segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Este rosto.

Talvez seja gramaticamente incorreto referir-me ao meu rosto, nesta postagem, como sendo 'este', talvez o mais correto fosse 'esse'. Porém, pode-se ignorar as leis da língua portuguesa e apenas ler as linhas acima e abaixo - se a questão do 'esse', 'este' e do 'rosto' forem muito dolorosas, sugiro uma breve olhada na foto de meu rosto, captada em Abril ou Maio de 2011, aqui no canto superior direito.

Iniciei esta reflexão quando, na cidade de Barra Bonita/SP, em uma tarde tive a nacionalidade questionada por duas vezes. Na primeira delas, um homem perguntou-me falando pausadamente: "você não é brasileiro?". Que resposta poderia dar que não fosse "pô, mas claro que sou! mais do que isso, sou Corinthiano e Brasileiro" (seguindo a máxima do Toquinho); o homem justificou-se, que minha boina preta e minha camisa da seleção brasileira davam-me um ar Argentino.
Ainda nesta tarde uma mulher se aproximou da Marina, que comigo estava, e perguntou - para ela, não para mim - se "ele não é brasileiro né?". A Marina riu, e eu dei a mesma resposta que para o homem de minutos atrás. A mulher pediu desculpas pela confusão, mas disse que sua filha insistiu que eu tinha cara de 'gringo', especificamente, de 'argentino', e que eu estaria me escondendo na camisa da seleção brasileira.

Uma semana depois, à caminho de Brotas/SP - para saborosa acampagem de Carnaval - paramos em um posto de gasolina. Após longos minutos colocando um fluído rosa no lugar da água do radiador, o simpático frentista (que nos explicou com termos escabrosamente científicos os efeitos negativos da água no motor do carro) sorriu e me disse: "cara, cê parece o Nando Reis hein?".

Adiante no mesmo dia, logo que chegamos ao camping, com as barracas devidamente erguidas e a fome da viagem assassinada, fomos dar um mergulho naquele buraco de cimento repleto de água gelada, pois enchido com água da cachoeira. Uma das crianças que brincava na piscina (um garotinho loiro que não devia ter mais de seis anos) me encarou durante um bom tempo, até que se aproximou e disse: "você parece Jesus", com uma refinada ironia, lhe respondi: "você me descobriu, sou eu mesmo", e o garoto saiu de perto.
Alguns minutos depois retornou. Abrindo a mão direita, pediu que eu fizesse o mesmo, dizendo-me "faz assim", mesmo sem entender, o fiz. Repleto de razão e bravo, o garoto abriu a boca cheia de janelinhas para escancarar minha mentira: "você não é jesus! você não foi crucificado, cadê a cicatriz na sua mão?".

Vividas estas três situações, me questiono: eu não posso, puramente, parecer comigo mesmo?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Amigos das antigas.


Em 6 de Setembro de 2010 publiquei aqui no blogue o texto "Amigos", sobre as saudades que sinto dos amigos paulistanos enquanto toco minha existência no interior. Neste texto o Alex comentou que: "Chegará o dia em que seremos amigos das antigas. E assim a vida vai".

Na primeira sexta feira de Fevereiro deste 2012, peguei uma carona com destino à Barretos, com o intuito de chegar nesta cidade à tempo de celebrar o aniversário do Pedro sem atrasos - se descontarmos o horário de verão, podemos dizer que isso ocorreu. Havia também o intuito de passar o sábado conhecendo esta cidade e, no domingo (bem cedinho), tomar rumo para Ribeirão Preto, com destino final em Sertãozinho, para celebrar - com atrasos - o aniversário do Alex, redator do comentário que conecta este final de semana no norte paulista com as nossas vidas, em sentido amplo, geral e (por que não) irrestrito.

O Pedro e o Alex são dois dos grandes amigos que vivi neste período de faculdade. Juntos fizemos centenas de vídeos instrutivos (de dicas de beleza à exageros alcoólicos, passando pela biografia de Malinowski e apontamentos sugestivos sobre o curso), criamos e demos cabo de um Grupo Político Organizado (Pero No Mucho), imprimimos e colamos dezenas de cartazes sobre assuntos distintos (de manifestos mequetrefes à informes de eventos), viajamos algumas vezes, nos encontramos outras tantas etc.
Este preciso momento do início de 2012 envolve o "ir cada um para um lado", sacramentado com abraços na rodoviária de Ribeirão Preto na tarde da primeira segunda feira de Fevereiro - abraços que durarão até o próximo encontro nalgum bistrô em Paris, em qualquer boteco no Brasil, show, casa acadêmica, festa literária, estádio de futebol, congresso etc em que façamos nossos futuros se encontrarem.

Dialogando com aquele comentário do Alex, nossas vidas atuais, que nos colocam iminentemente como amigos das antigas, a quilômetros de distância (e de lembranças) acabaram de começar.

Um beijo, um abraço e um toque de mão molenga para os dois.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Não me sentia à vontade.

Quando jovem (no caso do assunto desenvolvido à seguir, período que se finalizou com o ingresso na universidade) não me sentia à vontade para ir na casa das pessoas. Amigos, conhecidos, festinhas etc, durante um bom período da vida - entre os 12 e 19 anos - não me sentia lá muito bem em ir na "casa dos outros".
Muitas vezes ficava constrangido, sentado num cantinho seguro dalgum sofá, evitava pegar mais um copo de refrigerante ou mesmo outra fatia de pão com manteiga, e demais coisas deste gênero. Tinha dificuldades em entrar nos assuntos, muitas vezes considerava dar a minha opinião algo inútil e preferia calar-me. Dormir na casa de alguém que não me era muito (mas muito) familiar também era sinônimo de grande tensão.
Retraia-me, o que me fez negar muitas idas à casas alheias.

Creio que sair da casa de meus pais trouxe uma contribuição muito grande para a minha sociabilidade: passei a frequentar outras casas com maior facilidade, passei a não me sentir invasivo ao usar o banheiro dos anfitriões. Esta "libertação", de alguns sentidos defensivos meus, vieram com a convivências, até com certa insistência em aceitar convites e, puramente, ir.
Como consequência desta insistência vieram bonitos momentos em casas de belas famílias, em casas de grandes amigos e até de ilustres desconhecidos, que, pelo fato de eu estar em suas salas, acabaram entrando (no mínimo) para o hall das "pessoas que eu conheci na vida", que, no frigir dos ovos, é uma das coisas mais bacanas e valiosas destas vidas que vivemos.
Ainda tenho meus breves bloqueios, mas sem dúvida, hoje me sinto extremamente à vontade para entrar nas casas de pessoas próximas, comer mais uma fatia de bolo, rir, papear e escrever algumas linhas sobre como este tipo de contato faz bem para minha existência.