terça-feira, 30 de novembro de 2010

Pontualidades.

Tinha que escolher um curso, uma faculdade, uma universidade, uma formação profissional para levar adiante na minha vida, devendo ser o meu ganha pão no futuro/presente e, se desse sorte, ser uma boa fonte de prazer, interesses, gosto, e outros termos tomados aqui como positivos; se não de prazer, no mínimo que não fossem criadores de estress, de depressão, chateação, chamas nos olhares e coisas do gênero, compreendidas aqui como negativas.
Portas fechadas, portas abertas, cheguei aqui, aonde construo essa coisa toda, grande parte das vezes cansativa, chateante, as chamas se acendem frequentemente, e até alguns resquicios/vestígios/sintomas/aparecimentos, etc de depressão. O que não quer dizer que, no fim das tardes, eu não tenha os meus gostos saboreantes de prazer, em pequenos vicinhos leve e brevemente aliviantes dos estresses; e/ou em pequenos prazeres, únicos em finais de tardes chuvosas, adocicando-se/me (...).
Questiono-me, desde antes do começo desta brincadeira, se a escolha estava certa, às vezes penso que vim pra área errada, às vezes me dão quase certeza disso, às vezes penso que vim pra casa errada; às vezes me frustro mais do que chateio ou saboreio.
Mas o que importa mesmo é perceber que a área é tão grandiosa, e abarcadora de tantas, tamanhas e diversas subjetividades, algumas que compreendem existir apenas uma maturidade, outras que compreendem existir apenas uma forma de respeito, ou mesmo uma forma única de subjetividade (a salientar: a sua), como exemplos.
E ai, no frigir dos tensos ovos em tardes acalouradas, percebo que, apesar de tudo (e coloque tudo neste tudo), eu gosto de estar aqui fazendo as coisas dessa forma, e entendo, me perdoe se isto soa desgostoso, mas a minha subjetividade também faz parte desta brincadeira que desenvolvemos juntos.
Ps: e que se lembre a minha angústia não cabe nesta pauta de greve.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Disposição/Recuperação.

Acordei nesta segunda feira, dia 29 de Novembro, com uma extrema e intensa vontade e disposição para estudar o que tenho a estudar; colocar a bunda na cadeira e socar a cara e o cérebro nessas coisas que devo ler, pensar, refletir, escrever etc. Antes disso, dei um tempo para passar um pano na cozinha, e eis que uma reflexão, quase nostálgica, me trouxe à mente uma irônica lembrança, com ar de coincidência.

No colégio em que estudei por longos anos de vida, a última semana de Novembro era marcada por ser um divisor entre as aulas regulares e o período da recuperação, no qual, independentemente das suas notas durante o ano, deveria se chegar ao final de duas semanas, e duas provas, tendo uma média 6 em cada disciplina; praticamente um coração de mãe.

A organização e reunião quase maçônicas, ditas conselho dos professores, ocorria nesta última semana de Novembro, lá pela terça ou quarta feira, e na quinta ou sexta fixavam no mural da escola a lista dos alunos aprovados, a lista das disciplinas que cada qual cumpriria na recuperação, bem como a possibilidade da temida frase “conversar com o coordenador”, indicando reprovação. Era um período levemente tenso, facilmente superável pela tensão do aguardo de uma nota de métodos sociológicos que pode ferrar com o currículo, que, por sua vez, será facilmente superável pela frustração de não passar em uma prova desejada de mestrado.

Bem, retornando à última semana de Novembro e a escola. Da quarta série em diante eu fiquei de recuperação todos os anos, em, no mínimo, três matérias, com alguns anos tendo pego quatro disciplinas, e em outros anos sendo aprovado por conselho em uma ou duas outras. Fato é que a segunda feira da última semana de Novembro sempre foi marcada por acordar em um dia sem aula e dizer/pensar: “é isso, vamos começar a estudar...” (até por que, eu já sabia em quais matérias eu ficaria de recuperação).

E então o ano letivo, de estudo concentrado, começava para mim, para terminar dali três semanas.

Hoje, acordei com essa vontade de estudar, não pela recuperação, mas pela vontade mesmo.

Ps: os professores mais clássicos (talvez representantes da escola falida que alguns textos da licenciatura dizem) devem se assustar ao me imaginar gostando de estudar, visto que o que eles compreendem como estudo pra mim sempre foi um grande finge, passível de ser contornado dando um balão nos duzentos dias letivos do ano, e tocando em frente em pouco mais de dez dias de recuperação. De modo que este texto poderia se chamar como venci a escola.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Dedão.

Erguer o dedão, sinal de positivo, cumprimento, saudação, jóia, simpatia etc.
Tenho um sério problema com meu dedão.
Não com meu dedão em si.
O problema está mim,
Como não deveria deixar de ser.
Os dias às vezes sobem.
Os dias às vezes descem.
Os dias às vezes sobem e descem.
Sobe os desce dias sobe às desce vezes sobem ou descem.
Quando sobe tenho o problema com o meu dedão.

Fico mais simpático do que político em final de Setembro.
Fico mais simpático do que jogador em final de Título.
Fico mais simpático do que nadador em final de Piscina.
Fico mais simpático do que professor em final de Semestre.
Fico mais simpático do que médico em final de Cirurgia.

E erguo meu dedão,
Para qualquer mínimo conhecido
Que por mim passe.
Ai,
Dói o meu dedão,
De tanta simpatia.

sábado, 20 de novembro de 2010

Consciência Negra.

Fui fazer um café pra ver se pego no tranco, olhei pela janela e vi uma vizinha chegando em casa, ai pensei "ê mocoronga". Me lembrei então de uma passagem de minha vida que combina com mais uma data plástica e à serviço da ordem, como esse "dia da consciência negra".
Foi em 2004, costumava sair da aula às sextas e ir pra Galeria do Roque, aonde sempre me encontrava com alguém, ou alguéns.
Em uma destas ocasiões eu perambulava por aqueles corredores escuros, à época, sem seguranças ou roupinhas coloridas, quando parei para olhar a vitrine de uma loja muito bem freqüentada com mensagens pacíficas de harmonia por todos os cantos.
Por trás do vidro da vitrine se via: uma pequena prateleira com diversos tipos e modelos de socos ingleses; cuturnos de cores e tamanhos distintos; facas dobráveis e portáteis; tchacos japoneses (é assim que chama?); acessórios militares diversos; livros (que certamente não eram do Ghandi); um taco de beisebol preto com uma cruza vermelha na ponta, e alguns outros produtos básicos para pacifistas em geral que a memória não me permitiu recuperar (e eu não anotei naquele caderninho que já andava sempre comigo).
Recordo-me de ficar um bom tempo parado na frente da vitrine observando tudo o que nela havia, quando três mulheres negras, vestindo roupas curtas se aproximaram da mesma vitrine e, consequentemente, de mim.
Indiferente, continuei olhando os produtos que as crianças de classe média pediriam no natal, quando uma das mulheres colocou o dedo no vidro, apontando a prateleirinha com os socos ingleses, e disse alto:
"esse negócio de dedo pra bater naquelas macaca preta da favela ia estragar".
Até hoje não consigo interpretar este fato, e achei curioso ele me vir à memória (e me fazer remexer meu primeiro caderninho de bolso) justamente no dia da consciência negra.

sábado, 13 de novembro de 2010

o "torcedor".

no recinto concentradamente corintiano, entrou um sujeito com camisa do cruzeiro de mãos dadas com uma criança vestindo camiseta do São Paulo. O que vestia a camisa amarela do time de Minas falou alto, para que todos ouvissem:

"Hoje sou cruzeiro, semana que vem sou vitória, e quem mais puder derrubar o corintias".

Um dos garçons me disse "é são paulino, vem sempre aqui".

O "torcedor" era espalhafatoso com as jogadas do cruzeiro, sempre olhando para os corintianos, como eu.

Moralmente pensei: "exemplo legal o pai está dando pro filho".

Quando ocorreu o penalti ele se levantou e foi na direção do caixa, tomou vaia dos corintianos e eu, com a força da minha corintianice gritei ao "torcedor": "hey freguês, não esquece a nota".

Irônia no futebol on the roques!

VAI CORINTIAS!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Emprestar as coisas.

Quando criança minha mãe me ensinou a emprestar as coisas com os amiguinhos, compartilhar o que fosse meu; na casa de minha avó havia uma série de coisas que não eram minhas ou suas ou dela, mas sim que recebiam a nomenclatura é de todos. Este todos pode ser analisado, refutado etc.
Reciprocamente, fui ensinado também a quando pegar algo emprestado cuidar e devolver como encontrei, às vezes usava-se uma lógica egoistíca/individualistíca para exemplicar este "cuidar bem", cuide como se fosse seu, e entregue do jeito que pegou.
Se o manolo da rua havia me emprestado um robô dos pauer rengers, eu deveria o devolver da forma como o peguei: com todas as luzes que piscavam, piscando, com todas as engrenagens que estavam quebradas, quebradas.
O tempo foi passando (como é lógica prerrogativa da vida) e eu fui me desapegando da forma extrema como a educação materna/doméstica/familiar se apegara em mim na infância. Experiências frustrantes com empréstimos não honrados, isto é, não devolvidos, me fizeram deixar de crer que emprestar as coisas pudesse ser realmente algo bom para o todos que os meus avós diziam.
Se eu me sinto prejudicado, já é um dentre todos do todo que não está feliz/satisfeito com o empréstimo.
Fui criando, e este processo não cessa, toda uma teoria sobre o que emprestar, a quem emprestar; verdadeiras categorias de objetos emprestáveis e não emprestáveis, pessoas passíveis de emprestabilidade e não passíveis, momentos em que emprestar é um ato bacana, tal qual fui educado.
Exemplo: na última viagem coletiva em que realizamos eu estava em uma situação que permitia, sem rodeios, a emprestabilidade de meu mp3 player e fone de ouvido, enquanto eu fazia zona, conversava, tocava violão etc no fundo do ônibus, um amigo mais a frente me pediu o equipamento citado. Quando o peguei de volta, após ser repreendido por alguns colegas por estar o tomando a força do amigos (após ele passar 2 horas ouvindo música) ele me devolveu a baratinha que toca música, ouvi duas ou três belas canções do Jair Naves e a bateria acabou, e o trajeto que eu faria contemplando a paisagem ao entardecer, ouvindo Araguari, se realizou num tédio negativamente silencioso.
Ontem, por conta de tudo que ocorreu ontem, acabei por emprestar o meu mp3 player e a minha câmera fotográfica (esta, no topo dos objetos não emprestáveis, mas que foi necessário deixá-la na faculdade).
O mp3 eu peguei hoje cedo, totalmente disforme daquele mp3 que deixei nas mãos do cidadão: ele estava funcionando, agora não está mais; a câmera eu ainda não tive de volta...

domingo, 7 de novembro de 2010

Instrumental.

Filmei a mostra de djez e instrumental de quinta a ontem à noite, cansativo por demais. A música é boa, mas ontem, na última apresentação, eu já estava cheio, clamando por ouvir um Ramones.
Estava atrás do balcão naquela casa que tantas vezes me proporcionou momentos de roque insano, mas o que ocorria era uma viola de 14 cordas e um piano elétrico. Estava cansado, por vezes cochilei.
Dado momento da noite, um jovem que destoava do padrão estético do público encostou no balcão com uma garrafa de cerveja. Vestia uma camisa pólo de uma marca de sãrfe, um boné de aba reta e bigode piscina (daquele que você vê o fundo).
Começou a papear com o responsável do bar, perguntou se lá só tem música assim sem alguém cantando. Um explicou ao outro que costuma ter roque também, mas que esta semana era só música instrumental. O rapaz disse ainda que prefere música cantada e que o irmão dele trabalhou na pintura da casa.
Pegou sua cerveja e disse que ia descer, que não curtiu o som.
Na sexta feira à noite, na mesma casa, membros integrantes de algo que me parece ser um partido, discutiam sobre aquele tipo de música ser elitista, não ser acessível.
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Anpocs 2010-III.

Piada com intelectual.

Em uma das manhãs em Caxambu a programação da Anpocs organizou uma bela mesa redonda, para meu desagrado, não tinha o Chico Lang, mas me agradou a presença de Renato Ortiz, um intelectual simpático, que eu já havia assistido falas na anpocs do ano passado (se não me engano), bem como na SBPC de 2008. Havia mais três rapazes na mesa, mas não me recordo o nome deles, sei que eram dois franceses e um outro, ao que meu ouvido registrou, brasileiro.

Bem, a mesa foi muito boa, a fala do Ortiz em especial, foi tão boa quanto as duas outras vezes em que presenciei o seu raciocinio sendo exposto.

Sai antes do final da fala do quarto jovem, minha cabeça já estava mais pra lá do que pra cá com tanta informação e reflexão. Andei pelo saguão do hotel, comi um bolo do coffe break, tomei um café e fui ao banheiro.

Após lavar as mãos me virei na direção da porta, a abri junto com um rapaz que entrava no mesmo, dei um passo para trás para não atropelá-lo, e pisei num pé atrás de mim, por reflexo, dei outro passo para frente e acabei por atropelar o rapaz que entrava e o que saia.

O rapaz atrás de mim me deu um toque no ombro e pediu desculpas, era o Ortiz, e então fiz uma piada com o intelectual: "desculpe a mim, que causei um atropelamento duplo: peguei o da frente e o de trás".

Ele riu.