terça-feira, 27 de março de 2012

Uma foto.


A foto acima, de autoria do Luiz Gustavo Leme, registrada na noite do dia 02 de Setembro de 2009, durante o período noturno da "Feira de Profissões" daquele ano, foi publicada ontem (ou anti ontem) na página principal do site da universidade em que (ainda) estudo; ela foi o propulsor para tudo o que está descrito abaixo, sem muita preocupação com a ordem dos fatos, o nome dos sujeitos e a bobeira egocêntrica que representa.

2009 foi um ano difícil. Vale lembrar que este blogue já existia a esta época, de modo que entre as 107 publicações daquele ano, deve haver muitos registros fidedignos que não me deixam mentir: 2009 foi um ano difícil.

Como consequência lógica do calendário romano, o início de 2009 foi sequencia do fim de 2008, triste e trágico, com a despedida de meu avô de sua existência concreta, deixando de existir no plano cotidiano sob a forma de vozes, piadas, abraços etc, e passando a existir no plano das memórias.

Porém, 2009 chegou e comecei a vivê-lo. Entre beijos, risos, breves descobertas, novas amizades, novos rumos e aquela certeza óbvia, às vezes recheada de maior plenitude, como era o caso naquele Fevereiro: “tenho um futuro pela frente”. E o presente que se saboreava naqueles instantes, dava um ar desejoso de estar nele semeando um futuro, igualmente saboroso.

Mas não. 2009 foi um ano difícil.

Dentre as dificuldades daqueles 12 meses (alongando-se um pouco para meses adiante, em 2010), tive de fazer uma escolha, de certa forma, uma escolha que envolvia várias outras ‘escolhazinhas’ menores, cotidianas etc. Uma escolhona, composta por escolhazinhas e tratada como escolha, meramente. Sabia que qualquer que fosse a decisão, o arrependimento seria a tônica do futuro, não tão saboroso quanto se previa nas semanas anteriores.

(Até hoje não entendo certos comportamentos e atitudes de algumas pessoas; há pouco tempo diria ‘dentre elas, eu’, mas entendo perfeitamente por que entre trocentos colegas pedi a mala emprestada para a única que não poderia pedir – talvez por não ter sido nunca uma ‘colega’).

Não saboreei a decisão. Talvez um pouco. Mas não durou.

Logo após julgar ter feito uma escolha “ampla, geral e irrestrita”, (talvez um mês após, que é pouco tempo considerando a duração do molho), notei que na verdade havia confirmado viver em um reino. O resto foi empurra-empurra de mim mesmo.

Como é lógica corrente – embora deva existir filósofos que questionem tal assertiva - o tempo passou, as vidas foram sendo vividas. Algumas coisas, que apenas um ou outro sabem foram consumidas. Ou consumadas (talvez assim soe melhor).

E então chegamos ao dia e momento da foto.

Era um dia tranquilo e até um pouco usual, não haveria aula na faculdade e a mesma passaria o dia cheia de estudantes de ensino médio – da rede pública e privada – guiados por estudantes universitários apresentando os cursos e campus de que reclamam todos os dias: Feira de Profissões.

No período noturno compareci no espaço reservado ao meu curso, conforme combinado com os colegas de PET, ficaria no mesmo das 19h15min até às 21h40min, em razão de não poder perder o começo do jogo do Corintias contra os sardinhas. Primeira partida do “centenário”, contra um adversário histórico, no Pacaembu, o time era bom e, naquela altura do campeonato, poderia embalar.

Os colegas concordaram. Alguns eram bons colegas.

Porém, durante o evento, no guichê do curso ao lado, estava a parte negada no processo de escolhazinha/escolha/escolhona vivido no começo de Março. Um sorriso escapou por entre pôsteres de grupos de estudos; outro gracejo entre uma turma de ensino médio e outra; uma frase de efeito, uma resposta de respeito; uma foto com o olho encaixado no tubo dos banners; um comentário sobre o corte de cabelo ainda recente – registros fotográficos do profissional de comunicação da universidade.

Voltei para casa em pedaladas atrozes. Parei no mercado. Preço promocional para a lata alta da cerveja barata: leve 15 pague 12. Eu levei. “O vinho também tá barato a cerveja vai demorar pra gelar é só colocar gelo no vinho já dá para aguentar o primeiro tempo que merda não consigo parar de balbuciar essa ideia medíocre reino das escolhas erradas um escambau aqui é Corintias (...)”. Eu levei.

Na sala daquele já saudoso apartamento – minha arquibancada durante 3 anos – vivi aquela vitória primorosa à lá Corintias: de virada e em cima da hora. Num daqueles copos de vidro de milho (ou de ervilha) tomei o litro de vinho. Nesta boca – à época, sem o contorno da barba – foram-se as primeiras latas.

Quando os amigos chegaram, o Gabriel que estava na faculdade falando sobre seu curso (e que está inegavelmente registrado nas fotos oficiais da universidade) não mais existia. O que existia era um corpo bêbado vestindo a camisa do Corintias e falando sobre o mesmo. Havíamos combinado de sair, não haveria aula também no dia seguinte.

Saí. Não lembro como. Bradava pelo Corintias. Certamente levei uma ou duas latas nos bolso. Esquentar não era mais um problema.

Xinguei, dancei, cantei, passeei, descalcei os tênis, colhi flores e folhas na pracinha em que nos sentamos após descobrir que não haveria rolê naquela noite.

Enchi o saco de quem estava comigo. Enchi o saco de todos. Enchi o saco.

Na volta para casa, joguei-me ainda em um grupo de arbustos, machuquei as costas e encardi a camisa sagrada. Não fui para aquele apartamento, fui para o outro (no mesmo prédio). Perdi partes de tudo que havia consumido no dia anterior, dormi naquele banheiro e acordei no quarto da parte aceitada no processo de escolhazinha/escolha/escolhona vivido no começo de Março.

Falei entusiasmado sobre o Corintias.

Mas, na verdade, eu apenas estava sofrendo pela retificação das escolhas racionalmente assinadas (em seus momentos de “sim” e de “não”) como erradas em Março daquele 2009, que foi um ano difícil.

E isso era tudo o que eu tinha para falar sobre a fotografia que foi colocada ontem (ou anti ontem) na página principal do site da faculdade.




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