sábado, 1 de outubro de 2011

A moça da bala de coco.

Em Julho deste ano eu passava férias em São Paulo, e, certo dia, precisava pagar contas que já corriam sério risco de atrasar e se tornarem multas. Quando subia a rua da casa de meus pais, rumo ao "centro financeiro" do bairro, uma praça que conta com uns quatro ou cinco bancos, encontrei-me com uma mulher segurando uma cesta.
"Moço, quer comprar bala de coco?", ela me perguntou sorrindo.
Em sua cesta, dezenas de saquinhos recheados com bolotas em cores: verdes, amarelas, vermelhas e brancas. Cada uma era bala de coco com um sabor.
"Obrigado moça, mas não gosto de coco", um dos meus "não gostares" mais esclarecidos nesta vida: o coco sempre soou-me extremamente oleoso, e seu óleo remete a um sabor inconfundivelmente de sabonete, o que me faz não saber degustar iguarias feitas a partir do coco - exceto a água.
Mas ela insistiu, e já foi logo abrindo um dos saquinhos: "mas as minhas balas não tem o gosto do coco, experimente uma, sem compromisso"; e eu, insisti negando: "olha moça, além de não gostar de coco, estou sem dinheiro na carteira, e daqui a alguns passos ficarei com menos dinheiro ainda no banco" e lhe mostrei as três contas que levava numa das mãos.
"Tudo bem, não precisa comprar, mas experimente mesmo assim".
Envolto naquele sentimento de desconfiança, tipicamente paulistana, e do qual não consigo me livrar, aceitei a bala - mesmo com medo de que se tratasse de um boa noite Cinderela. E era realmente gostosa, não tinha aquele gosto de coco, mas eu não tinha dinheiro, nada. Ela disse que estaria caminhando e vendendo balas pelo bairro, e que talvez nos encontrássemos ainda naquela tarde, e que se eu estivesse com dinheiro, poderia comprá-las.
Agradeci a bala, e segui meu caminho.

Mais tarde, já em casa, e trajando apenas minha bermuda do Corintias, a campainha tocou, olhei por uma fresta da cortina e era ela, que rapidamente soltou um: "ah, você mora aqui?". Disse que não mais, estava apenas em férias, e perguntou se eu queria comprar balas. Já me sentindo quase perseguido, entrei em casa e perguntei à minha mãe se ela queria, ela disse que sim, e indicou que eu comprasse dois pacotes.
Os comprei, ela e meu pai comeram mais do que eu, disseram que eram muito gostosas, e o assunto "moça que vende balas de coco de casa em casa na Zona Norte de São Paulo" ficou nisso.

Até que hoje, toca o meu celular - às nove da madrugada! - e uma voz grossa me faz perguntas descabidas para o momento, dentre elas: "escuta, você ligou para a moça que vende balas de coco?". Tive certeza de que se tratava de uma intervenção em meus sonhos, mas estava errado, pois realmente, a moça da bala de coco disse que eu liguei para ela. E a desconfiança e os medos, tipicamente paulistanos, me indicaram que "ficasse esperto" com relação a isso.
Mas, me digam: o que posso fazer estando 450 quilômetros distante de São Paulo, e ainda sem gostar de coco?

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