domingo, 3 de julho de 2011

Sobre estar de férias.

Em Outubro de 2003 meus tios adotaram uma linda garotinha, notavelmente esperta e no auge de seus recentes 4 anos, recém completados. Tão logo chegou para perto de nós[ou talvez antes mesmo disso se concretizar] já foi inscrita naquela instituição que hoje em dia cria-me nós na cabeça quando me proponho a pensá-la: a escola.
Muitas vezes minha avó a buscava na escolinha (no diminutivo, como dizem, creio eu, para amenizar o sentido de dor, culpa e auto-flagelação que tem o nome "escola", e fazer as crianças entenderem que aquilo é intrínseco à vida; mas não é), ela ia para a casa de meus avós [meu templo maior em vida] e por lá ficava até que meu tio ou minha tia ou os dois fossem a buscar.
Nalgum destes dias em que minha vó a buscou, uma sexta feira, coincidentemente eu desembarquei por lá no final da tarde.
Extremamente estriquinada, a mais nova membra da família corria, pulava e se jogava pela casa [e em cima de nós] dizendo e cantando, repetidamente, quase como um mantra: "eu tô de férias, eu tô de férias, eu tô de férias, eu tô de férias". Nenhuma tentativa de mudar o foco da atenção funcionou, fosse chamá-la à mesa, fosse convidá-la ao desenho ou mesmo à televisão, era "eu tô de férias" para todo lado.
Até que, dado momento, cansada desta penosa atividade física [embora para alguns médicos apenas seja atividade física se você estiver com roupa x e em espaço x] ela se sentou sobre minha pernas, olhou para mim e disse: "gabirel [como me chamava à época] eu tô de ferias". Inocente e instigantemente lhe perguntei: "e o que é estar de férias, Tainá?".
Aquietou-se, olhou para mim, brincou com a corrente que eu usava no pescoço [com a qual nunca se conformou do uso que eu fazia], e então me respondeu: "não sei... mas eu tô de férias, eu tô de férias, eu tô de férias", e recomeçou o mantra.
***
Descrevi esta doce lembrança, de um tempo saboroso de minha vida, pois estou cansado. Este período compreendido como semestre [31 de Janeiro à 1 de Julho], um espaço de tempo vivido, fora extremamente cheio, amplo, cansativo e, como os bons momentos/períodos da vida, indefinível; talvez brevemente compreensível em momentos como o acima descrito.
Um semestre claramente cindido: em 2 meses e meio de trabalhos específicos intensos, uma ida à são paulo por 11 dias, e um retorno que direcionou-me a outros trabalhos, distintos e distantes destes primeiros citados. Não houve como não enroscar as idéias na cabeça, e grande parte da satisfação está em perceber que driblei bem tais enroscos, e que chego ao fim do semestre cansado, mas não derrotado.

Tainá não sabia o que era estar de férias, hoje, não tenho dúvidas, ela já sabe bem. E, vivendo a vida como espera-se que ela viva [saboreie, sinta, experimente, ouse, acerte, erre etc] não tenho dúvidas de que, assim como eu, neste momento presente, ela entenderá cada vez melhor o que é estar de férias.

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