quarta-feira, 13 de julho de 2011

Sobre Paraty.

Sou apaixonado por essa cidade.
As suas ruas tortas, cheias de pedras redondas, portas retangulares e igrejinhas assimétricas me encantam desde os primeiros olhares trocados aqui ,no já longínquo (e quase decadente, no sentido de fazer quase uma década) agosto de 2002, quando vim à Paraty pela primeira vez. Tratava-se de um "estudo de campo" que o colégio organizava, anualmente, para as 7ªs série do não mais existente "ginásio".
Tenho na memória riquíssimos detalhes desta primeira vinda à cidade, tais quais nomear os cachorros da rua; tentar reproduzir à lápis, em meu caderno pautado, as fachadas das casas; conhecer a 'periferia' da cidade; as boas conversas com alguns poucos bons professores; as tentativas de fotos rebuscadas dos detalhes incríveis na "trilha do ouro"; os colegas medíocres tentando acertar côcos nas águas vivas que se aglomeravam no mar, próximas à areia.
Após este encontro, pioneiro em minha vida, sucederam-se outros cinco: em Maio e Dezembro de 2003, em Fevereiro e Agosto de 2010, e agora, em Julho de 2011.
O encantamento com a cidade, sobretudo estético, fotográfico, fotogênico, sempre fora tônica ao caminhar por aqui, até este em 2011.
Desta vez o encantamento foi-se Rio Perequê abaixo, desaguou no mar que banha a praia central, e perdeu-se no esgoto da praia do pontal. Talvez um desencantamento Weberiano, descrito (pois sentido) com nuances Drummondianos. Aliás, Carlos Drummond de Andrade, o próximo 'homenageado' pela FLIP, e questiono-me se isso aqui pode ser considerado "homenagem".
A percepção da cidade que tive desta vez, notando diversos louvores ao império, à colonização, aos colonizadores, príncipes, reis, rainhas e tudo o mais de dominador que por aqui passou, e que construiu o tal do "charme histórico de Paraty", me chatearam. Essas portas, essas pedras, esses nomes e símbolos de pousadas, remetendo a portugueses, naus e bandeiras, causou-me quase repulsa.
Por que parte repugnante das elites mais nojentas sente-se bem aqui? Como Bóris Casoy, o qual debochei ao encontra-lo por lá no carnaval de 2010.
Desde o primeiro encontro com Paraty entendi a cidade, e os artistas que nela fervilham, como uma resistência. Mas nada me explicava por que Bóris Casoys da vida se sentissem bem ao andar tropicando por entre pedras.
Desta vez, observando calmamente ações de pessoas caminhando pela cidade com taças de champagne na mão, e demais artefatos de finésse, acho que tive um esclarecimento.
Ao ver um jovem rapaz, que eu já havia visto outras vezes pela cidade, caminhando vestido de bobo da côrte e fazendo gracejos em troca de moedas, compreendi: ele é o bobo, Paraty é a cidade que abriga a côrte, a elite mais nojenta, que se locomove de helicópteros até lá para andar em charretes guiadas por homens descalços e desdentados; para tropicar em pedras que foram sabiamente carregadas e organizadas por escravos; para rir do rapaz que organiza o circo de pulgas, pois ele não domina a norma culta do português; e para entender, com ligeira grosseria no discurso, como que aqueles índios não são do Paraguai.
Tive nojo dessa cidade.

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