terça-feira, 26 de abril de 2011

A foto perdida de Eva em São Paulo.

Incrível.
Sai do melhor lugar da terra, que não é puramente um espaço físico, mas é qualquer espaço físico com aquele ambiente, aquelas vozes, aqueles cheiros... Sai acompanhado, caminhamos até o metrô, o qual neguei por grande parte da juventude, e hoje vejo como perdi momentos por simplesmente preferir o ônibus, quantos beijos deixei de trocar simplesmente por que preciso pegar o ônibus para ir pra casa por que minha mãe não quer que eu chegue depois das 9 e o ônibus demora 1 hora e meia pra chegar em casa.

Logo que entramos no vagão ela se sentou, um homem gentil, forte, baixinho e que usava anéis grossos, um em cada mão, se levantou para que ela se sentasse. Observei um anúncio, aquela horrenda televisão que enfiaram nos vagões, mais alguns detalhes; ela também observou detalhes, como o furo em minha manga, poderíamos ter costurado isso ai, e mostrei que o furonão é um acidente, é intencional e confortável. Ela se levantou, trocamos um abraço breve como o tempo que a porta fica aberta, ela subiu as escadas rolantes e eu me concentrei em procurar outros detalhes; eu sempre me emociono com ela.


Não demorei para encontrar algo (no caso, alguém) que me garantisse mais entretenimento do que qualquer tv minuto. Tratava-se de uma jovem moça (ou moça jovem), talvez de tantas primaveras quanto eu, talvez até menos, não importa a estimativa que fiz de seus anos, importa, a priori, que era linda, e, a posteriori, o que fazia; no dedo anelar da mão direita, uma aliança prateada, já fosca, indicando bastante uso.
Quando a notei, franzia os lábios para dentro, e acarinhava o rosto todo com um grosso e arredondado pincel, o qual passou seguidas vezes em uma superfície plana e de cor creme, para depois retorná-lo ao rosto; guardou ambos em uma bolsinha azul com bolinhas brancas, e rapidamente sacou um tubo preto, o qual abriu e passou (com uma suavidade apressada) as pontas deste em seus cílios, com a ponta do dedo indicador direito retocava os mesmos, ficando com pintinhas pretas neste; com um lápis, tracejou a parte inferior externa dos olhos.

Estava sentada no banco do corredor, a senhora sentada na parte anexa a janela se levantou e saiu, e a moça jovem (ou jovem moça) rapidamente escorregou-se para lá. Enquanto tampava e guardava o seu lápis de olho, direcionou o olhar a mim e em seguida ao banco, então lembrei-me daquele filme que me arrepiou em uma madrugada qualquer (jogo subterrâneo).
Permaneci em pé, outra senhora sentou-se.
Por fim, abriu um batom, cujo tom não sei definir, e o passou nos lábios, olhou-se em um espelhinho (como fizera durante todo o processo) e colocou os lábios em atrito para dentro da boca; passou um pincel umido, aparentemente pegajoso nos lábios; guardou-o na bolsa de bolinhas, no exato instante em que o vagão ficava lento, parando na estação Paraíso.

Enquanto o vagão ia parando, ela cruzou os braços por cima de sua bolsa cinza claro, e observou a listra azul na parede da estação; o seu reflexo no vidro duplicava a beleza. Encostou a cabeça na janela e o vagão parou, no exato ponto em que o reflexo de seu rosto sombreava o escrito Paraíso.
Encontrei-me com um bom amigo, fizemos um agradável rolê pelo tão sujo centro desta cidade, retornei para casa tirando fotos de dentro do ônibus, mas a foto de Eva, no Paraíso, eu não tirei.