quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

22/05/2010.

(...)
Lembro-me que quando acabou a música, as luzes se acenderam e pessoas vestindo camisetas pretas começaram a dizer "vamô vamô, saindo, o show acabou", eu ainda mordia o meu joelho direito. Sentado numa das cadeiras da platéia, estava com as pernas em cima do assento, e as abraçava; como já disse, mordia o joelho direito, e com força.
Aquelas lágrimas já haviam corrido por dentro e por fora do rosto algumas vezes, e seguiam rolando enquanto eu mordia meu joelho. Não sei ao certo por que, mas ergui as calças até acima do joelho direito, e o mordi.
Enfim, conseguiram me convencer de que eu deveria sair, afinal, o show já havia acabado devia fazer uns dez minutos. Pra mim os espaços e os viveres do tempo daquela noite foram esquisitos.
Lutando contra o magnetismo que se criara entre eu e aquela fileira do teatro, entre eu e aquela cadeira do teatro, entre eu e o teatro todo, desencravei os dentes do joelho, tirei as pernas de cima da cadeira, arrumei a calça, recolhi a mochila e me pus a descer as escadas.
Estava fraco. Mole. Trêmulo - agora o estou também, mas é bem diferente.
A saída era pelo outro lado, precisava passar em frente ao palco, bem pertinho dele, dar aquela olhada, embaçada pois ainda haviam lagriminhas.

Olhar para o palco saindo, e me lembrar de como foi olhá-lo ao entrar: realmente, passaram-se anos na hora e cinquenta minutos que passei o encarando com olhos, ouvidos e corpo todo.

Sai, andei para lá, para cá; liguei em casa, disse para a mãe como aquilo era fantástico, e ela não entendeu - ainda bem que não falei sobre morder o joelho.
Precisava consumir algo, beber, comer, tragar etc. Precisava me recompor, ao mesmo tempo que não precisava de nada.
Pedi alguns minutos para as esplendidas companhias daquele dia/noite, e me escondi num cantinho, sentado, calado, sentindo aquela aura fantástica que me recobria (tal qual o manto santo de qualquer nossa senhora).
Entrei numa loja de posto, pois tinha sede líquida, precisava daquele maldito refrigerante e de qualquer coisa tragável.
Fila, para pegar.
Fila, para pagar.
Quase todos estavam no show. A loja respirava um semi silêncio, apesar de cheia. Cheia de filas.
E na fila para pagar um rapaz me perguntou se eu estava dentro do teatro, disse que sim, e ele me disse que viu de fora (por um telão), mas que conseguiu entrar para presenciar as duas últimas, e que tinha achado maravilhoso, perguntou o que eu achei; disse que estava chocado. Ele repetiu que havia achado fantástico só de presenciar as duas últimas, imaginava como deve ter sido presenciar tudo como eu havia feito - ou seja, queria mesmo saber a minha opinião.
Disse: "estou chocado, desde o começo me choquei, desde que entrei e vi o palco; foi muito forte pra mim, uma carga emocional pesadíssima, estou num momento complexo e confuso da vida, isso que aconteceu dentro daquele teatro agora a pouco me chocou, me afetou e eu não sei te dizer a dimensão disso. Eu estava lá, e mordi o meu joelho chorando depois que acabou".
O rapaz pagou o que comprava, eu paguei o que eu comprava, e sai da loja.
Do lado de fora - ainda no posto - me encontrei com uma transeunte responsável por parte da complexidade toda anterior (e como) a todos aqueles anos que vivi dentro daquele teatro naquela noite, e lhe contei também sobre o joelho.
Acrescentei ainda: "ele não tem o direito de fazer isso", ela me interrompeu e disse: "ele não tem o direito de fazer isso com a gente".

É forte.
E é verdade.
Conforme disse acima, agora - enquanto escrevo - ainda estou trêmulo.
Pois é forte.
Pois é verdade.


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