terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O tapete azul do Junior.

Logo nos primeiros instantes deste ano de 2012, quando eu e os familiares mais próximos aproveitamos a data para nos unirmos ao redor de comidas e risadas gostosas, uma frase dita suscitou-me uma série de estampidos (senti)mentais. Importante dizer, que dessas reuniões familiares sempre saio com duas certezas: de que saudades jamais se findarão e de que as histórias sempre se renovarão - todas elas ligadas à extremos laços de afetividade que, igualmente, se renovam e desdobram.

Num destes primeiros momentos de 2012, minha mãe esticou no chão um tapete que está bordando (diria que bordar tapetes é uma tradição familiar, como jogar buraco e fazer paçoca) para mostrar às irmãs e à mãe como está ficando. Foi então que, precisamente neste segundo - em que o tapete tocou o chão - a Biju (simpática cachorra que mora com minha avó) se aproximou e ameaçou sentar-se sobre ele. Foi repreendida para que não o fizesse, e partiu em minha direção, o que lhe rendeu alguns agrados meus.
Uma de minhas tias, após rir da situação, trouxe à tona uma lembrança: "se ela elege o tapete como dela, não tem jeito, igual o Junior com aquele azul".

Junior foi um cachorro da raça golden retriver que meus avós ganharam de alguém, oito anos antes de se mudarem daquela grandiosa e saudosa casa na região do Aeroporto de Congonhas/SP. Seu nome peculiar - uma vez que trata-se de um cachorro - deu-se em razão da minha vó ter gostado do nome que tinha o pai do Junior: Shaman. Meu vô, por outro lado, desde que recepcionara o cachorro na sua casa, sempre o chamou por outro nome: Boi, em razão da semelhança física que julgava haver entre ambos, o Junior, e um Boi.
Desde que chegou aquele saboroso lar, Junior desenvolveu gostos peculiares, como: sentar-se à frente da grade janela da sala, apenas observar, e latir em raríssimos casos; dormir, ou passar um bom tempo deitado, no terceiro degrau da escada que levava aos quartos; deitar-se ao lado do meu vô quando nos sentávamos à mesa; entre outros, dentre eles, o gosto por um tapete azul.

O tapete fora bordado por meu avô, não me recordo ao certo quando, mas era um dentre os tantos que ele fez para a casa, para presentear amigos, parentes etc - eu mesmo ganhei um quando criança. Sem dúvida, bordar tapetes foi um dos afazeres prediletos do meu avô em um trecho de sua vida. Recordo-me de algumas noites em que eu estava na sala e ele, sem conseguir dormir, descia para dedicar-se à algum tapete; a madrugada virava prosa.
Voltemos ao tapete azul.
Ora ficava na sala com a mesa de jantar, ora na outra sala, ora nalgum quarto; diria que era um "tapete coringa". Era azul com detalhes marrons, brancos e amarelos. Se não me trai a memória.
Certo dia Junior pegou este tapete e o levou para o terceiro andar da escada, se deitou nele. Algum tempo depois o levou para ao lado da poltrona de meu vô, e se deitou sobre ele. E sempre - sobretudo quando o calor era menor - mexia, dobrava e redobrava o tapete com as patas, até que ficasse confortável para se deitar sobre ele.

O Junior nos deixou há exatos três anos - um mês após deixar de ser o Boi.
Sobre o tapete, não me recordo o que aconteceu com ele. Lembro-me, com uma imperfeita exatidão, dele já rasgado e surrado, mas sempre servindo de conforto aquele tão companheiro cão.


A breve frase de minha tia, dita pouco depois dos fogos e votos de "feliz ano novo", trouxe-me à tona diversas lembranças sobre a casa em que Junior viveu sua vida, em que eu vivi parte saborosíssima da minha, e onde minha família teceu e desenvolveu laços sinceros de proximidade, carinho, acolhimento e dezenas de outros sentimentos, tão gostosos e bonitos, que podem ser recordados até a partir de um tapete.

Junior no meu eterno 'arco do triunfo'.

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