sexta-feira, 30 de março de 2012

Uma pequena jaula.


Assumidamente sou fã do Alf, o ETeimoso.
Para alguns é uma fracassada série norte americana, vendida a preço de banana pro SBT, e depois pra Globo, e depois pra Band, e de novo pro SBT, e então pra Nickeloudeon, onde é transmitido até hoje durante as madrugadas. Em 2007, frustrado por não encontrar uma camiseta bacana com referência ao personagem, nem na Galeria do Roque e nem em loja alguma (não havia tantas 'camisetarias' descoladas como hoje em dia), encontrei uma imagem bacana no gugou e peguei para fazer uma camiseta com o rosto do meu alienígena favorito; em 2009 cheguei até a ser presenteado em meu aniversário com um bolo estampado com o rosto dele - era um bolo muito gostoso.

Porém, hoje não vim falar sobre o Alf, em si, ou sobre nenhum seriado e nem, muito menos, vim tecer críticas aos enlatados xaropes norte americanos.

No 19º episódio da primeira temporada do Alf (diga-se de passagem, a melhor temporada) ele explica à família que o acolhera - os Tanners - que a cada 75 anos todo Melmaquiano (aquele que nasceu em Melmac, planeta de onde veio o Alf) passa por uma espécie de 'mutação', em que o psicológico e a personalidade do ser em questão fica diferenciado, distinto da ordem comum e cotidiana.
Alf alerta que a mudança é terrível, e que ele pode ser perigoso para os membros da família e moradores da vizinhança, caso permaneça em liberdade durante este processo. De modo que orienta Willie - o patriarca da família e 'homem da casa' - à construir uma pequena jaula, na qual ele, Alf, deverá permanecer trancado do pôr-do-sol de um dia até o pôr-do-sol do dia seguinte.
Especifica a necessidade de encarceramento apontando ainda que ninguém deverá abrir a porta da jaula de modo algum, pois, neste período de 24 horas, ele se tornará traiçoeiro, enganador, tentará lhes passar a perna de todo jeito para tirar qualquer vantagem.
Em suma, ele se tornará a personificação do nome do episódio, uma "Coisa Selvagem" - avisei que não faria críticas aos enlatados norte americanos, e não farei - agressivo, violento, mal educado etc.
No decorrer do episódio o conceito de 'Coisa Selvagem' trabalhado pelos autores fica claro (indicaria um link para download do episódio, mas não o encontrei). Alf engana Brian, o filho da família, foge de casa, arma encrenca e todas as coisas de Alf que sempre me fazem gargalhar, enquanto os demais normalmente apenas sorriem.

Mas por que comentar sobre o 19º episódio da 1ª temporada de uma série cujo protagonista é um boneco de pelúcia?

Quando se realiza um curso universitário, é necessário entregar, ao fim do mesmo, um Trabalho de Conclusão de Curso, no qual o aluno comprovará que ingressou, de fato, no conhecimento/pensamento científico. Algo do gênero. É um trabalho, como o próprio nome indica, trabalhoso, digno de causar cansaços, chiliques e estapafurdices diversas - não é o fim do mundo, mas já notei que cansará.
Chegou o momento de fazer tal trabalho.
Não irei passar a perna em ninguém, mas me tornarei chato, insuportável, e sei que a forma de expôr os momentos extremos de saco cheio (e/ou, de pé no saco) será com piadas grotescas, comentários desnecessários e brincadeiras medíocres, mais do que faço normalmente.
Deste modo, talvez fosse interessante isolar-me do convívio social, entrar em uma pequena jaula, escrever o trabalho e pedir que apenas abram a jaula na hora de, enfim, imprimir e entregar o trabalho.

Alf tem muito a nos ensinar sobre as nossas próprias vidas.



Ps: isto é apenas uma alegoria.

terça-feira, 27 de março de 2012

Uma foto.


A foto acima, de autoria do Luiz Gustavo Leme, registrada na noite do dia 02 de Setembro de 2009, durante o período noturno da "Feira de Profissões" daquele ano, foi publicada ontem (ou anti ontem) na página principal do site da universidade em que (ainda) estudo; ela foi o propulsor para tudo o que está descrito abaixo, sem muita preocupação com a ordem dos fatos, o nome dos sujeitos e a bobeira egocêntrica que representa.

2009 foi um ano difícil. Vale lembrar que este blogue já existia a esta época, de modo que entre as 107 publicações daquele ano, deve haver muitos registros fidedignos que não me deixam mentir: 2009 foi um ano difícil.

Como consequência lógica do calendário romano, o início de 2009 foi sequencia do fim de 2008, triste e trágico, com a despedida de meu avô de sua existência concreta, deixando de existir no plano cotidiano sob a forma de vozes, piadas, abraços etc, e passando a existir no plano das memórias.

Porém, 2009 chegou e comecei a vivê-lo. Entre beijos, risos, breves descobertas, novas amizades, novos rumos e aquela certeza óbvia, às vezes recheada de maior plenitude, como era o caso naquele Fevereiro: “tenho um futuro pela frente”. E o presente que se saboreava naqueles instantes, dava um ar desejoso de estar nele semeando um futuro, igualmente saboroso.

Mas não. 2009 foi um ano difícil.

Dentre as dificuldades daqueles 12 meses (alongando-se um pouco para meses adiante, em 2010), tive de fazer uma escolha, de certa forma, uma escolha que envolvia várias outras ‘escolhazinhas’ menores, cotidianas etc. Uma escolhona, composta por escolhazinhas e tratada como escolha, meramente. Sabia que qualquer que fosse a decisão, o arrependimento seria a tônica do futuro, não tão saboroso quanto se previa nas semanas anteriores.

(Até hoje não entendo certos comportamentos e atitudes de algumas pessoas; há pouco tempo diria ‘dentre elas, eu’, mas entendo perfeitamente por que entre trocentos colegas pedi a mala emprestada para a única que não poderia pedir – talvez por não ter sido nunca uma ‘colega’).

Não saboreei a decisão. Talvez um pouco. Mas não durou.

Logo após julgar ter feito uma escolha “ampla, geral e irrestrita”, (talvez um mês após, que é pouco tempo considerando a duração do molho), notei que na verdade havia confirmado viver em um reino. O resto foi empurra-empurra de mim mesmo.

Como é lógica corrente – embora deva existir filósofos que questionem tal assertiva - o tempo passou, as vidas foram sendo vividas. Algumas coisas, que apenas um ou outro sabem foram consumidas. Ou consumadas (talvez assim soe melhor).

E então chegamos ao dia e momento da foto.

Era um dia tranquilo e até um pouco usual, não haveria aula na faculdade e a mesma passaria o dia cheia de estudantes de ensino médio – da rede pública e privada – guiados por estudantes universitários apresentando os cursos e campus de que reclamam todos os dias: Feira de Profissões.

No período noturno compareci no espaço reservado ao meu curso, conforme combinado com os colegas de PET, ficaria no mesmo das 19h15min até às 21h40min, em razão de não poder perder o começo do jogo do Corintias contra os sardinhas. Primeira partida do “centenário”, contra um adversário histórico, no Pacaembu, o time era bom e, naquela altura do campeonato, poderia embalar.

Os colegas concordaram. Alguns eram bons colegas.

Porém, durante o evento, no guichê do curso ao lado, estava a parte negada no processo de escolhazinha/escolha/escolhona vivido no começo de Março. Um sorriso escapou por entre pôsteres de grupos de estudos; outro gracejo entre uma turma de ensino médio e outra; uma frase de efeito, uma resposta de respeito; uma foto com o olho encaixado no tubo dos banners; um comentário sobre o corte de cabelo ainda recente – registros fotográficos do profissional de comunicação da universidade.

Voltei para casa em pedaladas atrozes. Parei no mercado. Preço promocional para a lata alta da cerveja barata: leve 15 pague 12. Eu levei. “O vinho também tá barato a cerveja vai demorar pra gelar é só colocar gelo no vinho já dá para aguentar o primeiro tempo que merda não consigo parar de balbuciar essa ideia medíocre reino das escolhas erradas um escambau aqui é Corintias (...)”. Eu levei.

Na sala daquele já saudoso apartamento – minha arquibancada durante 3 anos – vivi aquela vitória primorosa à lá Corintias: de virada e em cima da hora. Num daqueles copos de vidro de milho (ou de ervilha) tomei o litro de vinho. Nesta boca – à época, sem o contorno da barba – foram-se as primeiras latas.

Quando os amigos chegaram, o Gabriel que estava na faculdade falando sobre seu curso (e que está inegavelmente registrado nas fotos oficiais da universidade) não mais existia. O que existia era um corpo bêbado vestindo a camisa do Corintias e falando sobre o mesmo. Havíamos combinado de sair, não haveria aula também no dia seguinte.

Saí. Não lembro como. Bradava pelo Corintias. Certamente levei uma ou duas latas nos bolso. Esquentar não era mais um problema.

Xinguei, dancei, cantei, passeei, descalcei os tênis, colhi flores e folhas na pracinha em que nos sentamos após descobrir que não haveria rolê naquela noite.

Enchi o saco de quem estava comigo. Enchi o saco de todos. Enchi o saco.

Na volta para casa, joguei-me ainda em um grupo de arbustos, machuquei as costas e encardi a camisa sagrada. Não fui para aquele apartamento, fui para o outro (no mesmo prédio). Perdi partes de tudo que havia consumido no dia anterior, dormi naquele banheiro e acordei no quarto da parte aceitada no processo de escolhazinha/escolha/escolhona vivido no começo de Março.

Falei entusiasmado sobre o Corintias.

Mas, na verdade, eu apenas estava sofrendo pela retificação das escolhas racionalmente assinadas (em seus momentos de “sim” e de “não”) como erradas em Março daquele 2009, que foi um ano difícil.

E isso era tudo o que eu tinha para falar sobre a fotografia que foi colocada ontem (ou anti ontem) na página principal do site da faculdade.




Breve Hábito.

Caminhar pelas Esmeraldas "nestes dias em que tudo está impregnado de seu contrário" com fones nos ouvidos ouvindo Colligere ou Dance of Days.

Outra boa referência que me lembrei a pouco no ônibus são as "doenças da alma": http://www.youtube.com/watch?v=AahD9NU-HpU

segunda-feira, 12 de março de 2012

Anedota sobre o Dia Intergalático da Mulher.

Estávamos em uma pequena espaçonave, três homens, eu ocupava o banco de trás. Um dos outros dois - que não era o que operava os botões do veículo interespacial - subiria em um palanque, empunharia um instrumento de cordas de venus e cantaria belas canções marcianas mais tarde.
No caminho que percorríamos, de repente, uma lentidão improvável nos fez, praticamente, estacionar no espaço. Após alguns instantes nesta situação, as naves à nossa frente, e a que utilizávamos, voltaram a flutuar em suas rotas costumeiras.
Compreendemos a lentidão quando passamos por um pequeno foguete que era manobrado, e que, temporariamente, ocupou largo espaço entre estrelas durante o processo de manobra, causando a improvável lentidão.
O rapaz que viajava no banco do carona da espaçonave, notou se tratar de uma mulher ao volante, e comentou aos risos: "é sempre mulher né?", tendo como resposta o silêncio dos demais ocupantes da espaçonave.
Mais tarde, com o megafone saturniano em punhos, entre uma e outra canção (as quais eu realmente gostei), o rapaz (que era da terra mesmo) fez breve comentário sobre o Dia Intergalático da Mulher, engrandecendo-as e valorizando-as.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Reino das escolhas erradas.

Reino das escolhas erradas
(Gabriel Coiso, Pedro Roberto - Abril de 2009)

Fiz uma música,
Para eu descansar,
Procuro no dicionário,
Várias palavras,
Para explicar a minha...
Estupidez,
Mais do que antiga,
Sem prazo de validade,
E me levando a ser,
Este eu,
Retorcido.


Mastigando o passado,
Saboreando pedras,
Com cimento,
Como se fosse tão gostoso,
Viver sempre por aqui,
Como o rei mais perdido,
Lendo dicionários,
Neste reino,
Das escolhas erradas.

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terça-feira, 6 de março de 2012

Exemplo relevante de algo que nunca esteve escondido...

([...] talvez apenas guardado e observado vez ou outra em meio aos processos universitários/burocráticos [...]).

O professor, desenvolvendo um raciocínio sobre como a ciência ocidental prioriza 'algumas' ciências como mais importantes do que outras, falou sobre os investimentos daquela agência pública paulista que organiza e distribui fomentos à pesquisas científicas. Apontou que, desta agência, é mais fácil alcançar sucesso - verba, grana - com estudos que geram patentes e podem gerar retorno financeiro para o estado, ficando áreas científicas, de pesquisas menos "patenteáveis - a saber: a nossa - com a fatia mais magra do bolo.
Deu um exemplo muito interessante, sobre pesquisas com cerâmica. Que muitas, envolvendo a cerâmica como matéria que produz outros materiais, e novas patentes, são facilmente financiadas pela tal agência.
Já outras pesquisas, que podem envolver a cerâmica como matéria manuseada e transformada em outros materiais, com foco nas pessoas que desenvolvem técnicas, compartilham práticas culturais, são exploradas etc, não interessam à esta - e a muitas outras - agências de financiamento científico.
Em seguida deu outros exemplos, não sei ao certo sobre o que, pois apenas notei que havia os dito quando decretou o fim da aula e meus colegas começaram aquela movimentação de guarda-caderno-abre-mochila-fecha-estojo.

Quando falou da cerâmica, recordei-me dos tantos dias em que passei horas criando formas, objetos e abstrações concretas (ou concretudes abstratas) com argila, ainda quando criança; recordei-me das aulas com este tipo de barro na escola; recordei-me de quando fomos à Pinacoteca do Estado e tínhamos que escolher alguma das esculturas expostas em uma sala para inspirar-nos em um projeto com argila.
Lembrei-me também das recentes conversas que tive com minha mãe, empolgada, contando-me sobre as técnicas que aprendera e as peças que criara no curso de cerâmica que realizou no ano passado no Sesc.

Enquanto o professor seguia adiante em seu raciocínio - e, certamente, era acompanhado pelos meus colegas -, permaneci no exemplo da cerâmica, permaneci em meu caderno rascunhando um projeto de quatro peças, criadas a partir da argila, que se unem ao redor de um ponto comum, formando um vaso para uma rosa solitária.


domingo, 4 de março de 2012

Um domingo infernal.


Foi no ano de 2010, precisamente na segunda metade de Setembro.
Meu tratamento seguia o seu curso - seria boa metáfora chamá-lo de 'quimioterapia', mas o dotaria de um peso que não me atrevo a cravar. E então, chegamos àquele domingo, conseqüência lógica deste sábado.
Pequenos e medíocres desesperos fizeram com que o telefone fosse tirado do gancho, transformando-o em ácido sulfúrico, forca de cabo de aço ou quaisquer elementos e/ou instrumentos sufocantes que travem garganta e respiração.
Era domingo, e se tornou infernal.
Precisei sair de casa: hora do almoço, sol tenebroso e tremores no corpo. Era em Coca-Cola, apenas, no que eu podia acreditar para regar, refrescar e acompanhar o goela abaixo de partes pilulosas alheias ao citado tratamento.
Sentado em canteiro central transformado em pracinha.
Voltei para casa (mais Coca-Cola na sacola) o dia estava bem quente, o chuveiro no modo desligado, a água gelada e esta trilha sonora. Ajoelhado nos sujos azulejos cor de creme, com a água fria arrebentando nas costas e nuca, gritava um dos elementares versos da canção: quando eu estiver desprevenido, volta e acaba comigo: lembra como você era boa nisso?
Aquela tarde existiu, de alguma forma que não me recordo como. Se teve jogo, se dormi, se desenhei, se estudei, se escrevi, se, se, se. Ela existiu, e isso é tudo que eu lembro da tarde.
A noite veio, e as machadadas sufocantes não paravam. Mais Coca-Cola, outra trilha sonora, cantada em berros silenciados no travesseiro sem fronha - pois já era noite.
Não vou mais tentar fingir ser forte e sorrir quando nada mais me satisfaz.
Foi nesta precisa hora que eu percebi, que talvez fosse interessante descobrir se os elementos acompanhados de Coca-Cola, devorados debaixo do forte sol do meio dia, poderiam se colidir com os outros ingeridos diariamente há quase dois meses - mencionados aqui como 'tratamento'.
E apenas consegui dormir após saber que, tudo bem, este dia 19 não acabaria com minha morte, por nenhuma das asfixias possíveis e imagináveis dentre todas as infernalidades vividas naquelas horas.