sexta-feira, 22 de abril de 2011

sobre a pilotagem.

Quando criança fui instigado a gostar de carros, procedimento padrão em nossa sociedade: meninos gostam de carros, meninas de bonecas. Colecionei miniaturas de carros de corrida, brinquei estar dirigindo diversas vezes, tive carrinhos de controle remoto...
Ai o tempo passou, como é lógica óbvia de qualquer existência, e lá pelos meus quinze anos dirigi um carro pela primeira vez: um fusca, do pai de um amigo. O amigão me disse como fazer o negócio com o pedal de embreagem e não sei o que, dirigiu até uma rua deserta, eu fui para o banco do piloto e ele pro do carona, e fui descendo a rua, numa boa, fiz uma volta no quarteirão e depois subi a mesma rua. Quando o outro amigo de 15 anos pegou no volante quase morremos, mas isso é papo pra outro dia.
O tempo continuou passando, que é o inevitável, e jamais disse sobre este episódio à minha família. Então fiz 18 anos, perguntaram se eu acharia legal tirar carta de motorista, eu disse que sim, até por que, desde criança fui ensinado que faria 18 anos e aprenderia a dirigir; aliás, sempre se referiam a tal como se fosse um algo "do dia para a noite".
Numa sexta feira fui na auto escola, paguei a taxa para começar o "curso", fiz o exame psicotécnico e fui aprovado, com alguma dificuldade (eu não conseguia fazer traços retos). No sábado minha tia me colocou em seu carro e fui o dirigindo, só em primeira e segunda marcha pelas ruas tranqüilas do bairro em que ela morava com meus avós.
Fui aprovado na prova teórica, e começaram as aulas práticas, que escancararam todas as dificuldades com o volante, o câmbio, o freio de mão e, sobretudo, a embreagem. Cumpri as horas necessárias e fui para a prova prática: reprovado.
Marquei algumas aulas a mais e outra prova prática para dali a vinte dias: reprovado.
Era ano de cursinho, deixei pra fazer outra prova na época das férias, em julho; fiz outras aulas práticas e algumas breves andadas pelo bairro dos avós, até que chegou o dia da prova prática: reprovado.
Rompendo com a etiqueta corrente deste blog, de não usar baixo vocabulário: mandei essa merda toda tomar no cu, e me concentrei nos estudos, acabei sendo aprovado para estudar no interior, o que implicaria em me mudar de São Paulo na última semana de fevereiro.
Eis que, no início deste mês, recebo um telefonema da auto escola dizendo que se eu não fizesse a prova até o dia 20, perderia todo o processo desenvolvido no último ano. O que fazer então?
Conversando com o desagradável senhor que me deu aulas práticas, recebi uma sugestão de método não muito ortodoxo, ao qual aceitei. Chegou o dia da prova prática, justamente, o dia 20 de fevereiro de 2008: aprovado.
Me mudei pro interior e a carteira de piloto chegou em casa, minha mãe a guardou para mim. E todas as vezes em que eu vinha para cá era desincentivado a dirigir. É fato que não tive gosto por dirigir (note que minha experiência de pilotagem se resumem praticamente às aulas da auto escola), sou muito distraído também.
Foi fácil coçar a nuca e dizer "da próxima vez você dirige"; assim como é fácil dizer "vá de ônibus" hoje em dia.
Passou-se um ano e eu precisava renovar a carteira de piloto; passaram-se dois anos e eu precisava renovar a carteira de piloto; chegamos ao terceiro ano e ainda não a renovei.
E hoje estou aqui, panguando, implorando para ser levado até o mais perto possível de onde preciso ir para não ter que perrengar no péssimo sistema de transporte público paulistano, que em feriado, é pior ainda.
Talvez seja hora de renovar o bagulho e encher o saco de alguém e alguéns para que eu troque este não gostar por um tolerar por comodidade.
Eu sabia que este dia chegaria.

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