domingo, 30 de dezembro de 2012

Final do Ano.

Na verdade,
Eu nem sei onde eu tô,
Não agora,
(Momento de digitação),
Mas sim agora,
(Momento teu de leitura).

Não posso dizer onde estou,
Para você que lê,
Pois,
Para eu que escrevo,
Ainda é onde estarei.

Agora (na escrita),
Estou aqui,
Agora, na leitura,
Não sei dizer,
Nem onde,
Nem como.

Estou escrevendo,
Na verdade,
Pelo gosto de brincar,
Com as palavras,
Pelo gosto de pensar,
Que exista quem as leia.

(Mesmo que numa postagem furreca e xexelenta dessas de final de ano, contraditoriamente, sem desejar boa virada ou boas entradas nem nada de positivo ou engrandecedor).


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Lembrança pouco após a meia noite.


Como já disse em 2011, o natal me vale por estar junto com toda a minha família, não somos cristãos fervorosos nem nada do gênero. Porém, sempre nos reunimos (não com o time completo) no dia 24 para uma intensa janta/ceia, e quando os fogos indicam a meia noite sempre alguém estoura um champagne.
Não sei ao certo a razão disso: creio que na época de jesus nem haviam champagnes assim.
Este ano, seguimos o hábito: peguei as taças no alto do armário, minha tia trouxe o espumante da geladeira, o champagne fora estourado, colocado nas taças, brindamos a nós mesmos e bebemos um pouco cada um.
Foi quando me sentei à mesa, e comecei a brincar com o objeto da foto (o arame que prende a rolha na garrafa), que uma forte lembrança me veio à mente.

Foi em algum natal entre 94 e 96 (no máximo 97). Quando estávamos indo da minha casa para a casa de meus avós - ponto de encontro da família - ganhei de algum dos vizinhos uma caixa com carrinhos de metal, carrinhos pequenos e simples, com os quais brinquei durante anos. 
Lembro que haviam carrinhos temáticos: um de corrida, um fusquinha, um caminhão de bombeiros e um guincho. Este último veio com um defeito: não possuía gancho em sua traseira. 
Já passava da meia noite, e não me recordo se mostrei para o meu vô que o guincho não tinha gancho ou se foi ele mesmo quem viu. O que me recordo (e que me lembrei hoje, pouco após a meia noite) foi do meu vô pegando o arame da garrafa de champagne estourada naquela noite e, com auxílio de uma tesoura, moldando um pequeno gancho e o prendendo na traseira do guincho.
Que doce lembrança, pouco após a meia noite.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Breve nota apoiado na entrada do Conjunto Nacional.

Não sei se é correto dizer que me tornei visceralmente interiorano, ou preconceituosamente "caipira". Fato é que não consigo mais perambular por São Paulo sem arregalar os olhos, demonstrando e expondo minha perplexidade ante a constatação sobre como São Paulo é hostil.

Para além da breve nota:

O motorista da lotação que me levou até o metrô dirigia o veículo com uma voracidade descabida, não desviava de buracos e parecia não se lembrar que estava conduzindo humanos, ao insistir em freiadas dignas de fórmula um. 
O metrô não estava cheio, é verdade, foi enchendo aos poucos, e a grande maioria das pessoas desceu na mesma estação que eu, por conta dos festejos públicos do natal. Apesar de se tratar de festa e de lazer, a hostilidade paulistana rebatia novamente em mim, com tantas pessoas andando com pressa, com seus corpos se trombando e pedidos de desculpas sendo negados com olhares carrancudos e, não bastasse, tantos pisões em meus pés doloridos.
Após o chorinho (uma ilha de amor, em meio a tanta brutalidade), veio a espera sozinho, o atraso alheio, a bunda doendo no degrau duro da frente do bar que enchia, de pessoas que brigavam com o cara que usou droga demais, que xingavam o senhor que vendia cervejas na calçada...
É muita hostilidade, como pode?


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Plano Ilimitado.

A atendente da loja de uma operadora de celulares olha para mim sem empolgação ou desmerecimento - "é apenas mais um cliente", deve pensar - quando entro nesta loja pela segunda vez nesta tarde. Me aproximo do balcão e ela diz, fingindo algum pesar:
-Putz, se você voltou aqui acho que não deu certo o desbloqueio na outra loja.
Com os olhos semi cerrados, e apertando a boina com força na mão esquerda, lhe respondo:
-Na verdade deu certo, eu voltei aqui pois me apaixonei por você. A forma como você me atendeu quando vim aqui, a forma como manuseou o aparelho celular, a forma como me ofereceu um chip de outra operadora. Tudo isso me encantou, eu estou apaixonado e voltei para te dizer isso.
Ela se desconcerta, a postura rígida (de quem acredita ter algum poder por estar atrás de um balcão) é trocada por uma postura mole de quem fora surpreendida no coração. Tentando retomar a dureza e seriedade no atendimento ao cliente, questionou ainda sorridente:
-Mesmo?
Coloquei a boina de volta na cabeça, a ajeitei segurando pela aba e disse:
-Mesmo um caralho! Essa empresa é uma merda, o cara da outra loja me tratou mau pra cacete, me deixou mais irritado ainda! E se vocês não desbloquearem essa porra desse celular eu vou baixar a bermuda e cagar no meio dessa loja agora!

Meu celular não foi desbloqueado: mas eu fui deslocado do interior da loja, para o exterior do shopping.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A Ferro e Fogo.

Não conheço a origem dessa expressão, e (como tem sido recorrente nestes textos aqui publicados) nem me interesso por saber: a origem, a história, o porque; quero mais é que explodam. Quero mesmo é falar sobre o que estou sentindo, e ai, me valer do que apreendi da expressão é o mínimo suficiente para extrair o máximo necessário da situação de parar para escrever: expressar o que sinto.

Ferro:
Meu bem, a gente sabe que elevador é feito de ferro. Tem uma porrada de coisa lá que tem ferro: cabos de aço, porta rígida, botões macios etc. A gente sabe que aquela coisa que bombeia sangue e tudo o mais, é repleta de válvulas (que não são feitas de ferro); e sabemos também que o que ela joga pra cima e pra baixo e faz rodar o corpo todo, também é feito de ferro: o sangue, sim, aquele que ferve (e que não é "suco de laranja nas veias" ou mesmo que "não é de barata").
Meu bem, pra que tanto ferro? Tanta lança pontuda afiada? Tanta armadura.


Fogo:
Na verdade, e serei sincero aqui, eu prefiro doce. Ou, para ser mais coerente com a sinceridade (o que implica em ser mais sincero) eu prefiro quando pega fogo. Fogo é combustão, é junção: o fogo não se cria sozinho, é necessário reagente e ação (ou ação e reagente, não sei a ordem). Fogo se cria no inferno, e também na calmaria. Sem fogo pode se criar um inferno. Sendo fogo pode se criar um inferno. Sendo um inferno pode se criar o pejorativo, fogo - "é fogo!".
Meu bem, pra que tanto fogo? Tanta queimadura de 3º grau? Tanto incêndio.


Sobre as fotos: Ferro, é em uma construção; Fogo, é em um cemitério.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sobre pães de queijo e fim de romance.

Fim de tarde em Outubro, sentados (e apenas sentados) no sofá da sala da casa de um deles, de frente para um ventilador que gira:


-Você gosta de pão de queijo?
-Gosto.
-Hm.
-Por que a pergunta?
-Não sei. Não estamos falando nada, e eu lembrei da cena do filme do "Menino Maluquinho" em que ele faz pão de queijo.
-Nunca vi esse filme.
-Eu vi, é bacana. 
-Hm.


Começo de tarde em Janeiro, perambulando pelo Terminal Rodoviário Barra Funda:



-Olha, pão de queijo!
-Sim.
-8 por um real!
-Sim.
-Você gosta de pão de queijo?
-Você já me fez essa pergunta antes.


Fim de romance.





sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Quebra-Quebra.

                          Nóis quebra uma procêis,
                                                Cêis quebra uma pra nóis.
                                                                                                     Nóis quase quebra cêis,
                                            Cêis quase quebra nóis.

                                                   Não quebra a parceiragem,
                              Nem toda a irmandade.
                                                                       Foi total molecagem,
E total sem maldade.


domingo, 2 de dezembro de 2012

Isopor/Maionese.

É rapaz, o isopor é inflamável. Me parece que é feito de plástico, ou material semelhante. Não vou abrir o wikipedia para pesquisar isso agora, e colocar aqui - com ares de "este escritor tem certeza" - qual a origem ou matéria prima ou principal elemento de composição do isopor.
Não sei. Sei que isopor é inflamável.
E isso, de verdade, bastou para o momento em que o isopor pegou fogo. Na verdade não pegou fogo, não se tornou uma alta chama, com diversos tons de vermelho e amarelo, criando laranjas ofuscantes. Só  se derreteu, em um formato circular, e depois, um pouco mais ao lado, outra leve derretida em formato circular.
Se a fonte do calor tivesse permanecido por ali, com certeza o isopor teria queimado mais. Ou apenas derretido mais. Ou apenas chamuscado. Não sei o que poderia ter ocorrido, e como não tinha o wikipedia para abrir no momento, achei por bem isolar a fonte de fogo da base do isopor.

"Tem maionese, no outro pote de isopor", disse a minha cabeça. 
Peguei a embalagem com o resto desta mistura, que me parece ser feita de laticínios e ovos, e temperos outros, ou, enfim: não sei do que é feita a maionese, e não importa.
Um pouco da mistura de ingredientes que desconheço foi despejada sobre a superfície semi-queimada composta por matérias que não sei quais, e o foco de calor foi, então, repousado sobre a primeira - a maionese - e apagou por completo, sem danificar o segundo - o isopor.

Deixados de lado - o isopor, a maionese, e a fonte de calores - com extrema propriedade, sem necessidade de wikipedia ou quaisquer veículos e meios de rápida e pobre pesquisa, posso dizer sem sombra de dúvida: como inflamamos.


"Século XXI pegando fogo, e a gente apagando cigarro em montinho de maionese".

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sobre fingir que não conheço.

Naquele dia você surgiu de forma abrupta (sem rodeios, sem avisos, nem nada do gênero) nos espaços que eu ainda compreendia como meus - ou "mais meus do que teus". Respirei fundo encarando meus cadarços desamarrados, e busquei alguma decisão. Como gosto de dizer, "decisão mediadora de ação". 
Amarrei os barbantes do tênis para que pudesse dar os próximos passos de maneira firme: "é, vou ter que fingir que não a conheço". 
Perambulei pelos espaços com os olhos atentos, para que, quando te vissem, fingissem que não viram.
Tardei em ver-te novamente, e quando vi, era como se não visse. Sentia que você olhava para mim, mas não havia retorno. Passei por você, duas ou três vezes, mas fingi que não te vi.
Aliás, fingi não te conhecer. 
E por não te conhecer, não sabia quem era você. E por não saber quem era você, eu não tinha por que te olhar. E por não ter por que te olhar, deixei que seu corpo passasse batido como mero corpo (mero ingrediente na massa).
Na terceira vez em que passei por você, fracassei no plano de fingimento, e acabei por lhe olhar nos olhos: "são dois olhos", pensei, e retomei o rumo de meus passos, que te desconheciam. Mas, mesmo assim, percebi o seu retorno, como um encarar de desdém, misto de "como pode fingir que não me conhece?" com "como pode fingir que não está me vendo?" com "algum floreio metafórico-poético de terceira categoria que você diria com a voz engrossada".
Um pouco baseado naquela lógica judaica, que diz que para manter a honra deve se dar um "troco na mesma moeda", eu fingi não te conhecer: pois foi assim que você agiu quando optou por não me ouvir.


terça-feira, 27 de novembro de 2012

De Novo.

Resguardo (confio e visualizo),
Toda a segurança do meu universo,
Em uma geladeira,
Um armário de cozinha,
E esta mesa.

Considero que, de novo,
Não preciso de mais nada,
Tenho aqui comigo,
O que preciso,
E ponto: caminhão.

Quem me dera,
Ser Tartaruga.

Não tenho um puto,
Olho em volta e caixas,
De novo a vida em caixas,
E não será a última vez,
Já foram tantas.

Mas, inseguro e sem nada,
Apenas com alguns pesos a mais,
Vejo as caixas rindo de mim e penso:
"Envelheço e tudo aumenta,
Sobretudo minha capacidade de errar".


***



A torneira que eu esqueci aberta,
Não tardou a inundar,
Todo o prédio;
Mas eu sobrevivi, 
Eu sobrevivi,
Eu sobrevivi,
(Caralho).

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Desespero ante o fim em 3 atos e 1/4.

0) 

[Ou: "eu sempre me aterrorizo quando os fins se anunciam em meus horizontes, desta vez não haveria de ser diferente: quando foi que pensei que sairia impune?"].

***

3)

Recém Convertido,
Que liderava a luta,
Rende-se à vida adulta,
Distribuindo curriculums em branco.

***

1)

Do portão para dentro, nada mais é novidade para mim. Os espaços, em termos físicos, não me resguardam mais nada: eu já sei de cor os caminhos e percursos; já sei quais bebedouros funcionam e quais não; já decorei também algumas conversas escritas nos banheiros, há tanto tempo frequentados.
As pessoas que adentram os portões, não, essas sim me guardam novidades. Estão sempre indo e vindo, novas vem, velhas (e queridíssimas!) deixam de perambular por aqui.
E eu fico.
E a perspectiva atual é de permanecer mais um tempo por aqui, adentrando por mais algumas dezenas de vezes estes portões.
Pois eu estou saindo no prejuízo, e por sair no prejuízo, torno a passar pelos mesmo portões - tão vãos de novidades.
***

2)

Porra, larga destes floreios avermelhados caralho! Se solta deste raciocínio saudosista-medíocre-medroso-de-merda. Se liberta desta vagabundagem-enrustida-desenvolta.
Passa uma camisa, arruma a cara, inventa um sorriso; finge ter uma história, ser um histórico; simula saber ser mais do que é, simula ser o que já foi.
Mas vai, porra. Ou não. Foda-se.
Foda-se nada! Vai, porra!
Levanta dessa mediocridade-infiltrada-barrosa, o domingo às segundas não mais; levanta desta moleza que não leva a nada e não levou a nada e você sabe, e eu sei - larga desta terceira-pessoa-impessoal-cretina. 
E como sabe bem, que se esta merda não fosse uma página surrada em um caderno velho (achado às pressas nos escombros do quarto), mas sim fosse um pedaço de um caco de espelho, você veria essa cara de quem não se levou a nada (não se levou à sério), só se escorou, e escorregou, e quando se apegou e tentou ir pra frente, não era nada de sólido, não era chão firme - não era para você!
Era só sabão.
Um caco qualquer de espelho quebrado revela: é só sabão.
E sabão escorrega, vira espuma e se desfaz; vai com a água, é absorvido pelo asfalto, pela esponja; se torna bolhas, elas voam, mas não duram: ploc.
Pega esse monte de folhas que tem que imprimir, enrola bem - faz um cone- e dá com ele na própria cara; aproveita a maldita capa dura, para se dar uma surra; prepara a cara pras demais porradas (externas) que já se anunciam.
Malandro Otário; Frango de Granja, Molenga, Moleque.

***



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Coxinhas.

[devo iniciar a prosa aqui, como incio em "saia"]:


Na verdade, eu sou encantado por esse tipo de coisa.
Neste caso, até disfarço; às vezes, a muito custo.
Disfarço, desvio o olhar; finjo até ignorar.
Já houve momentos em que eu disse algo.
Sempre tem uma máquina de massa em minha cabeça.
E uma panela repleta de recheios em meu crânio.
Não sou cozinheiro.
Tampouco massagista.
Muito menos dono de lanchonete em Bueno de Andrada.

Quando me recordo,
Do dia em que comemos coxinhas,
Eu lembro das tuas pernas,
Sobre as minhas.






O 2º maior prejuízo que já passou pela minha vida.

Há algumas semanas escrevi sobre um bosta que "age de má fé", e, de fato, ele age. Seu bosta. No final deste texto, indiquei que "você é o maior prejuízo que já passou pela minha vida". Talvez o maior que já passou por minha vida toda, até agora, seja um exagero. Pensando bem, se considerar os últimos 355 dias desta vida, talvez não esteja sendo tão equivocado/exagerado/injusto.
Na caminhada até o almoço, fomos conversando sobre os futuros. Na volta para casa, caminhei conversando comigo mesmo sobre os passados. Aliás, verdade seja dita, não é de hoje que pensar no que fiz (nos passados) e no que farei (nos futuros) tem transbordado minha mente, e não tem sido por falta do que fazer (nos presentes).
Cheguei à conclusão de que o citado bosta, apenas se faz assim, em razão do segundo maior prejuízo que já passou pela minha vida (tudo bem, nos últimos 355 dias). Recorro, novamente, ao "aliás": uma vez que ele (o prejuízo) não passou, mas sim foi posicionado por mim nesta vida, nestes dias, de formas bem específicas. 
Alguns, mais espertos, pularam fora enquanto era tempo; outros, talvez menos espertos, mais esperançosos, mais ingênuos, menos toscos, foram ficando e agregando e somando e indo e vindo e formando este caldo  de um monte de coisas por fazer/pagar/arcar. 
No fim das contas, restou só um sopão ralo, pois às vezes demoramos para perceber que, como diz a música do Pearl Jam, "this is not for you". Infelizmente, isso não é para nós.
Foi então que percebi que todas as mudanças foram em vão: faltou-me foco. 
E entre todas as guinadas que fui construindo neste ano (que já se anuncia como "próximo do fim") observo, com clareza de detalhes e de momentos, como talhei - pouco a pouco - o segundo maior prejuízo que já passou pela minha vida.





terça-feira, 20 de novembro de 2012

Embarques/Desembarques.

Sentado no banco velho da rodoviária nova (angustiado, não nego) um ônibus encosta na plataforma que há bem em frente a mim. Um ônibus da empresa que exerce o monopólio sobre os transportes rodoviários coletivos nas estradas da região, e no qual costumam viajar pessoas como eu e vocês.
Por alguns instantes fechei o livro que estava tentando me obrigar a ler (faz tempo que não consigo ter foco para, apenas, ler) e me concentrei em observar as pessoas que desciam do veículo parado. Eram muitas.
De forma estranha, senti medo. Um medo específico, de que surgisse, de repente, alguma das pessoas que já esperei aqui; medo de que descessem deste ônibus uma ou duas delas.
Ponderei, e deixei os medos fluírem em mim, aquela história de deixá-los correr pelo corpo junto com o sangue (ou como o sangue).
Entendi que tive medo do idiota sentado no banco duro de frente para a plataforma em que estacionam os ônibus. 
Tive medo do relógio quebrado pendurado no teto da rodoviária, quebrado há anos, e a tanto tempo servindo como poleiro para as pombas. 
Tive medo do babaca que chegou aqui - uns anos atrás - para ler e escrever, e hoje tem de fazer uma grande força para conseguir ter foco mental sobre as letras já escritas.
Tive medo dos anos.
Outro ônibus, e mais pessoas, e mais lembranças, e mais medos (minha memória ainda vai me matar). 
E do medo, vieram as perguntas retóricas (pois é sempre assim): quando foi que eu deixei de ser daquele jeito? "Quando" não, pois indica algo repentino, que mudou "do nada"; então, como foi que eu fui deixando de ser daquele jeito?
Como foram estes anos todos passando por aqui volta e meia, e indo de novo, e voltando, e dando meia volta?
E as pessoas, em meu primeiro embarque aqui (como dói lembrar dele). 
E as pessoas nos embarques mais desesperados, nos desembarques mais tranquilos, nos que antecediam férias. 
E as pessoas que me esperavam aqui nos desembarques, que me acompanharam nos embarques...

Espero só que o meu ônibus chegue logo, para encerrar esta tortuosa sessão de lembranças sentado em banco velho de rodoviária já não tão nova assim, nem pra cidade, nem pra mim.



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

E nem era tão tarde assim.

Não sei dizer ao certo se a banda é boa ou ruim. Não estou bêbado, e nem a música me serve meramente como trilha sonora, pano de fundo para trocas de olhares ou coisa do gênero.
Simplesmente, estou cansado, e a música já não faz diferença - o vocalista, de fato, parece o Jim Carrey em "O Pentelho" - mas para o meu cérebro, moído pelas correrias, cansaços e excessos das últimas horas, a música já não faz a mínima diferença.
O que é triste, pois eu gosto de música.
O que é bom, pois me recorda que nos próximos dias tem muito mais roque.
Ps: levantei e fui fazer xixi, só para me distrair um pouco.
Ps1: e nem era tão tarde assim.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Serei eternamente encantado por você.

Não sei dizer ao certo quando te conheci. 
Honestamente, não me recordo da primeira vez em que nos vimos. Tampouco, não tenho lembranças da primeira vez em que entrei em sua casa, e, menos ainda, não tenho ideia de quais foram as primeiras palavras que trocamos.
Também não me lembro da primeira vez em que comi alguma comida preparada por você, e nem da primeira vez em que rimos juntos ou que te fiz rir falando qualquer bobeira.
Talvez você se lembre disso tudo.
Passados tantos anos e vividos tantos momentos, creio que todos estes debutes que listei acima se tornam pequenos, mas não dispensáveis: são os pontos iniciais desta linha que me felicita tanto por viver na vida.
Não me recordo da primeira vez em que entrei na tua casa, mas me recordo de infinitas vezes em que passei pelas portas das tuas moradas, e você me aguardava nelas sorrindo (ou cochilando com um livro no colo). Aliás, não é incomum que eu me recorde do teu riso suave me observando entrar em sua casa e perguntando, após uma breve risada: "chegou bem?".
Pra não dizer que não me recordo de nenhum debute junto de ti, lembro-me da nossa primeira partida de buraco, naquela larga mesa, em que tantas vezes almoçamos, jantamos, tomamos lanches e certa vez você limpou a colher do sorvete em meu copo de suco.
Fato é que recordo-me de muita coisa, e sempre me recordarei.
São tantos momentos, antigos e recentes, tantos sorrisos e longas conversas - e me lembro também de choros e silêncios - que me fazem, sempre que lhe encontro, passar alguns bons instantes paralisado, olhando somente para você, e pensando (ou sentido) como sou e serei eternamente encantado por você, Vó.




domingo, 11 de novembro de 2012

Diálogo à luz do som.

"Mas cara, é só Zoom 505, talvez Zoom 505-II";

"É, a variação é pouca, a criatividade é nula";

"Sim, é disso que eu falo";

"Cê tem que entender, é assim que funciona: a galera curte assim";

"Mas parece que eu tô na festa da máquina de fotocopia";

"Meu, cê tem que entender que é tipo um lazer pro pessoal";

"Tudo bem, entendo, aceito e até tiro foto, mas cara, é muito pouco";

"Cê estica a mão e diz belo som?";

"Não digo, jamais direi; e se me pedirem ajuda pra descer com os equipamentos, não ajudo";

"Como cê é chato cara";

"Não se trata de chatice, se trata de convicção";

"Convicção em que?";

"Sei lá... Talvez na arte, talvez na criação";

(Hallowed By The Name é tocada integralmente, e o cara dá o braço a torcer):

"É, de fato, não é arte, não é criação, é só uma festa de fotocopias";

"São reproduções meu caro. E com efeitos digitais na guitarra".


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Cicatriz.


Ele se distraía com os fios brancos que se soltavam do sofá predominantemente azul. Cutucava uns, puxava outros. Até que tirou um fio grande, e brincou com este, o enrolou entre os dedos, fez um laço, desfez, fez um nó, desfez, fez uma bolinha e deu um peteleco para se desfazer dela, que bateu no chão e por lá ficou, sendo apenas um fiozinho retorcido.

Enquanto ele buscava qualquer coisa para se distrair (leia-se: fugir do olhar alheio) ela se concentrava em encontrar novos detalhes no rosto dele. Sabia que estava sendo inconveniente. Sabia que estava estranho estar ali. Sabia que não ficava a vontade com um ser humano a sua frente levando fios rebeldes de sofá mais a sério do que a ela própria. Sabia que queria levar aquela brincadeira toda com um pouco de seriedade.

“Nunca tinha visto essa sua cicatriz na testa”; “eu escondo”; “essa eu já tinha visto”; “tenho uma atrás, desse lado... não, do outro”; “eu tenho essa aqui”; “caramba, foi feio?”; “poderia ter sido pior”; “eu fui uma criança meio elétrica”; “espoleta, como diziam meus vizinhos”.

“Tudo bem, se você quiser, pode ficar tranquilo, não tenho planos de te deixar cicatrizes”; “se você deixar, eu te quebro”; “se você deixar, eu te quebro”.





segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Um elevador no peito - II.


1)
Não se fazia ideia das horas, o sol entrava firmemente pela janela de vidro fechada, o suficiente para iluminar todo o ambiente:
"Sai de perto", se disse.

2)
Os olhos estavam bem abertos, os olhares mesclavam tensão e um calor muito próximo aquele do sol:
"Cinco minutos", se falou.

3)
A janela de alumínio fora fechada, uma cabeça apoiada sobre o tronco alheio, coração não para de bater, e a cabeça se move no ritmo deste pulsar:
"Estou fazendo um elevador com o meu peito", se pensou.




domingo, 4 de novembro de 2012

Meu bem, é o fim.

Lembro-me de quando você chegou: eu tive de conter (no sentido de controlar as demonstrações públicas de) minha felicidade, pois você havia chegado.
Lembro-me que você atrasou um dia para chegar, e eu tive de fazer algumas ligações para descobrir o que havia te acontecido, e por que demorava tanto para chegar. Lembro de com foi difícil dormir desse dia para o seguinte, que seria o da sua chegada.
Enfim, você chegou, e eramos pura alegria: tínhamos um mundo para desbravar juntos!
Quantas vezes viajamos? Eu não saberia dizer.
Quantas coisas criamos? Eu não saberia dizer.
Quantos amigos, quantas conversas, quantas fotos, quantos vídeos, tudo isso juntos. Como saber dizer?

Mas então aconteceu de você ficar mau uma vez, e ser necessário parar a vida para estar ao seu lado, segurando a tua mão, com a fé de podermos tornar a ser o que eramos antes.
Você se recuperou, a alegria voltou, nós voltamos!
Mas a verdade é que durou pouco, e nunca mais fomos os mesmos: passado algum tempo você ficou mau novamente (eu também), isso tudo nos afetou, mas não desdemos as mãos; estávamos juntos!

Agora, meu bem, pela terceira vez encaramos uma forte desestabilização em você, em nós. Eu não sinto mais tanta vontade assim de estar ao seu lado.
Desejo apenas sair te chutando daqui até a rua e atear fogo em você, computador filho da puta.





quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Você age de má fé, seu bosta.

Já faz algum tempo venho observando formas cotidianas de se postar ante as repetições da vida. Mais do que isso, venho observando formas repetitivamente xaropes de se postar de forma cotidiana ante a vida coletiva. Não, não vou resmungar sobre o que já resmunguei no último domingo.
Há quem diga em momentos difíceis, como de problemas de saúde graves em algum parente, que "agora toda fé é válida", falando de religião, em si. Por outro lado, há também quem diga que nenhuma fé é válida, pois movem sentimentos e ações deploráveis, como guerras e ofensas rotineiras às outras fés.
Pouco me importa a religião, me interessa agora acusar, independente de deus ou de versão do testamento.

Primeiro de tudo, faz-se necessário repetir: seu bosta. 
E, sim, você é um bosta. Não me venha com o papo de que é esquecido e de que é distraído, sabemos que não é verdade, você é bem espertinho - embora muito burro em alguns aspectos - para dizer que "deixou de lembrar" de alguma coisa.
Segundo de tudo, faz-se necessário repetir: você age de má fé. 
E sabemos que age, pois deixa de lado o que não convém, e só te convém o que é teu, o que pode lhe render frutos. Aliás, corrijo: te interessa o que é dos outros, até que você sugue a última gota, o último pedaço, a última possibilidade, depois, você esquece, seu bosta.
Terceiro de tudo, faz-se necessário enfatizar: você age de má fé, seu bosta. 
E é por ter esse tipo de ação, tão nítida em seus passos cotidianos e tão perceptível nas repetições diárias, que digo com extrema certeza: você é o maior prejuízo que já passou pela minha vida.

Seu bosta.


domingo, 28 de outubro de 2012

Os meus projetos.

Dentre as bandas de hard core paulistanas que eu gostei e acompanhei em São Paulo no período de 2004 a 2006, uma delas era o Fullheart. Na música "Inferno e Distância", sempre se destacou para mim o seguinte trecho cantado: "os meus valores viram motivo de piada". No fim da manhã deste domingo penso, me valendo da estrutura deste trecho, que "os meus projetos viram motivo de piada". Talvez, de fato, sejam assim facilmente transformados em motivo de piada pois eu não sou sério, e quando dedico o supra sumo do meu coeficiente de seriedade, ainda assim me parece que quem está ao redor os encara mais com 'rs' do que com 'ok'.
E face considerável do problema está justamente nisso: em quem está ao redor.
Muitos projetos não podem ser "meus", eles tem de ser "nossos", pois para que perambulem entre o 'mundo das ideias' e o 'mundo das ações' (sendo, então, projetos colocados em prática) um corpo, uma cabeça, um coração não bastam, é necessário mais. É necessário um você que faz aquilo, é necessário ela que sabe aquilo, é necessário ele que articula aquele outro negócio etc.
A maioria dos projetos em que me vejo envolvido hoje em dia tem essa característica: dependem de outros para dirigir o carro, de outros para fazerem determinados contatos, de outros para tocarem determinados instrumentos etc. Coloquei sim, alguns projetos que se pareciam coletivos na frente de outros individuais. E no limiar da construção de confiança nestas ações coletivas, coloquei no quartinho dos fundos alguns projetos que devem caminhar de forma mais individualizada - no clássico embate "coletividade x individualidade", em alguns aspectos dei a chance de triunfo ao primeiro, noutros ao segundo. Observando já de longe (os meses voam, não é mesmo?) pondero sobre a possibilidade de ter respondido corretamente as questões, mas colocando a resposta de uma, no campo dedicado à resolução da outra, e vice versa, o que - na matemática escolar - configura duas respostas erradas.
Não estou arrependido (como é praxe se dizer nessas situações), mas individualmente vou lavar a louça coletiva do final de semana entre resmungos, músicas tristes e possivelmente lagriminhas; que desta esponja saia alguma definição, aliás, alguma "define ação", do jeito que tá/estou não pode seguir.
(Não sei, era pra ser um desabafo, mas, na verdade, acho que o negócio é voltar os ouvidos pro hard core, e torcer para que os projetos sejam menos piadas, e mais concretizações de relativo/relevante sucesso. E que os "projetos coletivos em que me envolvo" sejam menos "os projetos individuais que coletivizamos e me envolvo").
 
Ps: em suma, em termos de projetos que naufragam, em termos de piadas ruins, em termos de investimentos equivocados, em termos de passos sem rumos em finais de noites, enfim, em termo disso tudo, pouco a pouco vou chegando à uma conclusão precisa acerca desta vida: 2012 está sendo um ano que não deveria ter existido.
 
Essa foto ilustra muito do tudo que eu disse acima.
 
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Acerto de contas.

Breve relato de José Gomes Neto - V:
 
 
"Quando saí de casa, eu não precisava ter saído, até seria melhor ter ficado. Ela disse para nos encontrarmos em uma padaria no centro da cidade, para tomarmos um café, numa tarde de domingo. Não entendi, mas fui. Cheguei um pouco atrasado e ela já estava sentada em um dos bancos em frente ao balcão, sobre ele, um caderninho e uma caneta. Me aproximei, trocamos um beijo no rosto (meio torto e meio tortos), e me sentei; pedi um café preto "igual o dela". Ela abriu o caderninho, com as folhas já amareladas, e mostrou anotações - números e contas - antigas, algumas quase invisíveis, como se a tinta da caneta tivesse sido sugada pelo papel. Pouco a pouco foi me sugando pelo seu discurso, palavra a palavra, risco a risco no caderninho. Ela arrancou algumas folhas, com a ponta do dedo molhada de café, fez manchas amarronzadas sobre o texto, antes de amassá-las e jogar no lixo. Pagamos os cafés, cada um os seus, saímos e nos sentamos na beira da calçada. Acertamos nossas contas: "você também sente como se tivéssemos nos atrasado pra pagar isso tudo?". Sorri, andamos, demos tchau; ela jogou o caderninho no lixo do metrô, tenho certeza".
 
José Gomes Neto,
13 de Julho de 2003,
Jovem e rancoroso.
 


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Sentados à mesa.

Parte II - "Dois":
 
Aquele preciso instante, sentados à mesa, em que um dos dois começa a se referir às coisas (vividas antes de se sentarem à mesa naquela data) como um texto alinear, espécie de "massa pré-ponto final". Talvez seja o começo do talhar de um ponto final sobre o plástico duro da mesa de bar.
Inicia-se o desfile gélido de termos no pretérito imperfeito, aquele tempo verbal em que não há espaço para o futuro, e cujo presente pode ser rapidamente suprimido no suspiro tranquilo de dois "tchaus" amenos. Pode, não deve: estão sentados à mesa, e a possibilidade do diálogo entre os dois (que são dois) é realmente concreta, e se faz.
O outro lado pede permissão para, coçando a mesa como cutuca o cérebro, assumir que ficou com medo diante de tanto pretérito, e de tanta imperfeição, assim, de repente - e sinaliza que ter medo nem sempre é ruim.
 
Parte I - "Um e Um":
 
Aquele preciso instante em que não se sabe ao certo onde se está, mas se percebe estar em um lugar bom: sentados à mesa, frente a frente, mediados por copos. Se percebe que o lugar é bom, pois o silêncio frequentemente é rompido por palavras e sorrisos, ora de um, ora de um: "sorriso é bom".
Não são dois à mesa, neste momento, é um e um, sentados à mesma mesa, talvez por curiosidade, por desejo, por improbabilidade ou mesmo por curiosidade acerca de um desejo improvável; as coisas nunca são tão estáticas assim.
É aquele precioso instante em que não se pensa se haverá outras mesas, outros copos, outros desejos, outras casas etc. Não se observa a possibilidade da criação de uma massa textual/conceitual repleta de sabores, até por que, "além de improvável", nenhum, nem um, tem isso em mente.
São apenas um, que saiu de sua casa, e um, que saiu também de sua casa, para se encontrarem e conversarem sentados à mesa, sem pretensões sobre o tempo de duração da conversa.
 
Parte III - "A mesa":
Que se conste, apenas pelo esforço de adicionar alguma ironia no enxerto: a mesa de "II" e de "I" é, geograficamente, a mesma.
 
 
 
 
 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Essa tal seriedade.

Tenho um sério problema na vida com o termo "sério" e suas variações: eles me perseguem. 
Foi em meados do fim de Agosto de 2005 que isso começou. Nesta época era um jovem rapaz no auge de seus dezesseis anos, que se vestia com bermudões pretos longos, tênis madrats, camisetas de bandas de hard core e grunge (algumas ainda uso até hoje) e, religiosamente, um boné daqueles com redinha atrás. Era o período em que andar nas ruas significava colar adesivos (nunca gostei do termo sticker) em postes, placas, semáforos etc.
Em Agosto daquele ano o eu sujeito descrito acima estava vivendo um namoro com uma bela jovem, que ia para a escola com camiseta vermelha estampada com o rosto do Che Guevara. Eramos um casal simpático, gostávamos das aulas de história, geografia e literatura, e conversávamos sobre algo que entendíamos como "arte crítica" e política. 
Certa vez, já à época do término do namoro, não sabíamos muito bem como lidar com isso (aliás, não sabíamos bem como lidar com nada daquilo que sentíamos e vivíamos) após uma briga, a garota fora questionada por uma pessoa relevante em sua vida: "como você pode levar a sério alguém que se auto intitula Coiso?".
Os anos foram passando (já se foram sete) e volta e meia alguém questiona o meu coeficiente de seriedade. São amigos, parentes, pessoas com quem desenvolvo trabalhos, pessoas que assumidamente me repudiam etc, que apontam uma capacidade minha para não ser sério ou questionam (negativamente) posturas de não seriedade.
Reconheço que não sou cotidianamente sério, que não transpareço seriedade; aliás, assumo que só me concentro em ser sério quando entendo se fazer extremamente necessário, no restante do tempo piadas, sorrisos e ironias me soam mais coerentes com a chatice da vida do que respostas objetivas e cruas.
Então, pessoa próxima da garota com camiseta do Che Guevara (e todos vocês que sempre questionam a minha seriedade), lhes pergunto: se essa seriedade que vocês veem como ausente em mim é tão bacana, por que até quando estou ranzinza estou mais bem humorado que vocês?

***

A imagem abaixo é um desenho feito por mim em 2008, para ilustrar e intitular um grupo de músicas compostas por mim entre 2007 e 2008. Na época, eu achava que a faculdade (e tudo o mais) me conduziriam a ser plena e integralmente sério. Há dois meses de encerrar a graduação fui novamente questionado sobre "ser sério"; e, consequente a isso, o texto acima indica que eu estava equivocado neste 'achismo'.
A quem possa interessar, as citadas músicas estão neste link.



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Eu gosto é de viajar.

E
Se
Desse
Certo
Seria
Bacana
Que
A
Centralidade
Da
Minha
Vida
Envolvesse
Perambular
De
Cidade
Em
Cidade
De
Lugar
Em 
Lugar
E
De
Etc
Em
Etc.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Aquele segredo.

Num dia torto, desses dias desequilibrados, nós começamos a beber cedo. Posso estar equivocado, mas era uma segunda, o que torna a bebedeira imoral sob alguns pontos de vista. Os copos bem recheados - nunca vazios e nada tortos - por vezes se tornaram cruéis vilões, pois ganhavam a atenção dos teus lábios, e faziam você parar de sorrir por alguns instantes. Entre um sorriso e outro, você dava um gole e outro; e certamente bateu o dente frontal (aquele que é um pouquinho desalinhado aos demais) na borda do copo, por uma ou duas vezes.
Eu precisava sair (levar algo à alguém). Meu plano não era ir embora, e com você pedindo, primeiro, para eu ficar e, segundo, para eu voltar, não havia outro rumo a ser tomado, se não ir, entregar algo à alguém, e retornar. 
"Vem comigo", eu disse, você relutou. "Vem comigo, e no caminho eu te conto aquele segredo que fiquei de contar", você balançou - já fazia tempo que bebíamos, manter-nos retos era algo difícil - e então você topou, mas dizendo que iríamos e voltaríamos. Claro, que mais posso querer se não voltar com você?, foi o que eu devo ter pensado, alisando seus cabelos ou suas bochechas, embora eu tenha dito apenas: "é".
Os copos foram recheados pouco antes de cruzarmos o portão, foram conosco, mas rapidamente ficaram vazios. Distantes das fontes que os enchiam, se tornaram objetos para distração, sendo um deles mordiscado por mim entre uma palavra e outra, afinal, eu estava te contando aquele segredo. Quando eu começo a falar costumo criar pausas apenas para morder copos, os cantos dos meus dedos ou lábios que sentenciam "cale-se", me calando objetivamente.
Apesar da sombra das muitas árvores em grande parte do trecho do caminho, feito zonzamente a pé, recordo-me da sua expressão atenta ouvindo cada detalhe do que eu dizia. Quer dizer, parecia que você estava atenta, ao menos curiosa, com a orelha direita próxima da minha boca que falava sem parar, levando a sério o que eu anunciei que seria dito como um segredo. 
Porém, assim como no dia em que eu levei flores, devo reconhecer, não era nada de mais, talvez nem pudesse ser considerado segredo: estava apenas contando uma forma minha de encarar  alguns aspectos da vida, algo que não costumo dizer para todo mundo por ai. Dizia como guardo rancores de coisas imbecis, e como isso norteia algumas ações e dedicações minhas.
Talvez pudesse ser considerado segredo, pois eu nomeava coisas (e pessoas) imbecis, e relatava ações rancorosas construídas por mim para lidar com estas de modo semi-vingativo.
De certa forma, é um segredo.
Avistamos o local em que eu deveria entregar algo à alguém, já havíamos deixado os copos plásticos nalgum lixo pelo caminho, e, se minhas lembranças não estão tortas, uma mão se distraía com os ombros, cabelos e nuca um do outro.
"Tudo bem, eu também não gosto de chegar nos lugares abraçado", eu te respondi.
Repetimos o trajeto a pé, ao contrário: voltamos. Mas o assunto da volta, eu não me recordo; certamente falávamos com amor sobre alguma das coisas e pessoas imbecis listadas na ida.


***
Flick your cigarette, then kiss me.



domingo, 14 de outubro de 2012

Fure meus olhos.

Estou brincando com uma tesoura de ponta afiada, ela serve para cortar linhas e tecidos, mas há pouco a usei para cortar papéis. Ela cumpriu bem o papel de cortar papel, agora cumpre bem o papel de distrair minha mão esquerda enquanto deixo a direita descansar sobre a mesa, esperando por respostas tuas neste mundo virtual.
Percebo que além de fibras entrelaçadas da celulose, existe por aqui certo desejo de utilizar o mecanismo simples desta junção de duas lâminas pontiagudas para recortar o calendário. Sim, esse desejo de recortar alguns quadradinhos - segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo - para que 'chegue logo o dia de chegar' está se fazendo presente.
Assim como também se faz presente o desejo de saber recortar e organizar muito bem estas palavras e linhas e composição textual toda. Pois, supõem-se prerrogativa da literatura, a leitura. Vai que você me é uma leitora, e o texto encanta, e as palavras cinzas sobre o fundo preto se tornam um beijo vermelho estampado em minha bochecha direita?
É melhor escrever melhor.
Abri e fechei a tesoura devagar, observando o movimento lento dela, observando o reflexo da luz do teto do quarto na parte mais côncava das lâminas. Confesso que me lembrei das tuas pernas, cara possível leitora.
Você me respondeu, e eu te respondi, e vice e versa, pouco a pouco construímos um diálogo, bem centrado em assunto único através destas virtualidades.
"É melhor você parar de escrever essas coisas", ela disse, confirmando ser uma leitora.
Olhei para a tesoura, pensei: "a única forma de eu parar de escrever essas coisas, é furando os meus olhos".

Continuei olhando para a tesoura.
Continuei brincando com a tesoura.
Continuei escrevendo essas coisas.


sábado, 13 de outubro de 2012

Existe atraso?

[articula diretamente com: Tic Tac].

Breve Relato de José Gomes Neto - IV:

"Odeio ter que sair correndo assim, com passos desestruturados e moles, acordados de susto. Talvez acordados de súbito. Ela não tem relógio de parede, como eu, e seu computador estava desligado, restavam os celulares para ver as horas, e as cabeças inchadas da noite anterior para esquecerem das horas. Acordar e correr nunca é pra mim; odeio ter que sair correndo assim.
"Você está atrasado", ela disse. Vesti sapatos, arrumei o colarinho, os punhos, fechei botões e reergui o corpo: "não existe atraso quando tem alguém sorrindo desse jeito pra gente", foi tudo o que eu consegui dizer antes de sair correndo, e como odeio sair correndo assim".

José Gomes Neto,
03 de Novembro de 2010,
Recém empregado.