
Ter uma banda pode ser "ter um fixo", para quando bater aquela vontadezinha de fazer uns sons.

2) Ser uma banda
Como diz uma gíria que percorre as páginas virtuais e conversas faladas por ai, "agora a porra ficou séria"; e séria no sentido de dedicar, investir e trocar seriedade.
Em 1995, durante um passeio pelo lendário Shopping D, em São Paulo, meu avós me compraram um pequeno bichinho de pelúcia felpuda preta e branca (que leva no peito um escudo do Corintias); o guardo até hoje e guardarei até sempre. Ele já passou por prateleiras, caixas, sacos plásticos, está em sua terceira casa sem previsão de que seja a última; quando me mudei para esta residência atual, o guardei dentro de um saquinho, em uma caixa de sapatos junto de outra relíquia da vida. Há anos não 'brinco' com ele, e o tenho mais como uma representação de um tempo da vida do que como um "brinquedo": talvez nele, muito do que veio, fiz e vivi após aquela tarde de domingo em um Shopping.
Neste pequeno objeto material (e felpudo) encontro diversos momentos de alegria, saudades, responsabilidades, construções etc.
Assim como há uma substancial diferença entre brincar com um soldadinho qualquer, e carregar um bicho de pelúcia felpuda preta e branca (com escudo do Corintias), ser uma banda, para mim, não é escolher "com qual brinquedo brincarei hoje?", mas sim apontar - repleto de certezas - "essa brincadeira faz e traz sentido pra mim e eu quero brincar disso".
De certa forma, também pode ser visto como "ter um fixo", mas um fixo com quem se vai ouvir, discos, assistir filmes, pensar sonoridades em termos de 'propostas', 'construções' e 'trajetórias'; não são apenas alguns beijinhos.
Como disse acima, aqui 'a porra fica séria', por que não se "tem", mas se "é".

Pondero: um não é melhor que o outro, depende das suas perspectivas (e sinceridade para com os amiguinhos), tanto para as brincadeiras, quanto para as bandas.

domingo, 8 de abril de 2012

Não é lazer.

Em 2010, quando comecei a tentar começar uma pesquisa sobre torcedores e futebol, fui orientado a procurar bibliografia sobre o lazer, área muito relevante nas ciências sociais brasileiras, sobretudo a partir da obra do José Guilherme Magnani. Formalmente a pesquisa caminha, tropica, levanta, senta pra descansar, volta com pique de biotonico, pára e dorme por uns dias; mas eu estou sempre por ai, caminhando e pensando, muitas vezes com base nas leituras desse cansativo curso que me meti a fazer, e, mais ainda, penso desta maneira quando estou em momentos tidos como "de lazer".

Por que estou falando sobre isso?

Na madrugada de sexta para sábado fui chamado naquele mecanismo de conversa on laine por uma boa pessoa, a pergunta que ela me fez: "vamos no Fu Faiters amanhã?", a minha resposta: "ah, tô sem grana alguma pra gastar com show", a réplica dela - improvável, inesperada, quase icogitável: "mas estou te oferecendo um ingresso".
Neste caso a situação mudou, procurei um ou outro que o compra-se, mas não encontrei, e acabei por aceitar o ingresso para ir ao Fu Faiters.

Um show, na definição do Magnani - e de consumidores comuns, como eu, você e o miltinho - pode ser considerado uma forma de lazer, um espaço para divertimento. De fato, é, mas pondero para mim mesmo que "depende".

O Fu Faiters é uma boa banda, não nego; na juventude grunge que vivi, repleta de noites viradas em casas na Zona Leste de São Paulo, em que tocavam apenas conjuntos covers de Nirvana, Alice In Chains, Pearl Jam, Silverchair, Soundgarden, L7 e Fu Faiters, a última nunca foi-me atraente. Gostava, curtia, me divertia - cumpria, assim, a função de lazer - mas não me recordo de passar tardes em casa contemplando cd's ou músicas/letras da banda.
Enfim, desloquei-me até o Joquei Clube para o show, enfiamos o pé na areia, na grama, nos apertamos, mesmo estando distante do palco, estávamos apertados. Alguns minutos para o show, e eu já estava torto, esmagado, ainda tinha fome, já derretia de calor...
Antes disso, gastei 8 reais em um copo de isotônico de cevada pseudo holandês, não tive de gastar mais em razão da bondade dos organizadores do evento, que permitiam levar algumas frutas e bolachas.

Retornemos aos apertos.
O show começou, pula pra cá, é-se arrastado pra lá, o óculos embaça, uma música inteira e ainda não consegui ver os seres humanos que a tocaram sem ser pelo telão*. Duas, três músicas, quatro e chegamos à quinta, dentre as que eu conheço (com o viver do show, notei serem muitas), a minha favorita, mas não pude vibrar. Tontura, moleza, calor, anda pra trás, dá licença pra eu passar, onde fica o posto médico (merda, não tô enxergando nada), cara me ajuda que eu tô mal... De repente um jovem jogava água em minha nuca e outro me segurava, pulei uma grade e um bombeiro me deu um copo d'água, o qual acompanhou uma bolacha integral salgada. Melhorei, e assisti ao show da área dos enfermos.
A banda é boa, já disse. Mas o som não era dos melhores, muitas vezes não consegui distinguir as guitarras ou me concentrar em ouvir o baixo*.

O show foi fantástico, embora, como "grunge de raiz", ouse dizer que se o Kurt Cobain o assisti-se, romperia os laços de amizade com o Dave Grohl para toda a eternidade. Não se tratava de um show de música, de roque. Era um misto disso com um show de carisma, simpatia e 'stand up comedy' do Dave. O que, enquanto 'opção de lazer', engrandece o espetáculo, engrandece a 'opção' - nalguns momentos não consegui parar de rir das gracinhas do ex-garotinho das baquetas nirvanísticas.
Na saída, mais encheção: andar metros e metros novamente por entre areias, gramados, cimentos; não encontrar uma garrafa de água por menos de cinco reais (enfim os ambulantes começaram a enfiar a faca tal qual os os bacanas que organizam os eventos, eles estão certos). Chegar no metrô à meia noite e vinte e não conseguir se quer entrar na estação, quando o estado promete o serviço até à uma da manhã aos sábados. Esperar ônibus, andar (mais), pegar táxi...

A parte boa disso tudo é que por duas horas e meia estive em contato pseudo-semi-direto com uma boa influência, um músico marcante em minha trajetória e dando ouvidos (e corpo todo) à belas canções (mesmo que chegando até mim através de um som ruim). Porém, concluo cientifica e empiricamente, que, para mim, este tipo de evento não é lazer.


*Sobre estar em uma grande arena para acompanhar um show e assisti-lo, sobretudo, pelos telões, faz-me lembrar a ranzinza máxima: "é melhor comprar um DVD e assistir em casa" - ou ficar em casa e acompanhar pelo canal de televisão fechada que o transmitiu - com certas razões.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Diploma pra quê?

Fila, em fim de tarde quente, em véspera de feriado, em agência dos Correios, traz, em si mesma, uma tensão própria e unica, quase "exclusiva"; ousaria dizer também que comum e esperada por todos que passam pela porta por necessitar de algum dos serviços desta "empresa".
Neste contexto, um homem e uma mulher jovens adentraram a agência e 'cortaram' a fila, dirigindo-se direto ao primeiro caixa a vagar após a entrada deles. Um homem mais velho, que estava a duas pessoas de alcançar o guichê, assoviou e indicou o restante da fila dizendo com a voz alta: "todo mundo tem que pegar essa fila aqui, que que é isso? Não vai cortar a fila não!".
O homem jovem, como resposta, apontou para a barriga da mulher que acompanhava, e, com calma, foi sucinto: "ela está grávida, tem direito à fila preferencial". Esta resposta foi motivo para a exaltação do homem mais velho, dizendo que "este papo" não existe, que todos tem de pegar a fila, que ele estava a mais de trinta minutos na fila e tra-lá-lá.

Estava iniciada, então, uma bela discussão entre um homem jovem e um homem experiente em uma fila de agência do Correio em fim de tarde de véspera de feriado!

O mais jovem alegava que o senhor não deveria ter ficado na fila, que ele tem o direito de ser atendido preferencialmente em razão da idade. Por outro lado o mais velho alegou não haver na agência nenhuma indicação sobre a preferência para o atendimento, por isso entrou e permaneceu na fila como os demais - e ainda acusou a funcionária de ser "negligente" por atender à moça grávida!
Argumentos vão, ofensas vem, o homem mais velho disse que o mais jovem era um ignorante, e teve como resposta a seguinte frase, dita calma e ironicamente: "ignorante? Eu tenho duas faculdades!"; o mais velho insistiu no argumento de que estavam faltando com respeito aos demais por estarem 'furando a fila', sendo a discussão encerrada mediante o silêncio do homem mais jovem, ignorando as perguntas e afirmações do mais velho.

Chegamos ao ponto que realmente interessa nesta vivência: diploma pra quê? Para encerrar uma discussão com um 'reles' homem que não conhece "seus direitos garantidos na lei" (entre aspas, pois dito pelo jovem)?
Penso que a postura do rapaz tem a ver com o "você sabe com quem está falando?", que o Roberto da Matta trabalha no livro "Carnavais, Malandros e Heróis". Pode-se falar 'desta forma' com qualquer um, mas não comigo, afinal: "você sabe com quem está falando? eu tenho duas faculdades!".

De certa forma 'ter' duas faculdades representa ter grande experiência e acumulo de conhecimentos científicos e/ou práticos diversos, e - considerando o discurso do rapaz - detê-los é antônimo de ignorância, são impeditivos de "ser um ignorante".
O que lhe confere liberdade para rir, ignorar e ser irônico com um homem simples que, não encontrando uma placa falando sobre um direito seu, optou por respeitar os demais (independentemente de idade ou condições físicas) que formavam uma fila por também necessitarem de um serviço daquela "empresa" em um fim de tarde quente numa véspera de feriado.